Trump defende data centers, mas pesquisas mostram resistência até entre eleitores do MAGA
Enquanto o presidente americano reforça o apoio à construção de data centers, estratégistas do próprio partido alertam que a posição é eleitoralmente arriscada. Pesquisas recentes indicam que a maioria dos americanos, inclusive parte dos republicanos, é contra esses empreendimentos.

20 de setembro de 2026
Uma divergência interna vem chamando atenção nos Estados Unidos neste ano eleitoral: de um lado, o presidente Donald Trump defende com entusiasmo a construção de data centers; de outro, pesquisas e memos internos do próprio Partido Republicano indicam que boa parte dos eleitores, incluindo apoiadores do movimento MAGA, vê os empreendimentos com desconfiança. As informações foram publicadas pela revista WIRED em 20 de setembro de 2026.
Antes de entender o embate, vale explicar o termo. Um data center é um galpão de grande porte cheio de computadores ligados 24 horas por dia, que armazenam e processam dados. É a infraestrutura por trás de serviços como inteligência artificial (a chamada IA, programas capazes de simular tarefas humanas, como escrever textos). Como esses computadores esquentam muito, os prédios exigem muita eletricidade e água para resfriamento, e por isso costumam gerar poluição sonora e consumo intenso de energia nas vizinhanças. Pense em uma geladeira ligada o tempo todo: ela consome mais do que uma que abre e fecha. Agora imagine milhares de geladeiras no mesmo terreno.
Milhares de computadores ligados sem parar são a infraestrutura invisível da inteligência artificialPor que isso importa
Em 2026, os Estados Unidos vivem um ano de eleições intermediárias, as chamadas midterms, em que todos os assentos da Câmara e parte do Senado estão em jogo. Data centers viraram um tema central da campanha, segundo a própria WIRED, e a resistência a eles cruza linhas partidárias.
Uma pesquisa da The Economist/YouGov, realizada entre 21 e 24 de agosto de 2026, mostra o clima: 24% dos americanos dizem que construir novos data centers é algo bom para o país, enquanto 47% dizem que é ruim. Sobre o impacto local, 61% se opõem à construção de um data center na própria comunidade, e 62% acreditam que um data center aumentaria a conta de luz, contra apenas 3% que acham que a baixaria.
Entre republicanos, o retrato é mais dividido: 38% consideram os data centers bons para o país e 33%, ruins. Mas há um detalhe revelador. Entre os que se declaram apoiadores do MAGA (sigla de "Make America Great Again", movimento ligado a Trump), 45% veem os empreendimentos como algo bom. Já entre republicanos que não se identificam com o MAGA, os que veem como ruim são 35%, contra 31% que veem como bom.
Outro levantamento, divulgado pelo New York Times em 15 de setembro de 2026, aponta resultado semelhante: mais de 60% dos americanos, incluindo 47% dos republicanos, dizem ser contra a construção de data centers.
A base conservadora que se rebela
A WIRED ilustra essa tensão com o caso de Molly McCann Sanders, texana, católica conservadora e presidente da Eagle Forum Education & Legal Defense Fund, organização fundada pela ativista Phyllis Schlafly. Ela se descreve como "uma mãe MAHA" (MAHA é o movimento "Make America Healthy Again", ligado a setores conservadores que valorizam saúde e alimentação consideradas "naturais").
Segundo Sanders, traduzindo as citações livremente do inglês: "Fico alarmada com a ideia de que esses data centers podem chegar e poluir". Ela afirma não ser especialista em tecnologia, mas diz estar "desconfiada e cautelosa" e quer "ir com calma". Sobre o presidente, ela diz amá-lo, "mas acho que ele está errado sobre os data centers". Ela classifica como um erro a estratégia do partido de atrair o que chama de "classe laptop", jovens entusiastas de tecnologia, durante a convenção de midterms do partido, realizada no início de setembro de 2026.
O que Trump e os estrategistas dizem
Em agosto de 2026, Trump publicou na Truth Social, sua rede social, que apenas comunidades que quisessem ficar "atrasadas e pobres" recusariam data centers. Na semana anterior à publicação da reportagem, ele reforçou o tema em uma série de novas publicações. Uma análise do New York Times sobre milhares de respostas dos próprios usuários da plataforma concluiu que os comentários contrários aos data centers e à IA, inclusive de contas firmemente ligadas ao MAGA, superaram os comentários favoráveis em quatro para um.
Dentro do partido, o alarme soou antes. Em agosto, o Comitê Senatorial Nacional Republicano (órgão que apoia candidatos republicanos ao Senado) enviou um memorando privado a empresas de IA alertando sobre a percepção negativa dos eleitores, dizendo que comitês de campanha "não podem consertar a marca tóxica de um setor inteiro da economia". Na semana passada, o estrategista republicano Tony Fabrizio enviou aos candidatos um memorando afirmando que "apoio sem reservas à construção de mais data centers de IA é uma posição perdedora".
Do lado favorável, o argumento central é geopolítico. Hugo Lowell, repórter da WIRED que cobre a Casa Branca, resume a visão de Trump: ele é otimista sobre a IA porque acredita que restringir data centers significa restringir "compute" (a capacidade computacional, ou seja, a força bruta de processamento), o que faria os EUA perderem a corrida para a China. Essa tese é ecoada publicamente por aliados como David Sacks, ex-responsável por IA na Casa Branca, e Joe Lonsdale, cofundador da empresa Palantir, que debateu Joe Allen, editor de tecnologia ligado a Steve Bannon, em evento paralelo à convenção. Segundo Sanders, essa foi a única vez em que data centers foram citados em toda a convenção.
Empregos x conta de luz
A pesquisa da YouGov também testou a defesa econômica de Trump. Os entrevistados leram, sem saber o autor, a frase em que ele diz que, se fosse prefeito ou governador, "absolutamente" desejaria um data center, porque "os empregos são enormes" e os impostos pagos "são simplesmente enormes". Resultado: 21% dos americanos concordam e 51% discordam. Entre republicanos do MAGA, 42% concordam; entre republicanos que não se identificam com o MAGA, 43% discordam.
Vale separar os fatos das opiniões aqui. Os números das pesquisas e os documentos citados são fatos verificados pelas fontes. As avaliações de que os data centers são bons ou ruins, de Trump, Sanders ou dos estrategistas, são posições pessoais de cada um.
E agora?
Com as midterms se aproximando, o impasse tende a se intensificar: o partido precisa decidir se segue a orientação do presidente ou os alertas de seus próprios estrategistas. Para o eleitor comum, a recomendação implícita das fontes é acompanhar como os candidatos locais se posicionam sobre data centers em suas comunidades, já que o impacto desses empreendimentos, segundo as pesquisas, é sentido sobretudo perto de casa.

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