De cada cem diretores de tecnologia ouvidos pelo Gartner (abre em nova aba), treze dizem que suas empresas já tiraram da inteligência artificial um valor "significativo ou transformador". Os outros 87 continuam pagando a conta à espera do troco.
O número vem de uma pesquisa com 2.002 CIOs, os executivos que comandam a área de tecnologia das empresas, e outros líderes do setor. O levantamento foi feito entre maio e julho de 2026 e apresentado na segunda-feira, 19 de outubro, no Gartner IT Symposium/Xpo, em Orlando, nos Estados Unidos. Não é um retrato de quem ignorou a IA. É o retrato de quem investiu nela.
E investiu muito. Segundo o Gartner, a quantidade de usos de IA dentro das empresas cresceu 400% entre 2024 e 2025. A chance de cada um dar certo ficou onde estava: uma em cinco. As empresas fizeram mais e acertaram na mesma proporção. Alicia Mullery, vice-presidente e analista da consultoria, resumiu: "Volume não é valor". Ao site IT Brew, ela atribuiu a correria a um sentimento que qualquer adolescente conhece, o FOMO, o medo de ficar de fora.

A conta que não fecha
A pesquisa traz uma contradição que merece segunda leitura. Para 58% dos CIOs, aumentou a pressão para que a IA corte custos. Ao mesmo tempo, 51% esperam que ela encareça o custo total das soluções de tecnologia, sobretudo o de mantê-las funcionando. Pede-se economia a uma ferramenta que a maioria acredita que vai pesar no orçamento.
Mullery explica parte do enigma. Os gastos com nuvem e com softwares por assinatura são relativamente previsíveis. Os de IA, não: são probabilísticos e definidos na hora do uso. Em português de balcão, a empresa só descobre quanto gastou depois que o sistema trabalhou.
Entre os presidentes de empresa, o desconforto é parecido. Em outro levantamento do Gartner, divulgado em 20 de outubro e feito com 203 presidentes e altos executivos, 44% disseram ter dificuldade para demonstrar a acionistas e conselhos o retorno financeiro da IA. Nem por isso fecharam a carteira: 75% planejam aumentar o investimento em tecnologia. David Furlonger, analista do Gartner, avisou que o problema não se resolve empilhando mais IA sobre a maneira antiga de trabalhar.
Quem ganha sabe desistir
O Gartner separou um grupo de elite, que chama de "vanguarda": empresas cujos CIOs entregam bons resultados de negócio e cujos presidentes enxergam alto valor na IA. Segundo Mullery contou ao IT Brew, são 11% dos entrevistados. O dado mais curioso é o que não define esse grupo. Não há padrão de setor, de tamanho da empresa nem de orçamento de TI. "Você não precisa de orçamentos e recursos gigantescos para obter mais valor dos investimentos em IA", disse a analista. Segundo ela, o que faz falta são mecanismos para controlar custos e regras claras sobre a hora de parar.
É aí que a pesquisa fica útil. As práticas mais associadas à vanguarda são, quase todas, maneiras de dizer não:
| Prática | Quantos adotam | Chance de estar na vanguarda |
|---|---|---|
| Regras para impedir que um teste (piloto) vire sistema em operação | 31% | 2,3 vezes maior |
| Regras para desligar projetos fracos que já estão em operação | 17% | 2,6 vezes maior |
| Planos para redesenhar funções com pessoas e agentes de IA trabalhando juntos | 4% | 2,4 vezes maior |
Os líderes desse grupo também passam 50% mais tempo que os colegas discutindo os projetos com o diretor financeiro. Quem senta com quem paga a conta tende a gastar melhor.
Cabe uma ressalva: a pesquisa mostra associação, não prova causa. Pode ser que empresas mais organizadas tenham, por isso mesmo, regras para encerrar projetos. O diagnóstico da analista, porém, aponta na mesma direção: "A IA está criando um acerto de contas para organizações que não têm disciplinas fundamentais, como definir antecipadamente o valor de cada uso e estabelecer critérios para saber quando desistir."
Muito discurso, pouco plano
Há ainda um descompasso de expectativas. Na pesquisa com presidentes, 52% apontaram o uso agressivo de agentes de IA "como funcionários" entre as apostas para acelerar o retorno até 2027. Entre os CIOs, só 4% têm plano explícito para reorganizar funções numa equipe que misture gente e máquina. São amostras diferentes, mas o recado é claro: o discurso anda mais depressa que a obra. E, contra o temor de que a IA esvazie os departamentos de tecnologia, 40% dos entrevistados esperam contratar mais gente em 2027, sobretudo em cibersegurança e dados.
Nem todos aceitam essa régua. Vlad Kliatchko, presidente-executivo da Bloomberg, disse ao Wall Street Journal, segundo o site The Decoder, que ainda é cedo para medir o retorno econômico da IA e que a empresa investe porque acredita que este é o momento certo. Pode ser. Apostas de longo prazo existem e às vezes dão certo. O problema, mostra o Gartner, é que só 17% das empresas têm regra para desligar o que já está rodando sem resultado.
Para quem está começando, a pesquisa deixa uma regra simples. Antes de ligar um projeto de IA, combine o que ele precisa entregar e em que dia será desligado se não entregar. A tecnologia é nova, mas a disciplina que separa quem colhe resultado de quem só acumula projetos é antiga.


