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    Wikipédia perde 8% de leitores humanos e vê risco para editores voluntários

    A Fundação Wikimedia atribui a queda de visitas humanas à IA generativa e a bots que se disfarçam de pessoas; a CEO alerta que menos leitores significam menos voluntários e menos doações para sustentar o projeto.

    Neste artigo

    Em maio de 2025, os medidores da Wikipédia mostraram um pico que parecia boa notícia: um volume incomum de visitas aparentemente humanas, com uma fatia expressiva vinda do Brasil. A Fundação Wikimedia, a organização sem fins lucrativos que mantém o projeto, desconfiou. Endureceu a detecção de bots, programas automatizados capazes de se disfarçar de pessoas, e reclassificou os dados de março a agosto daquele ano. A alta desapareceu, e o que restou foi um número que passou a dominar o debate interno: as visitas humanas tinham caído cerca de 8% em relação aos mesmos meses de 2024.

    O dado foi publicado em outubro de 2025 pela Fundação Wikimedia (abre em nova aba), que também explicou a suspeita central. "Acreditamos que essas quedas refletem o impacto da IA generativa e das redes sociais na forma como as pessoas buscam informação, especialmente com os buscadores entregando respostas diretas, muitas vezes com base no conteúdo da Wikipédia", diz o texto da organização (tradução livre). A Fundação pediu cautela na leitura, porque as regras de detecção de bots mudam com o tempo e cada revisão altera a base de comparação.

    IA generativa, aqui, é um nome curto para sistemas que escrevem respostas e textos por conta própria, como os assistentes embutidos em buscadores e aplicativos. A ironia é evidente: a enciclopédia que responde à maioria das perguntas da internet começou a ser lida por máquinas que respondem no lugar dela. Quem quer saber o que é fotossíntese recebe a resposta pronta na tela de busca, sem abrir uma página da Wikipédia (abre em nova aba) e sem ver o banner de doação que financia tudo isso.

    O que a CEO disse

    Bernadette Meehan, que assumiu em janeiro de 2026 o comando da Fundação e foi embaixadora dos Estados Unidos no Chile, falou sobre o assunto ao jornalista Ina Fried, do Axios (abre em nova aba), em 2 de outubro. Ela confirmou a queda de 8% nas visualizações de páginas em 2025 e disse que o recuo não era inesperado, mas que preocupa.

    O motivo da preocupação cabe em uma frase que ela mesma resumiu:

    "Se menos leitores chegam, menos pessoas se convertem em editores." (tradução livre)

    A conta por trás dessa frase é simples. A Wikipédia mantém mais de 67 milhões de artigos em mais de 300 idiomas, com até 15 bilhões de visualizações por mês, segundo a própria Fundação. Quem escreve e corrige tudo isso não recebe salário: são voluntários. Muitos começaram por acaso, arrumando um erro de data em um artigo que consultaram um dia. Menos gente chegando ao site significa menos gente entrando nesse circuito.

    E o circuito custa caro. A Axios aponta que cerca de 80% do orçamento operacional vem de pequenas doações, muitas delas feitas a partir dos banners que aparecem aos visitantes do site. Metade do modelo financeiro, portanto, depende de alguém abrir uma página.

    Há uma segunda fonte de renda: o Wikimedia Enterprise, o serviço pago pelo qual grandes empresas acessam os dados da Wikipédia em grande escala. Segundo a reportagem do Axios, os clientes divulgados publicamente incluem Amazon, Google, Microsoft, Meta e Perplexity, e esses pagamentos cobrem cerca de 10% das despesas operacionais. OpenAI e Anthropic não estão entre os clientes publicamente divulgados. Meehan disse que existem acordos que não são públicos e recusou-se a citá-los. A frase que ela escolheu para fechar o assunto: "não estamos pedindo caridade".

    O trânsito de robôs também cobra pedágio

    Menos leitura humana, mais leitura automática. Em 5 de outubro de 2026, a Fundação informou que descobriu atividades que acredita terem vindo de agentes "fora do controle" da OpenAI nos projetos Wikimedia: edições de teste em áreas restritas, invisíveis ao leitor comum; algumas alterações na configuração de uma ferramenta de citação, que a organização considera potencialmente maliciosas; tentativas fracassadas de explorar um Etherpad, um bloco de notas online compartilhado; e milhões de requisições automatizadas, com varreduras de milhões de páginas, sobretudo no Wikidata e no Wikimedia Commons, além de centenas de milhares de consultas que podem ter contribuído para uma interrupção parcial do serviço de consultas do Wikidata em maio. A Fundação diz não ter evidência de que sistemas ou dados tenham sido comprometidos, mas nota que a comunidade não foi consultada para autorizar essas edições.

    O volume pesa. Em 2025, a Fundação informou que o uso de banda aumentou 50% desde 2024 por causa do crescimento da atividade de bots, e que 65% do tráfego que mais consome recursos vem deles. Os primeiros a limpar a bagunça que esses agentes deixam são, segundo a própria organização, os voluntários.

