Uma GeForce RTX 5090, placa de vídeo para computadores de mesa, cumpriu uma tarefa de inteligência artificial em 4,9 minutos. Um notebook com o novo chip RTX Spark, da Nvidia, levou 18,7 minutos para fazer o mesmo. Num teste com um modelo de IA bem maior, a comparação mudou de natureza: o notebook terminou o serviço e a RTX 5090 ficou de fora, porque seus 32 GB de memória não comportavam o modelo. Os números são da Artificial Analysis (abre em nova aba), que publica comparativos de desempenho em IA, e dão uma boa ideia do tipo de máquina que a Nvidia colocou no mercado.
Segundo a Nvidia, os primeiros notebooks com RTX Spark já estão à venda, e as avaliações de uso começaram a sair. Em 16 de outubro, o site americano The Verge publicou o balanço de uma semana em que três jornalistas se revezaram em cinco máquinas com o chip:
- Microsoft Surface Laptop Ultra, com 128 GB de memória;
- Asus ProArt P16, em duas versões, com 64 GB e com 128 GB;
- Lenovo Yoga 9n 2 em 1, com 64 GB;
- HP OmniBook Ultra, com 32 GB.
Quando se junta esse relato ao teste da Artificial Analysis e ao que a própria Nvidia divulgou, aparece um computador que roda jogos atuais sem grande folga, aguenta algumas horas longe da tomada e guarda sua vantagem mais nítida para a IA executada no próprio aparelho.

Um chip só, uma memória para tudo
Segundo o The Verge, o RTX Spark N1X é um SoC, sigla em inglês para "sistema em um chip": processador, parte gráfica e outros componentes reunidos numa única peça. Ele segue a arquitetura Arm, a mesma família de projeto usada na maioria dos celulares, e foi pensado para notebooks e pequenos desktops. A parte gráfica é da geração Blackwell, da Nvidia, e a memória é unificada.
Memória unificada significa que processador e gráfico tiram do mesmo estoque, como uma casa com uma despensa única em vez de um armário para cada morador. Num PC tradicional, a placa de vídeo guarda seus dados numa memória própria e separada. Para modelos de IA, que precisam caber na memória para rodar, o tamanho desse estoque decide o que funciona e o que fica de fora.
Todas as unidades da semana de testes tinham o mesmo chip: processador de 20 núcleos e gráfico com 6.144 núcleos CUDA, as pequenas unidades de cálculo que trabalham em paralelo nas placas da Nvidia. A Artificial Analysis, citando páginas da fabricante, detalha que os 20 núcleos se dividem em dois tipos (dez Cortex-X925 e dez Cortex-A725), que a memória chega a 128 GB do tipo LPDDR5X-9400, com 300 GB/s de transferência, e que o chip consome de 45 a 80 W no notebook.
Os preços citados pelo The Verge, em dólares, vão de US$ 3.199,99, no HP OmniBook, a US$ 6.999,99, no Asus ProArt. Uma versão mais contida do chip, com 18 núcleos e 5.120 núcleos CUDA, parte de US$ 2.599,99 no Surface Laptop Ultra ou no Asus ProArt P14, menor, com 24 GB de memória. Essa versão de entrada não fazia parte do lote avaliado.
Nos jogos, a memória extra não virou velocidade
A intuição diria que o notebook mais caro, com mais memória, rodaria jogos melhor. O teste de Cyberpunk 2077 em resolução de 2560 x 1600 e qualidade Ultra aponta para outro lado. O Asus ProArt de 128 GB fez média de 41 quadros por segundo (fps, a medida de fluidez de um jogo: quanto mais quadros, mais suave a imagem). O HP OmniBook, com 32 GB e o menor preço do grupo, chegou a 46.
O relato não explica a diferença, e esses números não bastam para cravar uma causa. O que eles mostram é mais modesto e talvez mais útil: nesse jogo, pagar pela versão de 128 GB não comprou nenhum quadro a mais.
A memória grande serve a outra coisa.
| Indicador | Valor (quadros por segundo (fps)) |
|---|---|
| Asus ProArt (RTX Spark, 128 GB) | 41 |
| HP OmniBook Ultra (RTX Spark, 32 GB) | 46 |
| MacBook Pro (M5 Max) | 56 |
| Framework Laptop 16 (RTX 5070) | 57 |
Nas mesmas condições, os rivais foram melhores. Um Framework Laptop 16 com placa RTX 5070 marcou 57 fps, e um MacBook Pro com chip M5 Max, 56. Se a régua fosse só Cyberpunk, os RTX Spark testados ficariam atrás dos dois.
