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    Tribunal da Flórida diz que "slop" de IA ameaça funcionamento das cortes

    Órgão de apelação da Flórida alerta que documentos jurídicos gerados por inteligência artificial, extensos e confusos, pressionam a capacidade de funcionamento dos tribunais. Em paralelo, a Justiça federal bloqueia fiscalização de lei de Montana sobre anúncios políticos com IA.

    Leandro Vieira

    CEO e founder | IA.com.br

    Sala de tribunal vazia, com bancada de madeira ao fundo, mesa do juiz em primeiro plano coberta por uma pilha alta de documentos impressos e um martelo de madeira apoiado ao lado; luz natural entra pelas janelas laterais e projeta sombras s
    Tribunal da Flórida alerta que o volume de documentos jurídicos extensos e confusos pressiona a capacidade de funcionamento das cortes.

    Um tribunal de apelação da Flórida alertou que a produção em massa de documentos jurídicos com apoio de inteligência artificial está ameaçando a capacidade de funcionamento das cortes. O aviso aparece em decisão de 16 de setembro de 2026 da Quarta Região do Tribunal de Apelação da Flórida, que rejeitou um pedido apresentado em um processo de divórcio.

    O termo usado pelos juízes é "AI slop", algo como lixo gerado por IA. Na prática, são textos produzidos por programas de inteligência artificial em grande quantidade, com aparência de documento formal, mas confusos, repetitivos ou sem ligação com os fatos do processo. O tribunal disse suspeitar que a advogada Jaclyn Soroka, do escritório Betras Kopp, tenha apresentado peças com trechos gerados por IA. Entre outros problemas, a corte afirmou que ela fez acusações contra o juiz de primeira instância sem apoio no registro oficial do caso.

    A decisão também registra a dificuldade de leitura do material. "Um supercomputador de IA teria dificuldade para encontrar sentido em parte da prosa usada neste caso", escreveram os juízes. E acrescentaram que os argumentos da defesa precisam ser compreensíveis.

    Em declaração, Soroka negou o uso de IA. Ela afirmou que não utiliza inteligência artificial para gerar peças processuais em nenhum caso e observou que o tribunal não a acusou de citar precedentes inventados. Esse ponto importa porque um dos riscos mais conhecidos da IA é a "alucinação": quando o programa inventa uma informação falsa, como uma decisão judicial que nunca existiu, e a apresenta com aparência de verdade.

    Por que isso importa

    A preocupação do tribunal vai além de um caso isolado. A decisão afirma que tanto advogados quanto pessoas que litigam sem advogado podem usar IA para produzir documentos extensos e confusos, o que gera atraso, transtorno e despesa para a outra parte. O texto alerta ainda que tribunais sobrecarregados podem se afogar em um volume de petições difícil de navegar.

    Pilha de petições impressas sobre mesa de escritório jurídico com marcadores coloridos ao lado
    A quantidade de documentos longos e difíceis de navegar é apontada como risco ao trabalho dos tribunais.

    Para quem começa a acompanhar o tema, vale separar dois problemas. O primeiro é o documento mal escrito, que consome tempo de servidores e juízes. O segundo é o conteúdo falso, que pode levar a uma decisão errada. A decisão da Flórida trata principalmente do primeiro, mas menciona o risco de argumentos falsos e frívolos.

    O caso de Montana e os limites da regulação

    Enquanto tribunais reclamam do excesso de textos, outro debate mostra a dificuldade de criar regras. Em setembro de 2026, a juíza federal Susan Watters, da Justiça Federal em Montana, bloqueou que o comissário de Práticas Políticas e o procurador-geral do estado fiscalizassem anúncios de campanha feitos com inteligência artificial generativa pelo ex-parlamentar estadual Dan Bartel e pelo comitê Accountability in State Government PAC.

    A lei de Montana proíbe pagar ou patrocinar a produção e a distribuição de um anúncio de campanha que o responsável saiba, ou deveria saber, ser um deepfake de um candidato ou partido nos 60 dias que antecedem o início da votação. Deepfake, aqui, é uma imagem ou gravação falsa criada com IA que parece real. A norma abre exceção quando o conteúdo traz aviso claro de que foi significativamente editado por IA e que parece autêntico ou verdadeiro sem ser.

    A juíza considerou que existia ameaça crível de fiscalização, citando reclamações privadas, uma carta de advertência do comissário Chris Gallus e a falta de um desmentido do governo. O comissário declarou em documentos judiciais que os materiais dirigidos a outros candidatos equivaliam a sátira, forma válida de crítica. O advogado de Bartel e do comitê, Matt Monforton, argumentou que a exigência de aviso prejudica o emissor da mensagem e que o caso é uma defesa da liberdade de expressão protegida pela Primeira Emenda da Constituição dos Estados Unidos.

    Outros sinais

    O alerta não é isolado. Uma ordem de 1º de julho de 2026 da Corte de Chancelaria de Delaware trouxe novas pistas sobre os riscos do uso de inteligência artificial generativa em processos. Juízes do Canadá Atlântico também relatam aumento rápido do uso de IA em procedimentos judiciais e alertam para conteúdos não verificados.

    Em 22 de setembro de 2026, especialistas do Instituto Stanford para Inteligência Artificial Centrada no Ser Humano (abre em nova aba) discutiram se é possível frear o avanço da IA. Participaram Surya Ganguli, Diyi Yang e Rob Reich. O painel tratou da velocidade do desenvolvimento, da dificuldade de desacelerar em meio à competição entre empresas e países, e da necessidade de testes independentes, transparência e mais investimento em entender como esses sistemas se comportam.

    Próximos passos

    Para o leitor que quer acompanhar o assunto, dois pontos merecem atenção. O primeiro é a resposta dos tribunais: decisões como a da Flórida sinalizam que peças confusas passam a ser examinadas com mais rigor, e não apenas aceitas por seu volume. O segundo é o equilíbrio entre regular e não sufocar a expressão, tema central no caso de Montana.

    O que já está claro é que a discussão deixou de ser sobre uma ferramenta curiosa e passou a envolver tempo de juízes, custo para as partes e confiança nas decisões. Textos gerados por IA podem ajudar a organizar informação, mas quando entram em um processo sem revisão humana cuidadosa transformam o trabalho de quem precisa ler, entender e julgar.

    Fontes

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