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    NotíciaSociedade e regulação

    Vídeo bancado pelo CAIS leva ao YouTube a tese da guerra preventiva contra IA

    Peça patrocinada pelo Center for AI Safety e publicada em 17 de outubro usa teoria dos jogos para defender que países podem ter de agir antes que uma IA rival fique forte demais. A tese ecoa o MAIM, doutrina ligada à entidade que prevê sabotagem de projetos de IA de outros países.

    Quadro-negro com uma matriz de dois por dois desenhada a giz, com setas e símbolos que representam as escolhas de dois países rivais, iluminado por luz lateral de fim de tarde em uma sala vazia
    Vídeo patrocinado pelo Center for AI Safety recorre à teoria dos jogos para sustentar que países podem ter de agir antes que um rival ganhe vantagem decisiva em inteligência artificial
    Neste artigo

    Em 17 de outubro de 2026 foi publicado no YouTube Why Humanity Might Have to Declare War on AI ("Por que a humanidade pode ter de declarar guerra à IA"), com patrocínio do Center for AI Safety (abre em nova aba) (CAIS). A peça leva a um público amplo uma ideia que até aqui circulava em artigos acadêmicos e documentos de estratégia. A ideia é que governos podem concluir que agir contra um projeto de IA avançada, antes que ele fique poderoso demais, é a escolha racional.

    O argumento usa ferramentas clássicas da teoria dos jogos aplicada a conflitos: negociação em crise, guerra preventiva e falhas de informação. No dia seguinte, 18 de outubro, o CAIS Action Fund divulgou um comunicado de apoio a um documento atribuído ao CAIS, o Superintelligence Strategy. O texto defende essa mesma lógica com outro nome e prevê sabotagem de projetos de IA de países rivais.

    As datas próximas não provam coordenação, mas o desenho é claro. Uma organização com uma tese sobre segurança nacional financia uma explicação didática que aponta na mesma direção. Isso não torna o argumento errado. Torna obrigatório lê-lo como defesa de uma posição, com patrocinador conhecido.

    Apresentador de costas, em estúdio com refletores suaves, aponta para um quadro com uma matriz de teoria dos jogos que compara as opções de dois países
    Vídeo patrocinado pelo Center for AI Safety usa teoria dos jogos para sustentar que países podem ter de agir antes que um rival se fortaleça, tese próxima da doutrina MAIM.

    A tese, sem jargão

    A base teórica é o chamado modelo de barganha da guerra, inspirado em um trabalho do cientista político James Fearon de 1995. Ele parte de uma pergunta simples. Se a guerra é cara para todos, por que países racionais entram nela em vez de fechar um acordo? Duas respostas pesam mais:

    • Falha de informação: um lado avalia mal a força do outro e aposta num conflito que acha que vai ganhar.
    • Problema de compromisso: quando o equilíbrio de poder está mudando rápido, o lado que vai perder força não confia que o rival cumprirá o acordo depois de ficar mais forte. Atacar agora parece mais barato do que esperar.

    Um artigo publicado na revista AI & Society (abre em nova aba) em julho de 2025 aplica esse modelo à inteligência artificial geral, a IA com capacidades amplas, parecidas com as humanas. A conclusão é que a IA piora as duas causas de guerra. É difícil medir o que um modelo realmente consegue fazer. Esses sistemas funcionam como caixas-pretas, que nem seus criadores conseguem interpretar por completo. E a IA processa informação de um jeito diferente do humano. Somam-se a isso possíveis saltos de capacidade "rápidos e descontínuos", que são exatamente o tipo de mudança de poder que gera problemas de compromisso.

    É esse o raciocínio da guerra preventiva. Se o rival está prestes a dar um salto que você não conseguirá alcançar, e você não confia no que ele fará depois, agir antes deixa de parecer loucura e passa a parecer cálculo.

    De onde vem a ideia de sabotar datacenters

    O Superintelligence Strategy (abre em nova aba) é assinado por Dan Hendrycks, Eric Schmidt e Alexandr Wang. Os autores argumentam que os países precisam de uma estratégia para a superinteligência comparável à que construíram para as armas nucleares. O centro da proposta é o MAIM, sigla em inglês para "mau funcionamento mutuamente assegurado da IA". O nome faz um trocadilho com o MAD, a destruição mútua assegurada da Guerra Fria. No MAIM, qualquer tentativa agressiva de um país de conquistar domínio unilateral em IA seria respondida com sabotagem preventiva pelos rivais.

