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    Site do governo dos EUA usou modelo de IA chinês que o FBI chamou de resultado de cópia maliciosa

    A página do Federal Register chegou a oferecer uma busca alimentada pelo modelo Qwen, da Alibaba, dias depois de agências americanas acusarem empresas chinesas de copiar tecnologia de IA em escala industrial.

    Site do governo dos EUA usou modelo de IA chinês que o FBI chamou de resultado de cópia maliciosa
    Filipe Mendes

    21 de setembro de 2026

    Imagine que a prefeitura da sua cidade, que vive repetindo que não se deve comprar de um certo fornecedor, aparece usando exatamente o produto desse fornecedor em um serviço público. Foi algo parecido com isso que aconteceu nos Estados Unidos, e o caso ajuda a entender um debate que vai muito além da tecnologia: como um governo pode criticar uma ferramenta e, ao mesmo tempo, colocá-la no ar.

    O que aconteceu

    O site do Federal Register, o diário oficial de normas dos Estados Unidos, mantido pelo National Archives (o órgão nacional de arquivos), oferecia aos visitantes uma ferramenta de busca movida pelo Qwen, um modelo de inteligência artificial criado pela empresa chinesa Alibaba. A ferramenta servia para pesquisar comentários do público sobre regras federais propostas.

    Não se sabe quando a ferramenta foi colocada no ar. O certo é que, na quarta-feira (16), ela foi retirada, por volta do mesmo momento em que começaram a circular publicações sobre o assunto em redes sociais. A informação foi confirmada por capturas de tela e por uma versão arquivada do código-fonte da página.

    A acusação que estava no ar antes da ferramenta

    Uma semana antes, na terça-feira (8), o FBI, a NSA (a agência de segurança nacional) e a CISA (a agência de segurança cibernética e de infraestrutura) divulgaram um alerta acusando seis empresas de IA chinesas de copiar de forma sistemática modelos americanos desde 2024. As citadas foram DeepSeek, Moonshot AI, Alibaba, MiniMax, StepFun e Z.AI. Segundo o documento, as empresas teriam usado, "provavelmente com conhecimento do governo chinês", modelos como o Claude, da Anthropic, o ChatGPT, da OpenAI, o Gemini, do Google, e o Grok, da xAI.

    Os responsables americanos chamaram isso de cópia "maliciosa" em "escala industrial". A técnica citada se chama destilação: em termos simples, é treinar um modelo menor usando as respostas de um modelo maior e mais caro, como quem aprende observando as respostas de um professor experiente, em vez de estudar todo o material original. O problema, na visão dos governos americanos, é quando isso acontece às escondidas e contra as regras das empresas que criaram o modelo original.

    Diagrama do processo de destilação entre modelos de IA grande e pequeno
    A destilação treina modelos menores a partir das respostas de modelos maiores, técnica no centro da acusação americana.

    O que é o Qwen, em linguagem simples

    Um modelo de IA é, de forma resumida, um sistema treinado com enormes quantidades de texto para responder perguntas e gerar conteúdo. O Qwen é classificado como um modelo "open-weight", ou seja, de pesos abertos: os componentes-chave do sistema ficam disponíveis publicamente. É como uma receita publicada em um livro: qualquer pessoa pode baixá-la, adaptá-la e usá-la na própria cozinha, geralmente por um custo menor do que os modelos fechados de empresas como Anthropic e OpenAI.

    Justamente por isso, especialistas em segurança apontam que modelos abertos podem rodar na própria infraestrutura de quem os usa, o que dá mais controle sobre dados que, de outro modo, seriam enviados a fornecedores externos.

    Risco real ou apenas contradição?

    Aqui as interpretações divergem, e é importante separar fatos de opiniões. O professor de direito Anupam Chander avaliou que o uso do Qwen não parecia representar um risco imediato de segurança, já que o conteúdo do site do Federal Register é público e o modelo não trabalhava com informações sensíveis do governo. Já o senador democrata Mark Warner afirmou que o risco depende de se os dados americanos saíram do perímetro de segurança do governo e foram processados em sistemas controlados pela Alibaba.

    Do outro lado, o deputado republicano John Moolenaar, presidente da comissão da Câmara sobre a China, opinou que nenhuma entidade federal deveria usar um modelo de IA chinês, porque isso aumentaria a dependência do governo em relação a essa tecnologia. Daniel Castro, presidente do Information Technology and Innovation Foundation, foi mais longe, dizendo que havia um descompasso gritante entre a competição feroz com a China e a escolha de uma agência por uma ferramenta chinesa.

    Silêncio oficial e contexto diplomático

    Na quinta-feira (17), o FBI declinou comentar. O National Archives e a Casa Branca não responderam aos pedidos de esclarecimento. Um porta-voz da embaixada chinesa em Washington disse que as acusações de cópia eram "infundadas".

    O episódio ganhou peso extra pelo calendário: o presidente Donald Trump tem encontro marcado com o líder chinês Xi Jinping no dia 24 de setembro, e os dois governos vêm trocando acusações sobre roubo de segredos de IA. Em abril, comissões da Câmara já haviam enviado carta à Airbnb, que também usa o Qwen, pedindo detalhes sobre o uso do modelo em uma investigação sobre riscos à segurança nacional.

    Por que isso importa para você

    Para o usuário comum, a lição é sobre coerência e confiança: as ferramentas de IA que usamos carregam escolhas políticas e de segurança, mesmo quando parecem apenas uma caixa de busca. O caso mostra também que nem todo modelo aberto é automaticamente perigoso, nem automaticamente seguro; o risco depende de como ele é usado e de quais dados ele toca. Fique de olho nas próximas declarações das agências americanas e na cúpula entre os dois países, que deve definir o tom do debate sobre IA nos meses seguintes.

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