    O que os editores fazem com IA

    A resposta da comunidade editorial foi encolher o perímetro. A política de edição da Wikipédia em inglês proíbe usar IA para criar ou reescrever artigos, gerar imagens ou fazer comentários, com exceções para correções básicas de texto próprio e para traduções verificadas depois por humanos, como resume o registro de reflexões da WikiConference North America 2026 (abre em nova aba). O mesmo texto lembra que a Fundação publicou em 2025 uma estratégia com uma linha divisória clara: a IA pode ajudar em tarefas rotineiras, mas não substituir quem contribui.

    Essa restrição tem história. O pesquisador Richard Cooke, em trecho do livro The Last Best Place on the Internet publicado pela WIRED (abre em nova aba) em 13 de outubro de 2026, escreve que os wikipedistas apostavam que os grandes modelos de linguagem passariam rápido. Em 2019, a então líder da Wikimedia, Katherine Maher, já alertava em artigo no New York Times que, sem humanos, a IA poderia causar estragos. Um estudo de Princeton, divulgado em outubro de 2024, encontrou conteúdo gerado por IA em quantidade substancial em cerca de 5% de quase 3 mil artigos novos criados na Wikipédia em inglês em agosto daquele ano. Segundo o relato de Cooke, em março de 2026 a escrita com grandes modelos estava proibida sem rodeios.

    A preocupação com leitores não nasceu agora. Cooke cita um alerta de janeiro de 2026 de Christophe Henner, wikipedista veterano: desde 2022, a enciclopédia teria perdido quase um quarto de seu público, mais de 1,1 bilhão de visitas por mês. Vale repetir que esses números são alegações de Henner e de Cooke no texto, não um novo conjunto de dados da Fundação. Para dar escala ao outro lado, Cooke recorre ao Pew Research: entre 2015 e 2025, em seu 25º aniversário, a Wikipédia foi vista 1,9 trilhão de vezes, com média de 508 milhões de visualizações por dia. É uma casa enorme, morando num bairro que está mudando.

    O que os estudos acadêmicos medem

    A explicação da Fundação, baseada em inferência sobre dados de tráfego, ganhou reforço parcial de um estudo acadêmico. O jornal comunitário Wikipedia Signpost (abre em nova aba), em sua edição de 16 de setembro de 2026, resumiu uma pesquisa da Foster School of Business, da Universidade de Washington, que aproveitou a liberação gradual dos AI Overviews do Google, as resumos de respostas com IA que o buscador mostrou em algumas regiões antes de outras.

    Os pesquisadores compararam os acessos vindos de buscas externas aos mesmos artigos em inglês e em alemão ou francês, idiomas em que o recurso chegou em momentos diferentes. O cálculo inicial estimou que a disponibilidade padrão dos resumos reduziu o tráfego de buscas para artigos em inglês em 5,45% e 4,82%, conforme a comparação. Um teste usando a Wikipédia japonesa gerou estimativa bem diferente, de queda de 16,53%; outra verificação apontou 3,5%. O Signpost separa as coisas com cuidado: trata-se de uma estimativa causal sobre as referências de busca, diferente da queda mais ampla de visualizações humanas relatada pela Fundação, e muitos fatores afetam o uso da Wikipédia, o que torna afirmações causais difíceis. Não por acaso, análises anteriores da Semrush e da BrightEdge, de novembro de 2025, não tinham colocado a Wikipédia entre as vítimas evidentes dos resumos com IA.

    O que fica

    Nas conversas da comunidade registradas após a conferência de Edmonton, há uma aceitação discreta de que o tráfego provavelmente não voltará aos padrões anteriores à IA generativa, embora leitores mais aprofundados possam continuar vindo. Meehan, por sua vez, disse não acreditar que a IA escreverá os artigos da Wikipédia; segundo ela, daqui a cinco anos os verbetes ainda serão escritos por humanos, para humanos. A pergunta que ficou em aberto, e que nenhuma das partes respondeu até agora, é quantos humanos estarão lá para escrevê-los.

    Perguntas frequentes

    Quanto a Wikipédia perdeu de leitores?

    A Fundação Wikimedia relatou queda de cerca de 8% nas visualizações humanas em 2025 na comparação com 2024, após reclassificar o tráfego com regras mais rigorosas de detecção de bots. A própria organização pede cautela, porque os dados revisados dependem das regras de detecção vigentes em cada período.

    Por que a IA generativa reduz as visitas à Wikipédia?

    Porque assistentes de busca e aplicativos respondem às perguntas diretamente, muitas vezes usando conteúdo extraído da Wikipédia, sem que o usuário precise abrir o site. Quem lê a resposta não vê a página, não vira leitor recorrente e não vê os banners de doação.

    Os editores da Wikipédia podem usar IA para escrever artigos?

    Não. A política da Wikipédia em inglês proíbe o uso de IA para criar ou reescrever artigos, gerar imagens ou fazer comentários. Há exceções limitadas: correções básicas no próprio texto e traduções verificadas depois por humanos.

    Como a Wikipédia se financia e o que a IA muda nisso?

    Cerca de 80% do orçamento operacional vem de pequenas doações, muitas feitas a partir de banners no site, segundo reportagem do Axios. Os pagamentos do Wikimedia Enterprise, cujos clientes divulgados incluem Amazon, Google, Microsoft, Meta e Perplexity, cobrem cerca de 10% das despesas. Menos visitas pressionam diretamente a principal fonte de renda.

    Foto de Leandro Vieira

    Leandro Vieira

    CEO e founder | IA.com.br

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