    O documento lista as formas dessa sabotagem. Elas vão da degradação secreta de treinamentos de modelos até possíveis ataques cinéticos contra datacenters. "Cinético" é o jargão militar para ataque físico. Os autores tratam a sabotagem de um projeto de IA desestabilizador como algo relativamente fácil. Por isso afirmam que o MAIM já descreve a situação estratégica em que as superpotências de IA se encontram. O texto diz ainda que, quando os países entenderem em conjunto o que a IA significa para sua segurança, cada um agirá para sabotar projetos rivais que o ameacem.

    A proposta tem mais dois pilares. O primeiro é a não proliferação, para impedir que IA com uso militar chegue a atores fora de controle. O segundo é a competitividade, com o uso da IA para fortalecer economias e Forças Armadas. No comunicado de 18 de outubro, Varun Krovi, identificado como diretor-executivo, apresentou dissuasão, não proliferação e competição como uma abordagem "para a segurança nacional na era da IA".

    É aqui que o título da peça engana o leitor desavisado. Na doutrina que sustenta essa discussão, "guerra contra a IA" não quer dizer humanidade contra robôs. Quer dizer um Estado atacando a infraestrutura de outro: os datacenters, os treinamentos e os projetos de um país rival. O alvo tem endereço, dono e bandeira. É uma proposta geopolítica com rótulo de ficção científica.

    O artigo acadêmico, por sua vez, trata da IA como parte do conflito. Ele chega a soluções muito diferentes: medir melhor as capacidades dos modelos, limitar seus avanços, projetar sistemas mais parecidos com humanos e até permitir que sistemas de IA participem de instituições políticas democráticas. As duas linhas compartilham o diagnóstico de risco de conflito por informação ruim e mudança brusca de poder. Divergem no remédio: uma aposta em medição e contenção negociada, a outra põe a sabotagem no centro.

    Os números do alarme e o que eles não provam

    Quem defende essa agenda costuma citar dois dados. O primeiro é a declaração de 2023 do próprio CAIS, segundo a qual reduzir o risco de extinção causado pela IA deveria ser prioridade global ao lado de pandemias e guerra nuclear. O segundo é uma pesquisa de Grace e colegas, de 2024, com cientistas que publicaram nos principais fóruns da área. Nela, o entrevistado mediano atribuiu pelo menos 10% de chance de a IA avançada levar a resultados tão ruins quanto a extinção humana.

    O número mostra que a preocupação não é marginal entre pesquisadores. Mas é uma média de opiniões, não uma medição. E existe uma distância grande entre "especialistas acham o risco relevante" e "bombardear o datacenter de outro país pode ser racional".

    A tese da guerra preventiva também depende de duas premissas que os autores apresentam quase como dadas:

    1. Os saltos de capacidade serão súbitos. Pelo próprio modelo de barganha, se a IA avançar de forma gradual, sobra tempo para negociar e o incentivo ao ataque preventivo encolhe.
    2. Sabotar é fácil. O Superintelligence Strategy parte daí logo no resumo. Se não for verdade, a dissuasão mútua que o MAIM promete perde a base.

    Afirmar que o MAIM "já descreve" a realidade é uma tese sobre como as superpotências se comportam. Não é relato de uma política oficial adotada por algum governo.

    O que muda para quem lê

    Para quem usa assistentes de IA no trabalho, nada disso altera a ferramenta de amanhã. O que muda é o enquadramento da conversa. Quando o debate sobre IA migra do vocabulário de produto e ética para o de dissuasão, sabotagem e não proliferação, a tendência é que as decisões saiam das empresas e passem para governos e Forças Armadas. Essa tendência é uma inferência, mas segue a lógica do próprio documento. E as instalações discutidas como possíveis alvos são do mesmo tipo das que treinam os modelos usados no dia a dia.

    Diante de qualquer conteúdo que fale em "declarar guerra à IA", vale fazer três perguntas concretas. Guerra de quem contra quem? Baseada em quais premissas sobre a velocidade da IA? E quem pagou pela explicação? No caso desta peça, a terceira resposta já é conhecida: o Center for AI Safety, a mesma organização à qual é atribuída a doutrina que torna a sabotagem de projetos rivais uma peça de estratégia nacional.

    Foto de Leandro Vieira

    Leandro Vieira

    CEO e founder | IA.com.br

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