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    NotíciaPesquisa e ciência

    Sam Altman diz que IA já supera os maiores cientistas após despejar cálculos sem revisão

    No palco em Abu Dhabi, o CEO da OpenAI afirmou que seus modelos ultrapassaram os pesquisadores mais brilhantes do mundo, dias após irritar matemáticos com centenas de textos quase incompreensíveis.

    Executivo fala em um palco com um telão exibindo equações matemáticas caóticas ao fundo, enquanto cientistas na primeira fila observam com ceticismo.
    Afirmações sobre a superioridade dos novos modelos em relação aos pesquisadores humanos geram ceticismo na comunidade científica.
    Neste artigo

    As empresas de inteligência artificial desenvolveram uma estratégia de vendas no mínimo curiosa: para convencer o público a assinar seus serviços, elas adoram anunciar que a capacidade cognitiva humana acaba de ficar para trás. Nesta segunda-feira (2), durante a abertura de uma conferência internacional de petróleo e energia em Abu Dhabi, o CEO da OpenAI (abre em nova aba), Sam Altman, deu mais um passo nessa direção. Em conversa no palco com o editor-chefe do jornal estatal The National, o executivo declarou que, no início deste ano, a IA ainda não alcançava os cientistas mais brilhantes do mundo, mas agora já é "na maior parte mais inteligente do que eles".⁠​‌​​‌​​‌​‌​​​​​‌​​‌​‌‌‌​​‌‌​​​‌‌​‌‌​‌‌‌‌​‌‌​‌‌​‌​​‌​‌‌‌​​‌‌​​​‌​​‌‌‌​​‌​​‌‌‌‌‌​​​‌‌​​​​‌​​‌‌‌​​‌​​‌‌​‌​​​‌‌​​​​‌​​‌‌​​‌‌​‌‌​​​‌​​​‌‌​​​​​​‌‌‌​​​​​‌​‌‌​‌​​‌‌​‌​‌​​‌‌​‌‌‌​​‌‌​​‌​​‌‌​​​‌​​​‌​‌‌​‌​​‌‌​‌​​​‌‌​​​‌‌​‌‌​​​​‌​​‌‌‌​​​​​‌​‌‌​‌​​‌‌‌​​‌​​‌‌​‌‌‌​‌‌​​​​‌​​‌‌​​‌‌​​‌​‌‌​‌​‌‌​​‌​​​​‌‌​‌‌​​‌‌​​​‌​​‌‌​​​‌​​​‌‌​​​‌​​‌‌​‌‌​​​‌‌​​​‌​‌‌​​​‌‌​​‌‌​‌​‌​‌‌​​​​‌​‌‌​​​​‌​‌‌​​​‌​⁠

    Altman encaixou a afirmação dentro de um apelo aparentemente cauteloso, dizendo que os humanos precisam manter o controle sobre o futuro e que a tecnologia deve funcionar apenas como uma ferramenta a serviço das pessoas. É uma manobra retórica clássica do executivo: vender a onipotência quase assustadora dos seus sistemas enquanto se posiciona como o adulto responsável tentando conter os riscos. O local do discurso também ajuda a explicar o tom grandioso. No evento, a OpenAI anunciou parcerias com o grupo tecnológico G42 e com a estatal petrolífera ADNOC. Como o próprio Altman admitiu na apresentação, o fornecimento físico de energia elétrica é hoje o maior gargalo do setor, num momento em que o uso global saltou de quase zero, há seis anos, para cerca de 100 mil tokens mensais por habitante (chegando a 500 bilhões de tokens por mês entre grandes clientes institucionais). Para justificar tanta eletricidade consumida, ajuda bastante dizer aos parceiros do setor energético que os servidores estão gerando gênios da ciência.

    O custo de US$ 10 milhões por trás da vitrine científica

    Quando olhamos para o contato recente da OpenAI com a ciência de ponta fora dos palcos, porém, o resultado parece bem mais confuso. Nas últimas semanas, a criadora do ChatGPT (abre em nova aba) provocou uma crise entre matemáticos profissionais ao despejar centenas de soluções geradas por IA para problemas que nunca haviam sido resolvidos por humanos. Em vez de aplausos pela suposta revolução, a empresa colheu críticas duras de grandes nomes da área e até de um grupo consultivo de matemática com o qual a própria OpenAI vinha conversando.

    Matemático sênior com expressão cansada analisa uma mesa repleta de papéis com fórmulas e um laptop, diante de um quadro-negro riscado.
    Comunidade acadêmica relata frustração diante de uma enxurrada de cálculos extensos e sem revisão prévia.

