Fábricas costumam montar coisas. A que aparece num vídeo divulgado em 23 de outubro desmonta. Numa bancada comprida, em algum lugar da China, operários abrem caixas lacradas da GeForce RTX 5090, a placa de vídeo mais potente que a Nvidia (abre em nova aba) vende para quem joga no computador. Eles arrancam ventoinhas e dissipadores, tiram o chip principal e a memória e transplantam tudo para outra placa, mais fina. O que sai dali não volta para o gamer. Vai para servidores de inteligência artificial.
O vídeo foi publicado pelo perfil HKEPC no X e repercutido pelo Tom's Hardware, pelo PC Gamer, pelo Futurism e pelo Lowyat.NET. Tem um defeito de origem: segundo o Lowyat.NET, a gravação original já foi retirada do ar. Ninguém informou onde fica a fábrica nem para quem vão as placas. Nas palavras do Futurism, o destino da carga é, "na melhor das hipóteses", incerto. O que se vê, porém, é uma operação com começo, meio e fim.
Uma linha de montagem ao contrário
Pela descrição do HKEPC e do Lowyat.NET, o trabalho segue seis etapas: compra, abertura das caixas e desmontagem, dessoldagem, remontagem, testes e reembalagem. Entram placas de todas as marcas, como Asus, Gigabyte e MSI, e até a Founders Edition, fabricada pela própria Nvidia. O chip GB202 e a memória GDDR7 são "soprados" para fora da placa original, no jargão do HKEPC. Em outras palavras, são dessoldados e recolocados numa placa nova. Depois, dezenas de unidades rodam ao mesmo tempo testes de desempenho e estabilidade em bancadas abertas, e só as aprovadas voltam para a caixa. O PC Gamer estima que a escala seja de "centenas, possivelmente milhares" de placas.

O motivo de tanto trabalho é físico: a placa de gamer não cabe direito num servidor. O modelo comercial usa três ventoinhas grandes, ocupa de três a quatro encaixes dentro do computador e solta o ar quente para dentro do gabinete. Numa máquina de IA, onde várias placas ficam lado a lado, isso vira um forno. A versão remontada usa refrigeração do tipo turbina, ocupa dois encaixes e empurra o calor para fora, pela traseira. Cabem mais placas no mesmo espaço, e elas esquentam menos.
O HKEPC, que divulgou as imagens e fez a descrição mais detalhada do que elas mostram, também ofereceu a explicação econômica:
Diante da demanda por computação de IA, que continua intensa, e num cenário de escassez de poder computacional, a placa de vídeo para jogos GeForce RTX 5090 segue sendo um substituto popular no mercado de computação para IA. Atualmente, o preço da GeForce RTX 5090 já foi inflado pela especulação até perto do patamar de 10 mil dólares, um valor que os jogadores simplesmente não têm como pagar.
O preço conta o que o fabricante não conta
A placa foi lançada com preço sugerido de US$ 1.999. O PC Gamer desistiu de acompanhar o preço nos Estados Unidos porque só encontrava anúncios de vendedores terceiros, e resumiu a situação numa frase: uma placa de vídeo para games por mais de 8 mil dólares "simplesmente não faz sentido". O Futurism fala em valores "bem acima de 10 mil dólares", embora o link que apresenta como prova trate de uma placa "chegando a 9 mil".
| Referência | Valor | Quem informa |
|---|---|---|
| Preço sugerido no lançamento | US$ 1.999 | Futurism |
| Anúncios de terceiros nos EUA | acima de US$ 8.000 | PC Gamer |
| Patamar atual | perto de US$ 10.000 | HKEPC |
| Preço médio na Malásia | RM 28.000 | Lowyat.NET |
A Nvidia sustenta que a RTX 5090 está "viva" e que a produção não parou. Jeff Fisher, vice-presidente sênior da empresa, admitiu que o fornecimento está "restrito". Segundo o Futurism, a loja online da própria Nvidia não exibia a placa. O PC Gamer afirma que o estoque para o consumidor comum nos Estados Unidos "e em muitos outros países" parece "praticamente inexistente". Uma placa viva que não aparece na vitrine do próprio fabricante leva uma vida discreta.
Há ainda um detalhe que deixa a história mais estranha. De acordo com o PC Gamer, a RTX 5090 não é vendida oficialmente na China. Mesmo assim, fábricas do chamado mercado cinzento, o comércio que corre por fora dos canais autorizados, estariam espalhadas pelo país. A placa que não entra pela porta da frente aparece aos milhares na bancada dos fundos.
O que o vídeo prova e o que não prova
O Tom's Hardware foi direto: quem quer saber por que a RTX 5090 "evaporou das prateleiras" encontra a resposta nas fábricas de conversão chinesas. A explicação é sedutora, mas o vídeo sustenta menos do que isso. Ele mostra que existe pelo menos uma linha industrial transformando placas de jogo em peças de servidor, com método e controle de qualidade. Não diz quantas fábricas desse tipo existem, que fatia do estoque mundial passa por elas nem se a restrição de fornecimento admitida pela Nvidia tem outras causas. As duas coisas podem ser verdade ao mesmo tempo, e provavelmente são.
Para o gamer, a conclusão é simples e amarga. Ele disputa a mesma placa com quem monta máquinas de IA, e esse concorrente aceita pagar o que ele não pode. Enquanto faltar poder de computação para inteligência artificial, uma RTX 5090 na caixa vale mais aberta na bancada de uma fábrica do que ligada num PC de jogos.


