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    NotíciaTrabalho e produtividade

    Proton cancela 'reentrevistas' sobre IA, mas o chefe avisa: 'vou continuar pressionando'

    Andy Yen, CEO da Proton, desistiu na sexta-feira (30) de reentrevistar funcionários sobre o uso de IA, sob ameaça implícita de demissão. Na mesma reunião, admitiu falha de comunicação e disse que seguirá cobrando.

    Sala de entrevistas corporativa com cadeiras vazias ao redor de uma mesa de vidro contendo pastas fechadas, com um executivo discursando para funcionários em um auditório ao fundo.
    CEO da Proton desiste de reavaliar funcionários sobre o uso de inteligência artificial, mas mantém cobrança por resultados.
    Neste artigo

    Na sexta-feira (30), Andy Yen, presidente-executivo da Proton (abre em nova aba), cancelou uma rodada de "reentrevistas" que atingiria quase toda a empresa. Nelas, cada funcionário teria de explicar como usa inteligência artificial no trabalho. Segundo seis empregados ouvidos pelo site 404 Media (abre em nova aba), o recado era claro: quem usasse pouco, na avaliação da chefia, poderia ser demitido. O recuo veio numa reunião geral de cerca de duas horas, cujo áudio o site obteve. Ali mesmo, Yen marcou o limite da concessão: "Daqui para a frente, vou continuar pressionando."

    A pressa tem data. Na quinta-feira (29), o 404 Media publicou uma investigação sobre a ofensiva de IA dentro da Proton. O episódio mais revelador aconteceu no fim de agosto, num canal interno dedicado à segurança. Um funcionário pediu que a empresa reservasse ao menos alguns dias para um pentest antes de colocar no ar um código recém-escrito. Pentest é o teste em que especialistas tentam invadir o próprio sistema para achar falhas antes que um criminoso as encontre. Yen respondeu: "Isso é besteira e pensamento de perdedor. É claro que dá para ser rápido e seguro." E seguiu: "Parem de pensar sempre em como ser mais lentos e foquem em como ser mais rápidos." Fechou com um conselho: parar de "lapidar à mão, com todo o carinho, o nosso código" e usar mais IA.

    A frase pesa pelo endereço de quem a disse. A Proton vende privacidade. Seus clientes pagam para confiar que alguém cuida, com paciência, daquilo que protege seus dados. A investigação ouviu oito funcionários atuais e um ex-funcionário e reuniu mensagens internas, áudios de reuniões e um manifesto sobre IA escrito pelo diretor de tecnologia, Bart Butler. O retrato que saiu dali é o de outra empresa, que acelera a IA em boa parte para aumentar a receita anual. Saiu também um clima de medo. Pelos relatos, quem tem dúvidas sobre segurança, ou sobre construir produtos de segurança com IA, prefere ficar calado, porque Yen ridiculariza ou insulta funcionários na frente dos colegas.

    Documentos impressos sobre uma mesa de vidro em primeiro plano, com funcionários conversando de forma tensa em um corredor de escritório desfocado ao fundo sob iluminação fria.
    Repercussão negativa faz liderança recuar em reavaliação de funcionários, mas pressão por eficiência na empresa continua.

    Um recuo que se explica sozinho

    Na reunião, Yen admitiu "uma falha de comunicação" da sua parte e prometeu refletir e melhorar "com o tempo". Contou que a diretoria passou os últimos dias discutindo as reentrevistas e que o conselho foi consultado. "Estão acompanhando a situação de perto", disse. A Proton pertence à Proton Foundation, cujo conselho reúne o próprio Yen, Tim Berners-Lee, a professora Carissa Véliz, Dingchao Lu e Antonio Gambardella.

    A justificativa para o cancelamento é a parte mais franca do episódio. Segundo Yen, as reentrevistas "já cumpriram seu propósito", ainda que "de forma não intencional", porque os funcionários agora estão conversando sobre IA e aprendendo a usá-la. Dito de outro modo, a ameaça produziu efeito antes mesmo de ser executada. Bart Butler foi menos diplomático. Respondendo a um funcionário durante a reunião, disse algo como "pisamos na bola, sabemos que pisamos na bola", numa versão bem mais crua no original.

    O que muda e o que fica

    • Saem as reentrevistas.
    • Segundo um funcionário, os critérios de uso de IA passam a fazer parte das avaliações de desempenho.
    • Haverá uma reorganização, mas Yen afirmou que "não haverá perda de empregos por causa da IA".
    • O rumo, segundo um funcionário, foi dito com todas as letras pela própria chefia: não mudou.

    Dentro da empresa, a leitura se divide, e a ala cética fala alto. "Não acho que ele vá mudar nada. Acho que a única razão dessa reunião é que ele tem uma rebelião nas mãos", disse um funcionário depois do encontro. Outro lembrou que as reentrevistas só caíram quando o caso se tornou público, apesar das objeções levantadas antes por muitos colegas. "Como usuário da Proton, isso não me tranquiliza", afirmou. "Vai além de problemas de comunicação e dores de crescimento. No momento, tudo parece compatível com controle de danos."

    A conta do lado de fora

    Fora da empresa, o barulho é maior. Desde a publicação da investigação, usuários foram às redes sociais pedir explicitamente a renúncia de Yen. Uma resposta dele no Reddit recebeu mais de 1.200 votos negativos, e muitos clientes disseram estar cancelando planos pagos. Em fóruns de tecnologia, há quem já relate estar no meio da mudança para outro serviço de e-mail.

    O pedido de renúncia esbarra num dado prosaico. Yen é apontado como dono da maioria das ações da Proton e tem assento no conselho que, em tese, deveria fiscalizá-lo. Quem decide sobre o chefe, em boa medida, é o próprio chefe.

    Uma empresa de privacidade sobrevive a uma reunião ruim. O que ela não consegue terceirizar, nem para a IA, é a confiança de quem lhe entrega os próprios dados. Os clientes que protestam não estavam preocupados com a entrevista de um programador. Querem saber se o código que guarda seus e-mails ainda passa por alguém que tenta quebrá-lo antes de ir ao ar. O cancelamento de sexta-feira não responde a essa pergunta.

    Foto de Leandro Vieira

    Leandro Vieira

    CEO e founder | IA.com.br

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