A Reflection AI (abre em nova aba) colocou no Hugging Face, em 16 de outubro de 2026, os pesos do Beam 1.0, seu primeiro modelo aberto, sob a licença Apache 2.0. Pesos, ou parâmetros, são os bilhões de números ajustados durante o treinamento de uma inteligência artificial. Na prática, eles são o próprio modelo. Com os pesos publicados, qualquer pessoa pode baixar o Beam, adaptá-lo e executá-lo nos próprios servidores, sem depender da empresa que o criou.
O modelo tinha sido apresentado em 5 de outubro. Onze dias depois, chegou ao repositório público com 501,3 bilhões de parâmetros, uma ficha técnica que, segundo a Reflection, traz a versão final dos resultados em testes padronizados (os chamados benchmarks) e um relatório técnico de segurança. A empresa diz que o Beam foi feito para programação avançada, raciocínio e tarefas longas executadas por agentes, sistemas de IA que usam ferramentas e encadeiam etapas por conta própria.
A licença é a parte fácil da história. O hardware, não.
O que veio no pacote
Junto com os pesos, a Reflection publicou o tokenizer, a peça que quebra o texto em pedaços chamados tokens antes de entregá-lo ao modelo. Também saiu uma implementação de referência, o código que mostra como executar o Beam corretamente. O restante do lançamento inclui:

- Três versões do mesmo modelo, em precisões diferentes: BF16, FP8 e NVFP4. A precisão indica quantos bits cada número do modelo ocupa (16, 8 e 4, respectivamente). Menos bits significam arquivo menor e menos memória exigida.
- DFlash2, um modelo auxiliar de 2 bilhões de parâmetros para decodificação especulativa. A técnica funciona assim: o modelo pequeno propõe as próximas palavras e o grande apenas confere. Quando o palpite acerta, a resposta sai mais rápido.
- Mirror CLI, descrito pela empresa como o conjunto de ferramentas de código aberto em que o Beam foi construído e treinado.
- Suporte desde o primeiro dia em programas usados para rodar e ajustar modelos, como Transformers (do Hugging Face), vLLM, SGLang, Unsloth e Axolotl.
A Reflection afirma que o drafter, somado a configurações otimizadas com parceiros, reduz a memória necessária e acelera a geração de texto logo na instalação. A promessa vem sem número: uma análise do OrcaRouter sobre os requisitos de servidor do Beam chamou atenção justamente para a ausência de uma alegação publicada de vazão, a quantidade de texto gerada por segundo. A empresa também fala em mais de 40 parceiros e integrações para montar o que chama de "sistema operacional aberto para agentes", com o modelo no papel de núcleo (a comparação é da própria Reflection).
Licença livre, inclusive para uso comercial
A Apache 2.0 é uma licença permissiva bem conhecida no mundo do software: permite usar, modificar, redistribuir e vender o resultado. Na leitura do OrcaRouter, ela vem sem limite de usuários, sem teto de usuários ativos mensais e sem uma faixa comercial separada. O guia de uso responsável e o relatório técnico de segurança (abre em nova aba) que acompanham o Beam tratam do uso aceitável; são documentos de política, não cláusulas da licença.
Só que uma licença permissiva para um modelo que pouca gente consegue hospedar é uma liberdade de outro tipo, observou o mesmo OrcaRouter, ao comparar o Beam com modelos abertos bem menores.
Meio trilhão de parâmetros, 23 bilhões em ação
Hospedar o Beam é caro por causa de uma escolha de arquitetura. Ele é um modelo de mistura de especialistas esparsa, ou MoE (sigla de mixture of experts). Em vez de uma rede única que trabalha inteira a cada palavra, o Beam tem 52 camadas: três comuns e 49 divididas em 256 "especialistas" cada. Para cada token, um roteador escolhe oito desses especialistas. Dos 501,3 bilhões de parâmetros, cerca de 23,4 bilhões entram em ação por vez, algo perto de 4,7% do total.
Seria tentador concluir que o Beam se comporta como um modelo de 23 bilhões. Na velocidade, em boa medida, sim, porque o cálculo de cada token mobiliza só uma fração da rede. Na memória, não. Todos os especialistas precisam ficar carregados nas placas de vídeo, já que o roteador pode chamar qualquer um deles a qualquer momento.
