A empresa de tecnologia espacial Satlyt anunciou em 1 de outubro de 2026 a captação de US$ 8 milhões em uma rodada de investimentos semente. A proposta da companhia é aplicar inteligência artificial diretamente nos satélites que já estão voando no espaço, evitando a necessidade de construir novas espaçonaves para essa tarefa.
Com sedes conjuntas em Sunnyvale, na Califórnia, e em Nairóbi, no Quênia, a startup foi criada em 2024 pelo engenheiro queniano-americano Rama Afullo e pelo doutor Nelson Kigen Psenjen. Afullo trabalhou anteriormente no setor de computação em nuvem da Google e teve uma passagem pela rede de comunicações Starlink da SpaceX. A rodada de aporte foi liderada pela firma de capital de risco Non Sibi Ventures, sediada em Houston, cujo parceiro Bernard Harris atuou como astronauta da NASA por mais de duas décadas. O investimento contou também com a participação de grupos como TLCOM, Antler, Slauson & Co., Launch Africa Ventures, Enza Capital e outros investidores. Com esse montante, os recursos totais levantados pela empresa superam US$ 10 milhões.
A firma investidora TLCOM ressaltou o papel dos fundadores na construção da infraestrutura técnica necessária para as próximas décadas no setor orbital:
Temos orgulho de anunciar nosso investimento na rodada Seed de US$ 8 milhões da Satlyt, ao lado de @nonsibiventures @AntlerGlobal @SlausonAndCo @LaunchAfricaVC e outros. A equipe da @satlytai, liderada pelos fundadores @Rama Afullo e Dr Nelson Kigen Psenjen, está avançando com a consciência de que os próximos anos decidirão quem constrói os trilhos da economia espacial. Em vez de adicionar novo hardware, eles construíram um software que permite que satélites processem dados e executem IA a bordo, usando os computadores que já estão em órbita. A Satlyt já possui software operando em órbita, e sua próxima implantação planejada, na missão Transporter-18 da SpaceX, apoiará duas aplicações em uma única espaçonave. Temos orgulho de financiar fundadores africanos que constroem infraestrutura de relevância global. Rama e Nelson combinam rara profundidade comercial e técnica, e avançaram incrivelmente rápido com uma equipe enxuta nos EUA e em Nairóbi. A Satlyt é exatamente o tipo de empresa que existimos para encontrar e financiar.
O problema da transmissão de dados e como a Satlyt funciona
Tradicionalmente, os satélites de observação coletam grandes volumes de fotos e leituras científicas e precisam transmitir todos esses arquivos brutos de volta para a Terra. O envio desses pacotes causa atrasos operacionais e exige conexões caras de telecomunicação.
A solução desenvolvida pela Satlyt consiste em injetar a capacidade de inferência de inteligência artificial nos próprios computadores internos das espaçonaves parceiras. A inferência é o momento em que o modelo matemático analisa a informação e toma uma decisão prática. Esse software pode ser instalado antes do lançamento do foguete ou enviado remotamente via atualização de sistema enquanto o satélite já está operando em órbita.

Dessa maneira, a inteligência artificial analisa as informações no próprio espaço e transmite para o solo apenas as respostas essenciais e alertas finais, em vez de despejar terabytes de dados sem filtro.
Por que a empresa adota a filosofia do Android
Ao contrário de companhias como SpaceX, Google, Starcloud e Cowboy Space Company, a Satlyt não fabrica seus próprios satélites. A liderança compara sua abordagem ao sistema operacional Android, além de ferramentas corporativas como VMware e Snowflake.
Na visão de Rama Afullo, empresas que projetam satélites próprios para funcionar como centros de dados orbitais adotam um modelo verticalizado, semelhante ao iPhone, em que uma única fabricante controla o hardware e o software de ponta a ponta. A Satlyt, por outro lado, quer ser o ecossistema horizontal e aberto. O objetivo anunciado pela empresa é integrar seu sistema em 30% de todos os satélites que não pertencem à rede Starlink até o final desta década.
| Característica | Modelo vertical de centro de dados orbital | Modelo de software aberto da Satlyt |
|---|---|---|
| Estratégia de hardware | Constrói satélites próprios dedicados | Utiliza computadores de satélites existentes |
| Distribuição | Plataforma proprietária e fechada | Sistema aberto para diversos operadores de espaçonaves |
| Instalação do sistema | Fabricado junto com o equipamento | Pré-programado em solo ou atualizado em pleno voo |
| Foco de negócio | Operação de frotas de espaçonaves | Licenciamento de software e computação distribuída |
Casos de uso e resultados já demonstrados
A tecnologia já foi testada em voos orbitais reais. Em uma missão com uma espaçonave operada pela Momentus, a Satlyt embarcou o modelo de inteligência artificial Gemma, criado pela Google DeepMind. O sistema analisou registros técnicos da espaçonave, diagnósticos de pilhas de processamento e falhas de software de forma local. O resultado foi uma redução superior a 60% no tamanho das transmissões enviadas à Terra, gerando economias estimadas em centenas de milhares de dólares por satélite ao ano.
Em outra implantação, realizada a bordo de um satélite da empresa indiana TakeMe2Space na missão Transporter-18 da SpaceX em 1 de outubro de 2026, a plataforma passou a atender três parceiros:
- A NASA, que contratou a empresa para testar protocolos de computação em nuvem espacial tolerantes a atrasos de transmissão.
- A startup Stellerian, focada em vigilância espacial, que utiliza o sistema para processar imagens e rastrear objetos na órbita terrestre.
- A própria TakeMe2Space, avaliando suas capacidades de computação local.
O plano de longo prazo da empresa prevê coordenar o poder computacional de diferentes satélites, formando redes virtuais integradas capazes de dividir tarefas complexas diretamente no espaço.