Segundo Di Benedetto, um dos autores do The Verge, a Nvidia afirma que o gráfico do chip equivale a uma RTX 5070 para notebooks. Nos testes dele, o resultado ficou entre essa placa e a RTX 5060 para notebooks, um degrau abaixo na linha da empresa.
Com recursos de aceleração ligados, a conta melhora. Tom Warren, também do The Verge, mediu cerca de 70 fps em Black Myth: Wukong, 66 fps em Cyberpunk 2077 e 57 fps em Forza Horizon 6, todos em resolução de 3270 x 2180, qualidade média e DLSS no modo desempenho. O DLSS é uma tecnologia da Nvidia que desenha a imagem em resolução menor e usa IA para reconstruí-la em alta definição, ganhando velocidade.
Dá para ler esse conjunto de duas formas. Na primeira, é um notebook de mais de US$ 3 mil que joga como um modelo intermediário. Na segunda, é um computador feito para IA que, de quebra, roda jogos recentes em resolução alta. A escolha entre as duas depende do que acontece longe dos jogos.
Cinco horas, de olho na tomada
Sean Hollister usou o Asus ProArt como computador principal do dia a dia. Com a bateria de 99,9 Wh (watts-hora, a medida de quanta energia ela armazena), conseguiu entre 5 horas e 5 horas e 40 minutos de uso. Em jogos, segundo ele, o notebook chegava a puxar cerca de 120 W, e o desempenho caía conforme a carga diminuía. É o chamado throttling, quando o chip reduz a velocidade para poupar energia ou controlar a temperatura.
Uma conta simples, que não fez parte dos testes, ajuda a dimensionar: se os 120 W fossem constantes, 99,9 Wh durariam pouco menos de uma hora. O consumo real oscila, e o relato não traz a duração da bateria jogando, mas a ordem de grandeza diz algo a quem pensa em jogar longe de uma tomada.
Onde os 128 GB fazem diferença
A Artificial Analysis publicou seu teste em 15 de outubro, com um protótipo do Surface Laptop Ultra de 15 polegadas e 128 GB, vendido a US$ 5.899,99. O teste, chamado AA-AgentPerf-Local, mede quanto tempo o computador leva para cumprir uma carga de trabalho típica de agentes de IA (programas que executam tarefas em várias etapas por conta própria) com o modelo rodando no próprio aparelho. A máquina estava ligada na tomada, em modo de alto desempenho, com Windows 11 para Arm e uma versão nativa do llama.cpp (abre em nova aba), programa de código aberto para rodar modelos de linguagem localmente.
| Sistema | Tempo com o modelo Qwen3.8 27B (minutos, menor é melhor) |
|---|---|
| GeForce RTX 5090 (desktop) | 4,9 |
| DGX Spark | 17,3 |
| Notebook com RTX Spark N1X (Surface Laptop Ultra, 128 GB) | 18,7 |
| Ryzen AI Halo | 34,5 |
| MacBook Pro (M5 Pro, 64 GB) | 37,6 |
O Qwen3.8 27B é um modelo de linguagem com 27 bilhões de parâmetros, os ajustes internos que um modelo aprende durante o treinamento. Nele, o notebook ficou 1,4 minuto atrás do DGX Spark, o pequeno computador de mesa da Nvidia voltado para IA, e terminou em cerca de metade do tempo do MacBook Pro. Com outro modelo, o Qwen3.6 35B A3B, a distância para o DGX Spark encolheu: 7,6 contra 7,3 minutos.
O modelo grande do começo é o Ling 3.0 Flash, com 124 bilhões de parâmetros e 77 GB de pesos, os números que formam o modelo e ocupam a memória. O notebook concluiu a tarefa em 15,3 minutos. Nem o MacBook Pro de 64 GB nem a RTX 5090 tinham espaço para carregá-lo.
No blog técnico da Nvidia (abre em nova aba), a empresa descreve o RTX Spark como a combinação do chip GB10, o mesmo do DGX Spark, com até 128 GB de memória unificada e 1 petaflop de capacidade de IA em FP4. Petaflop é um quatrilhão de operações por segundo; FP4 é um formato numérico compacto, de 4 bits, que acelera a IA abrindo mão de precisão. A Artificial Analysis, porém, apresenta números distintos para os dois: 45 a 80 W e 300 GB/s no chip do notebook, 140 W e 273 GB/s no GB10. As descrições não se encaixam por completo, e os dados públicos não resolvem a diferença. Se as medições se confirmarem, o chip do notebook chega perto do DGX Spark com um teto de consumo menor.