Do arquivo de 273 GiB ao servidor de US$ 40 por hora
Essa exigência de memória aparece com clareza nos guias de implantação da Reflection, que, segundo o levantamento do OrcaRouter, são incomumente específicos sobre o hardware de cada versão. GiB é uma unidade praticamente equivalente ao gigabyte.
| Versão | Bits por número | Tamanho em disco | Hardware indicado |
|---|---|---|---|
| BF16 (referência) | 16 | 933,81 GiB | 8 GPUs Nvidia B200 ou B300 |
| FP8 | 8 | 468,72 GiB | 8 GPUs Nvidia H200 |
| NVFP4 | 4 | 273 GiB | 4 GPUs Nvidia B300 ligadas por NVLink |
B200 e B300 pertencem à geração Blackwell da Nvidia; a H200, à geração anterior, Hopper. NVLink é a conexão de alta velocidade entre GPUs do mesmo servidor. A versão NVFP4 é a que os próprios guias mandam baixar, e a única que roda de forma nativa no Blackwell sem precisar converter os números de volta para uma precisão maior durante o uso, processo que custa tempo. A FP8 é a recomendada para máquinas Hopper e mais antigas.
Quatro GPUs num único servidor cabem num rack, não exigem um data center inteiro. Mesmo assim, os 273 GiB da menor versão ficam muito além do que comporta uma estação de trabalho com uma única placa de vídeo. Quem tem um PC com boa placa para jogos consegue, no máximo, guardar o arquivo num disco externo.
Baixar é de graça. Manter o modelo funcionando pela receita pronta do Hugging Face, com oito GPUs H200, 1.128 GB de memória de vídeo, 208 processadores virtuais e 2.880 GB de memória comum, rodando no vLLM, custa US$ 40 por hora para cada réplica ligada (uns US$ 960 por dia para quem esquecer o servidor aceso). Réplicas desligadas não são cobradas, mas a própria página avisa que religá-las leva tempo.
Um milhão de tokens sem estourar a memória
A janela de contexto do Beam, que é a quantidade de texto que o modelo consegue considerar de uma vez, chega a 1.048.576 tokens, o famoso "1 milhão". Janelas desse tamanho costumam esbarrar no cache KV, a memória de trabalho em que o modelo guarda o que já leu para não recalcular tudo a cada nova palavra.
O Beam contorna o problema misturando dois tipos de atenção, o mecanismo com que o modelo relaciona partes do texto. Das 52 camadas, 43 olham apenas para os 512 tokens mais recentes; as outras 9 enxergam o contexto inteiro. Segundo a descrição técnica divulgada no lançamento, uma única conversa de 1 milhão de tokens ocupa cerca de 36 GiB de cache em BF16, contra 208 GiB se todas as camadas olhassem o texto completo. A economia fica perto de 82%.
Mesmo com o truque, a receita do Hugging Face vem configurada para 524.288 tokens, metade do máximo. O Beam também só trabalha com texto: tarefas que dependem de capturas de tela ou diagramas precisam passar antes por outro modelo, de visão ou de reconhecimento de caracteres (OCR). A ficha descreve ainda um formato de conversa que separa o raciocínio interno da resposta final e um ajuste de esforço de raciocínio com seis níveis.
