Pular para o conteúdo
    NotíciaTrabalho e produtividade

    Sam Altman e a pergunta incômoda: por que a IA não nos deixou menos ocupados

    Um clipe sobre a visão do CEO da OpenAI a respeito de por que a IA não diminuiu nossa correria está circulando. O que Altman e o setor já disseram ajuda a explicar o paradoxo.

    Agenda de papel aberta sobre mesa de escritório, com tarefas riscadas e novos compromissos anotados em todos os horários até a noite, sob a luz alaranjada do entardecer
    Tarefas concluídas abrem espaço para novas demandas: o paradoxo de uma rotina que não desacelera mesmo com ferramentas mais eficientes
    Neste artigo

    Quase quatro anos depois da estreia do ChatGPT (abre em nova aba), em 2022, muita gente já entendeu como a coisa funciona. As tarefas ficaram mais rápidas, mas o dia não ficou mais curto. Agora a pergunta chegou a Sam Altman, CEO da OpenAI (abre em nova aba). A plataforma holandesa DutchStartup.ai publicou nesta quarta-feira (21) um vídeo de 45 segundos (abre em nova aba) do youtuber Matthew Berman sobre a visão de Altman a respeito de por que a IA não nos deixou menos ocupados.

    O resumo divulgado com o clipe informa apenas que ele trata do impacto da IA na produtividade e no dia a dia. Não detalha o raciocínio. É pouco para uma pergunta desse tamanho. Mesmo assim, Altman e a indústria que ele lidera já deram pistas suficientes para entender por que a correria continua.

    A demanda que não tem teto

    A pista mais reveladora está numa mudança de opinião do próprio Altman sobre poder computacional. Ele já disse acreditar que, em algum momento, sobraria capacidade de processamento e que algumas empresas perderiam dinheiro com contratos de infraestrutura. Hoje, segundo um compilado de suas declarações recentes feito pelo site Blumify, ele diz o contrário: haverá escassez persistente enquanto os modelos continuarem melhorando, porque a demanda por inteligência é, na prática, ilimitada.

    Caixas de servidores de GPU empilhadas em uma doca de carga movimentada ao entardecer, com caminhões enfileirados aguardando descarga e operários de colete trabalhando entre os volumes
    A corrida por capacidade computacional movimenta docas e cadeias logísticas, mas a promessa de menos trabalho segue distante para quem está na ponta.

    Vale reler essa frase pensando no seu trabalho, e não em data centers. Se a vontade de usar inteligência não tem limite, cada hora economizada pela IA não vira descanso. Vira espaço para mais pedidos, mais versões, mais entregas. Nesse cenário, a eficiência não encolhe o trabalho. Ela abre lugar para mais trabalho. Essa é a minha leitura, não uma fala do clipe, mas é difícil chegar a outra conclusão a partir da premissa que o próprio Altman defende.

    O que já está acontecendo

    As empresas de IA já mostram esse efeito por dentro. Na Anthropic (abre em nova aba), principal concorrente da OpenAI, a quantidade de código escrito continua crescendo de forma exponencial, segundo o analista Zvi Mowshowitz. O volume ficou tão grande que a empresa criou o Scion, um substituto interno para o GitHub, a plataforma onde programadores guardam e revisam código. Uma equipe pequena levou cinco meses para construí-lo. A máquina produziu mais, e alguém precisou construir outra máquina só para dar conta do que ela produz.

    Na ciência, o padrão se repete. No início de outubro, a OpenAI divulgou 722 textos com soluções de problemas matemáticos gerados por um modelo interno. O físico teórico Rikab Gambhir respondeu com ironia num texto convidado no blog do matemático Terence Tao (abre em nova aba). Segundo ele, o trabalho tedioso, pouco prestigiado e nada lucrativo de verificar se aquilo está certo, e de entender o que foi feito, acabou terceirizado para a comunidade matemática.

    Esse talvez seja o mecanismo menos discutido de toda a história. Gerar ficou barato, conferir continua caro, e conferir ainda é trabalho humano. Um comentarista do mesmo post resumiu a ironia escrevendo como se fosse uma IA: prometeram que substituir a curiosidade humana deixaria todo mundo mais produtivo, "mas ninguém especificou o que deveríamos fazer com toda essa produtividade".

    O dilema do próprio Altman

    O curioso é que Altman parece enxergar o problema. Ao falar ao Conselho de Segurança da ONU, ele disse que a IA pode ser um "renascimento" de criatividade e descoberta ou uma revolução industrial de turbulência. Em outra conversa, defendeu que a sociedade priorize a autonomia e a liberdade humanas acima da simples abundância material trazida pela tecnologia. Também passou a dizer que as pessoas têm razão em ficar ansiosas com a IA.

    Tempo livre é a forma mais concreta de autonomia que existe, e é aí que a conta não fecha. O executivo que defende um futuro centrado nas pessoas comanda uma empresa que aposta numa demanda por inteligência que nunca para de crescer. Não há conspiração nisso, só incentivo. Quem vende capacidade infinita não tem motivo para torcer por expedientes menores.

    Existe, claro, outro jeito de a IA deixar as pessoas menos ocupadas, e ele assusta bem mais. O senador americano Bernie Sanders diz temer que dezenas de milhões de empregos desapareçam nos Estados Unidos em dez anos. Ele propôs que o governo federal fique com 50% das maiores empresas de IA para poder, nas palavras dele, frear a tecnologia se necessário. A proposta levou Altman a procurar o senador para uma reunião. Entre trabalhar mais e simplesmente não ter trabalho, a promessa original de trabalhar menos e viver melhor ficou sem ninguém que a defenda.

    Por isso a resposta de Altman importa mais do que os 45 segundos de vídeo sugerem. A IA já provou que acelera tarefas. Ninguém provou ainda quem decide o destino do tempo que ela economiza. Enquanto essa decisão ficar nas mãos de quem vende a ferramenta, o mais provável é que a correria continue.

    Foto de Leandro Vieira

    Leandro Vieira

    CEO e founder | IA.com.br

    Ver perfil completo