O que a Nvidia promete aos programadores
A Nvidia afirma que, em comparação com um notebook equipado com o Intel Core Ultra X9 388H, da geração Panther Lake, o RTX Spark é 4,6 vezes mais rápido como agente de programação, 2,7 vezes no ajuste fino (treinar um modelo já pronto com dados próprios) e 1,8 vez na compilação, etapa que transforma o código escrito por uma pessoa num programa executável. Os testes citados pela empresa são o próprio AA-AgentPerf-Local com Qwen3.8-27B, a técnica LoRA no Unsloth com Llama-3.1-8B e a compilação do kernel do Linux, medida pelo Phoronix.
Boa parte do material da Nvidia trata de compatibilidade, o que sugere onde a empresa enxerga atrito. Segundo ela, uma parceria com a Microsoft levou ao Windows para Arm a primeira versão do PyTorch com CUDA. O PyTorch é uma das bibliotecas mais usadas para criar IA, e o CUDA é a plataforma da Nvidia para programar suas placas. A empresa cita ainda Python 3.15 nativo por padrão, mais de 2.000 pacotes Conda e versões compatíveis com Arm para mais de 97% dos 15.000 pacotes Python mais usados. Pacotes são blocos de código prontos que os programadores reaproveitam.
Para agentes rodando no próprio aparelho, a Nvidia destaca o Nemotron 3.5 Bolt, modelo de 74 bilhões de parâmetros dos quais só 9 bilhões trabalham a cada etapa. É o formato MoE, sigla em inglês para mistura de especialistas, em que o modelo se divide em partes especializadas e aciona apenas algumas por vez. Ele vem comprimido em 2 bits, uma forma agressiva de encolher os números do modelo, e, segundo a empresa, já roda em Ollama (abre em nova aba), LM Studio (abre em nova aba), llama.cpp, vLLM e Unsloth. A Nvidia também diz que modelos de decisão no llama.cpp e no Unsloth escolhem ações até 200 vezes mais rápido que os ciclos tradicionais de raciocínio, uma alegação da própria fabricante.
Uma ressalva pesa sobre os números de IA. O teste da Artificial Analysis rodou num protótipo, na tomada, com as "receitas" de configuração recomendadas pela Nvidia, incluindo decodificação especulativa: um modelo auxiliar adianta alguns tokens, os pedaços de texto com que a IA trabalha, para o modelo principal conferir. No Qwen3.8 27B foram sete. A própria Artificial Analysis avisa que receitas, formatos dos modelos e uso dessa técnica variam de um sistema para outro, e que seus gráficos se atualizam continuamente e podem divergir do texto. O ganho de 4,6 vezes anunciado pela Nvidia se apoia nesse mesmo teste. Somado à queda de desempenho que Hollister viu com a bateria baixa, é prudente ler o resultado de IA como o de um notebook ligado na tomada.
Mesmo com essa cautela, a leitura do computador de IA que também joga é a que os números sustentam melhor. Nos jogos, os RTX Spark testados ficaram atrás de um notebook com RTX 5070 e de um MacBook Pro. Com modelos grandes, rodaram o que máquinas mais rápidas nem conseguiram abrir. Os notebooks já estão nas lojas, e a Nvidia promete para novembro os pequenos desktops com o chip.
Perguntas frequentes
O que é o RTX Spark N1X?
É um chip da Nvidia que reúne processador e parte gráfica numa única peça, com arquitetura Arm e gráfico da geração Blackwell, voltado a notebooks e pequenos desktops. Ele usa memória unificada, compartilhada entre processador e gráfico, que chega a 128 GB nas versões mais completas.
Os notebooks com RTX Spark servem para jogar?
Rodam jogos atuais, mas abaixo do que a Nvidia sugere. Em Cyberpunk 2077 a 2560 x 1600 na qualidade Ultra, as máquinas testadas pelo The Verge fizeram entre 41 e 46 fps, contra 57 de um notebook com RTX 5070 e 56 de um MacBook Pro com M5 Max. Para Di Benedetto, o desempenho fica entre uma RTX 5060 e uma RTX 5070 para notebooks.
Por que a memória de 128 GB importa para IA?
O modelo precisa caber na memória para rodar. No teste da Artificial Analysis, o notebook com 128 GB executou o Ling 3.0 Flash, de 77 GB, em 15,3 minutos, enquanto um MacBook Pro de 64 GB e uma RTX 5090 de 32 GB não comportaram o modelo.
Quanto custam e quando chegam os desktops?
As máquinas avaliadas pelo The Verge custam de US$ 3.199,99 a US$ 6.999,99, e a versão de entrada do chip parte de US$ 2.599,99. Os notebooks já estão à venda, e, segundo a Nvidia, os pequenos desktops com RTX Spark chegam em novembro.