Pela API, quem paga menos espera mais
Para quem não quer montar servidor, há a API da própria Reflection (abre em nova aba) e a rede de parceiros. A AWS, por exemplo, anunciou o Beam no SageMaker JumpStart e no SageMaker HyperPod Inference (abre em nova aba). No OpenRouter, serviço que distribui pedidos entre vários provedores, os preços listados no dia seguinte ao lançamento variavam bastante, e a velocidade também:
| Provedor | Entrada (por 1 milhão de tokens) | Saída (por 1 milhão de tokens) | Velocidade de saída | Tempo até o primeiro token |
|---|---|---|---|---|
| Nebius | US$ 0,25 | US$ 1,00 | 4 tokens/s | 37,8 s |
| Together | US$ 0,40 | US$ 1,20 | 9 tokens/s | 12,6 s |
| CoreWeave | US$ 1,00 | US$ 3,00 | 112 tokens/s | 0,7 s |
| Baseten | US$ 1,30 | US$ 4,30 | 364 tokens/s | 0,3 s |
Entrada é o texto que o usuário envia; saída, o que o modelo escreve. Na Nebius, a opção mais barata, a primeira palavra demora quase 38 segundos para aparecer, e uma resposta de 300 tokens leva mais de um minuto só para ser escrita. Num exemplo de mil pedidos com 500 tokens de entrada e 300 de saída, a conta fica em cerca de US$ 0,43 na Nebius e US$ 1,94 na Baseten.
É a velha troca entre o frete econômico e o expresso que a gente conhece das compras online. Os dois entregam, mas só um serve para um assistente com alguém esperando resposta do outro lado. Há outro detalhe: a chamada de ferramentas, essencial para agentes, funciona em apenas três dos quatro provedores listados. Esses números mudam com o tempo e não valem como garantia para qualquer pedido ou região.
Desempenho: números da empresa, poucas medições externas
A Reflection diz que a ficha técnica do modelo (abre em nova aba) traz os benchmarks finais, com comparações feitas pela própria empresa. Avaliação independente ainda é escassa. Um rastreador independente de modelos não exibia nota de qualidade para o Beam no dia seguinte ao lançamento, e a Artificial Analysis, por enquanto, registrou a data de estreia, 16 de outubro.
Além dos números próprios, a empresa exibiu demonstrações de desenvolvedores com acesso antecipado. Numa delas, o Beam resolveu os enigmas de uma sala de fuga virtual escrevendo e executando código Python num ambiente da CoreWeave. Noutra, montou um jardim com pagode em blocos 3D numa página HTML em 117 segundos, usando 12,6 mil tokens, e precisou de uma correção de uma linha. Na terceira, construiu um jogo da cobrinha para navegador de celular em 2min19s, contra 4min56s do modelo Big Pickle com o mesmo pedido. (Um modelo de meio trilhão de parâmetros exibido fazendo o jogo da cobrinha.) São vitrines escolhidas pela Reflection, não testes controlados.
No fórum r/LocalLLaMA, usuários relataram casos iniciais de repetição em loop, quando o modelo volta aos mesmos trechos sem concluir a tarefa. São relatos da comunidade, sem confirmação oficial.
Para a maioria das equipes, o primeiro teste sensato do Beam é pela API hospedada, escolhendo o provedor conforme a pressa da aplicação. Montar a própria infraestrutura passa a fazer sentido quando exigências sobre onde os dados ficam guardados, capacidade previsível ou tráfego alto e constante justificam um orçamento de várias GPUs, como recomenda a análise do site AIReiter.
Perguntas frequentes
Posso usar o Beam 1.0 em um produto comercial?
Sim. A Apache 2.0 permite usar, modificar, redistribuir e vender versões derivadas, sem limite de usuários. O guia de uso responsável e o relatório de segurança orientam o uso aceitável, mas não são cláusulas da licença.
Dá para rodar o Beam 1.0 em um computador comum?
Não. A menor versão, em NVFP4, ocupa cerca de 273 GiB e é indicada para um servidor com quatro GPUs B300; a receita pronta do Hugging Face usa oito GPUs H200. Mesmo com apenas 23,4 bilhões de parâmetros ativos por token, o modelo inteiro precisa ficar carregado na memória.
Quanto custa usar o Beam pela API?
Depende do provedor. No OpenRouter, os preços listados iam de US$ 0,25 por milhão de tokens de entrada e US$ 1,00 por milhão de saída, na Nebius, até US$ 1,30 e US$ 4,30, na Baseten, com grande diferença de velocidade entre eles. A Reflection também oferece API própria.
Já existem avaliações independentes do Beam?
Ainda não há nota consolidada: no dia seguinte ao lançamento, um rastreador independente não exibia pontuação de qualidade para o modelo. Os benchmarks disponíveis são os da ficha técnica, divulgados pela própria Reflection.


