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    NotíciaInfraestrutura e hardware

    Roubo de carga para data centers de IA passa de US$ 100 milhões desde junho nos EUA

    Segundo a NBC News, ladrões levaram mais de US$ 100 milhões em carga destinada a data centers nos EUA desde junho. A maior parte dos golpes depende de fraude digital, e não de força.

    Reboque de caminhão aberto e vazio estacionado no acostamento de uma rodovia ao amanhecer, com uma viatura de escolta amassada parada ao lado
    Desde junho, ladrões desviaram mais de US$ 100 milhões em cargas destinadas a data centers nos EUA, a maioria por meio de fraudes digitais.
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    O ponto mais frágil da corrida pela inteligência artificial não é um laboratório nem uma fábrica de chips. É a estrada. Desde junho, criminosos levaram mais de US$ 100 milhões em carga destinada a data centers nos Estados Unidos. A estimativa é de líderes do setor, consultores e investigadores que assessoram a polícia, ouvidos pela NBC News (abre em nova aba). Data centers são os enormes galpões de computadores onde a IA roda. Para equipá-los, é preciso mandar de caminhão servidores que valem milhões a cada viagem.

    O caso que abre a reportagem parece roteiro de filme. No início de junho, um reboque com cerca de US$ 13 milhões em equipamentos de servidor seguia para Fayetteville, na Geórgia, cidade que abriga um dos maiores complexos de data centers do país. Dois policiais de folga escoltavam a carga. Um sedã sem identificação bateu nos carros da escolta. O reboque foi encontrado depois, mas os paletes com o equipamento tinham sumido. Em outro caso, um carregamento que ia da Califórnia para o Texas perdeu componentes de racks de servidor avaliados em cerca de US$ 10 milhões. De novo, um SUV atingiu o veículo de escolta, e o rastreamento por GPS foi falsificado.

    Gerardo Pachuca, investigador particular especializado em roubo de cargas e ex-policial do condado de Los Angeles, disse à NBC que a batida "não foi um acidente". Alguém sabia o que havia no caminhão, quem o protegia e como tirar essa proteção do caminho.

    Reboque de carga com caixas de servidores parado no acostamento de uma rodovia ao entardecer, com uma viatura de escolta danificada ao lado e um investigador de costas examinando os destroços
    Desde junho, carregamentos destinados a data centers nos EUA somam mais de US$ 100 milhões em perdas, a maior parte por fraude digital, não por força.

    As colisões chamam atenção, mas não representam a maior parte dos casos. Segundo o sargento David Pantoja, do Departamento do Xerife de Los Angeles, métodos digitais são "como a maior parte está sendo feita". O roteiro descrito à NBC, conforme relatou o Ars Technica (abre em nova aba), funciona mais ou menos assim:

    • os criminosos invadem contas de corretoras de frete nos sites onde cargas são anunciadas, ou publicam carregamentos falsos;
    • enviam um link malicioso e assumem contas de transportadoras;
    • dão lances em cargas reais como se fossem empresas legítimas;
    • usam motoristas que não sabem do esquema ou habilitações falsas;
    • no meio do caminho, repassam a mercadoria a um cúmplice.

    Um levantamento de outra origem aponta na mesma direção. A Overhaul, empresa de gestão de risco de cargas, afirma no relatório AI Infrastructure Intel que mais de US$ 150 milhões em equipamentos de IA foram roubados neste ano, segundo a Data Center Dynamics (abre em nova aba). Essa contagem é independente da citada pela NBC, e as duas não devem ser somadas. O dado mais revelador do relatório é outro: houve fraude em 92% dos roubos de cargas de tecnologia de alto valor que a empresa analisou. Isso inclui identidades falsas de transportadora, documentos adulterados e comunicações forjadas. A Overhaul diz ainda que os registros desse tipo de crime cresceram 34% desde 2024 e que perdas acima de US$ 30 milhões por carregamento acontecem toda semana.

    O relatório tem limites. Ele não informa quantos incidentes analisou, quais regiões cobriu nem sobre qual volume de carregamentos calculou o aumento. Os números servem como alerta, não como retrato exato. Mesmo assim, confirmam o que os investigadores contaram à NBC: o crime trocou a força pela fraude.

    Barras de ouro sobre rodas

    Por que justamente esse equipamento? Keith Lewis, chefe de operações da Verisk CargoNet, explicou à NBC que é "como roubar barras de ouro puro". Segundo ele, alguns roubos "chegam a mais de 30 milhões de dólares em um único carregamento". E completou: "É muito mais fácil roubar isso do que assaltar um banco". A lista de alvos inclui servidores, cabos de fibra óptica, chips de memória, fios de cobre e máquinas de mineração de bitcoin. Desde 2025, a NBC identificou quase duas dezenas de casos em estados como Califórnia, Texas e Utah.

    Parte da carga é recuperada. No condado de Cook, em Illinois, o xerife avaliou duas apreensões em US$ 300 mil em bobinas de fio de cobre e em cerca de US$ 1 milhão em equipamentos modulares de energia feitos sob medida para data centers. Em Los Angeles, uma apreensão incluiu equipamentos de refrigeração para data centers de IA da Deepcool, misturados a outras mercadorias. A Overhaul também cita um carregamento de US$ 60 milhões em hardware, de uma empresa não identificada, que foi desviado para um local não autorizado. A companhia foi alertada a tempo e recuperou a carga.

    O prejuízo que o seguro não cobre

    Para as empresas, o equipamento roubado talvez nem seja a maior perda. A Overhaul lembra que o seguro pode pagar o hardware, mas não cobre o atraso no cronograma nem os atrasos em contratos. Num setor em que todo mundo corre para colocar data centers em funcionamento antes do concorrente, esse tempo perdido custa mais do que o valor das peças.

    A escolta armada virou um bom negócio. Mike Duffy, da Solutions Group International, disse que a empresa escolta "centenas de cargas por mês", boa parte ligada a data centers. Só que os casos da Geórgia e do Texas mostram que nem a escolta garante a chegada da carga. E ela não resolve o problema principal. Scott Cornell, da TAPA Americas, afirmou que o esquema dá certo quando os motoristas não passam por uma verificação adequada.

    A lição é desconfortável para uma indústria que se apresenta como o auge da sofisticação tecnológica. O elo mais fraco da cadeia da IA é a senha de uma corretora de frete e um motorista que ninguém checou. Enquanto cada caminhão carregar o valor de um cofre de banco, e for mais fácil abri-lo do que um cofre de verdade, os ladrões vão continuar na estrada.

    Foto de Leandro Vieira

    Leandro Vieira

    CEO e founder | IA.com.br

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