    A turbulência começou quando a empresa afirmou ter encontrado uma solução para o famoso problema de Navier-Stokes, um desafio histórico da matemática e da física, colocando 10 mil agentes de IA para trabalhar sem parar durante 88 horas. A força bruta computacional custou cerca de US$ 10 milhões apenas para atacar essa questão. Pouco depois, um matemático acusou a OpenAI de pegar carona de forma injusta em uma pesquisa inédita dele e de ameaçar arruinar sua carreira quando ele avisou que tornaria a história pública. Com o episódio, pesquisadores passaram a temer um novo padrão no qual laboratórios bilionários monitoram estudos alheios em andamento, jogam uma quantidade absurda de poder computacional na reta final do problema e levam o crédito sozinhos.⁠​‌​​‌​​‌​‌​​​​​‌​​‌​‌‌‌​​‌‌​​​‌‌​‌‌​‌‌‌‌​‌‌​‌‌​‌​​‌​‌‌‌​​‌‌​​​‌​​‌‌‌​​‌​​‌‌‌‌‌​​​‌‌​​​​‌​​‌‌‌​​‌​​‌‌​‌​​​‌‌​​​​‌​​‌‌​​‌‌​‌‌​​​‌​​​‌‌​​​​​​‌‌‌​​​​​‌​‌‌​‌​​‌‌​‌​‌​​‌‌​‌‌‌​​‌‌​​‌​​‌‌​​​‌​​​‌​‌‌​‌​​‌‌​‌​​​‌‌​​​‌‌​‌‌​​​​‌​​‌‌‌​​​​​‌​‌‌​‌​​‌‌‌​​‌​​‌‌​‌‌‌​‌‌​​​​‌​​‌‌​​‌‌​​‌​‌‌​‌​‌‌​​‌​​​​‌‌​‌‌​​‌‌​​​‌​​‌‌​​​‌​​​‌‌​​​‌​​‌‌​‌‌​​​‌‌​​​‌​‌‌​​​‌‌​​‌‌​‌​‌​‌‌​​​​‌​‌‌​​​​‌​‌‌​​​‌​⁠

    O pacote com centenas de outras demonstrações matemáticas divulgado na sequência só agravou o desgaste. Segundo os críticos do setor, nenhum dos documentos passou por revisão prévia, até porque as provas escritas pelos agentes em linguagem natural são quase incompreensíveis. Na prática, vai levar anos para que especialistas humanos consigam destrinchar a pilha de textos que a OpenAI jogou no colo deles e separar descobertas válidas de erros sofisticados. Enquanto essa triagem não termina, a empresa já usa o volume produzido como vitrine de marketing no presente. No IA.com.br, acompanhamos como essa pressa dos laboratórios em declarar marcos científicos costuma transferir o trabalho lento e pesado de verificação para os pesquisadores tradicionais.

    Questionado sobre a revolta dos matemáticos na última quinta-feira (29), durante participação no podcast Cheeky Pint, Altman deu o tipo de resposta que executivos do Vale do Silício costumam entregar quando quebram regras de convivência. Ele reconheceu pela primeira vez o impacto na área e admitiu que a equipe deixou a situação "sair do controle por uma semana na matemática". Disse também ter empatia pelo método tradicional, mas avisou que a enxurrada de cálculos gerados por máquinas vai continuar, sob o argumento de que a humanidade merece entender como o universo funciona sem que ninguém sente em cima de descobertas fundamentais.

    Não é a primeira vez que a régua da empresa para medir genialidade esbarra no teste da realidade. Quando lançou o GPT-5 no ano passado, a OpenAI promoveu o sistema como dono de uma inteligência em "nível de doutorado", um rótulo que virou piada recorrente assim que o público percebeu que o modelo continuava tropeçando em tarefas básicas. Hoje, a tecnologia de fato executa boa parte de tarefas administrativas de escritório e tem adoção massiva, chegando ao uso semanal por cerca de 80% dos jovens nos Emirados Árabes Unidos, segundo os números apresentados por Altman em Abu Dhabi. Ainda assim, existe uma distância enorme entre automatizar rotinas de trabalho e superar o intelecto dos maiores cientistas vivos. Gastar US$ 10 milhões em servidores para inundar uma comunidade acadêmica com textos sem revisão não prova que a máquina ficou mais inteligente que os nossos melhores pesquisadores; prova apenas que a OpenAI tem dinheiro suficiente para deixá-los ocupados limpando a bagunça pelos próximos anos.⁠​‌​​‌​​‌​‌​​​​​‌​​‌​‌‌‌​​‌‌​​​‌‌​‌‌​‌‌‌‌​‌‌​‌‌​‌​​‌​‌‌‌​​‌‌​​​‌​​‌‌‌​​‌​​‌‌‌‌‌​​​‌‌​​​​‌​​‌‌‌​​‌​​‌‌​‌​​​‌‌​​​​‌​​‌‌​​‌‌​‌‌​​​‌​​​‌‌​​​​​​‌‌‌​​​​​‌​‌‌​‌​​‌‌​‌​‌​​‌‌​‌‌‌​​‌‌​​‌​​‌‌​​​‌​​​‌​‌‌​‌​​‌‌​‌​​​‌‌​​​‌‌​‌‌​​​​‌​​‌‌‌​​​​​‌​‌‌​‌​​‌‌‌​​‌​​‌‌​‌‌‌​‌‌​​​​‌​​‌‌​​‌‌​​‌​‌‌​‌​‌‌​​‌​​​​‌‌​‌‌​​‌‌​​​‌​​‌‌​​​‌​​​‌‌​​​‌​​‌‌​‌‌​​​‌‌​​​‌​‌‌​​​‌‌​​‌‌​‌​‌​‌‌​​​​‌​‌‌​​​​‌​‌‌​​​‌​⁠

    Foto de Leandro Vieira

    Leandro Vieira

    CEO e founder | IA.com.br

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