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    NotíciaSociedade e regulação

    Pritzker vê na IA vida até os 100 anos e risco comparável ao das armas nucleares

    Em entrevista ao podcast Decoder, o governador de Illinois previu desemprego de 7% a 10% e vidas de até 110 anos por causa da IA, e comparou o risco ao das armas nucleares. A lei de IA que ele sancionou só começa a valer em 2028.

    Pritzker vê na IA vida até os 100 anos e risco comparável ao das armas nucleares
    Em entrevista ao podcast Decoder, o governador de Illinois previu desemprego de 7% a 10% e vidas de até 110 anos por causa da IA, e comparou o risco ao das armas nucleares. A lei de IA que ele sancion
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    O governador de Illinois, JB Pritzker, de 61 anos, fez na segunda-feira (19) duas previsões sobre a inteligência artificial. A primeira é que seus filhos, de 21 e 24 anos, "vão viver até 100 ou 110 anos, porque a IA vai resolver uma porção de desafios médicos". A segunda é que a mesma tecnologia pode ameaçar a humanidade como as armas nucleares. Ele falou ao jornalista Nilay Patel, no podcast Decoder, do site The Verge. Os Estados Unidos estão a menos de um mês das eleições de meio de mandato, a votação antecipada já começou e Pritzker disputa a reeleição.

    Entre a longevidade e o apocalipse, o governador deixou um número mais modesto e mais útil para quem trabalha. Hoje, um desemprego de cerca de 4% é tratado nos Estados Unidos como quase pleno emprego. Com a IA, disse ele, o patamar normal poderia passar a ser de 7% "ou talvez 10%". Ele não falou de uma crise passageira. Falou do novo piso. Para a economia, segundo Pritzker, a IA é "potencialmente existencial, mas certamente transformadora".

    A entrevista importa porque quem fala não é comentarista. Pritzker sancionou em julho uma das três leis estaduais americanas que obrigam as maiores empresas de IA a prestar contas sobre riscos graves. Desde então, cobra do Congresso uma regra nacional. O que vale observar é a distância entre o tamanho do medo que ele descreve e o tamanho da lei que ele assinou.

    Documento oficial assinado sobre uma mesa de madeira escura, com uma caneta-tinteiro ao lado, iluminado por luz natural que entra por uma janela
    A lei de Illinois sobre riscos graves da inteligência artificial, sancionada por Pritzker, só entra em vigor em 2028.

    A bomba como argumento

    A comparação com o arsenal atômico não é nova para o governador. Em 20 de setembro, no programa "This Week", da rede ABC, ele chamou a IA de "perigosa no nível das armas nucleares". No Decoder, desenvolveu a ideia: "As armas nucleares continuam pairando sobre nós como um perigo para a humanidade. E, até agora, pelo menos, conseguimos não explodir o mundo". Acrescentou que a IA talvez envolva "destruição mutuamente assegurada, como foi com as armas nucleares". É a doutrina da Guerra Fria segundo a qual ninguém ataca porque todos seriam destruídos.

    A analogia tem uma consequência que o próprio Pritzker reconhece. A bomba foi contida, até aqui, por acordos entre governos nacionais, e não por assembleias estaduais. Na ABC, ele disse que a regulação da IA "precisa ser um esforço nacional e também internacional, especialmente junto com nossos aliados, porque a IA não vai desaparecer". Acusou também o governo de Donald Trump de aceitar que a tecnologia "corra solta" e de deixar aos líderes do setor a tarefa de se autorregular. Segundo a ABC, Trump já chamou os temores sobre IA de "farsa" e anunciou uma "AI Force".

    O alarme, porém, tem limite. Pritzker não apoia a proposta do senador Bernie Sanders de proibir a superinteligência, a IA hipotética que superaria a capacidade humana em quase tudo. "Você não vai conseguir", disse. "Não precisamos desligar tudo. Precisamos garantir que não saia do controle." A posição é razoável. Mas quem compara uma tecnologia à bomba e descarta proibi-la está dizendo, na prática, que aposta em vigilância, e não em contenção.

    O que a lei de Illinois exige

    A vigilância tem nome: Lei de Medidas de Segurança em IA (Senate Bill 315), sancionada em Chicago em julho. Pritzker a chama de "a mais dura do país". Ela segue o modelo da SB-53, da Califórnia, e da lei RAISE, de Nova York, ambas assinadas no fim de 2025. Alcança apenas os maiores desenvolvedores de modelos, que são os sistemas por trás de assistentes como o ChatGPT.

    O que a lei prevêRegra
    Quem é alcançadoDesenvolvedores com receita anual acima de US$ 500 milhões e modelos treinados com enorme poder de computação
    O que é "risco catastrófico"Incidente que possa matar ou ferir gravemente mais de 50 pessoas ou causar mais de US$ 1 milhão em danos materiais
    Prazo para comunicar incidente ao estado72 horas, ou 24 horas se houver risco iminente de morte ou ferimento grave
    AuditoriaAnual, feita por terceiros, sobre os planos de segurança
    MultasAté US$ 1 milhão na primeira infração e até US$ 3 milhões nas seguintes
    Início da vigência1º de janeiro de 2028

    Entre os danos que precisam ser relatados estão a ajuda na criação de armas químicas, biológicas ou nucleares e a execução de ataques cibernéticos. Segundo a Capitol News Illinois, a novidade de Illinois é a auditoria anual por uma empresa independente, a primeira do país. Nova York exigiu uma única auditoria, feita quando o desenvolvedor atinge determinado porte.

    Dois detalhes ajudam a medir a dureza da lei. A OpenAI (abre em nova aba) e a Anthropic (abre em nova aba), justamente o tipo de empresa que ela pretende fiscalizar, apoiaram o projeto. E a aprovação foi folgada: só cinco senadores republicanos votaram contra, e a Câmara estadual aprovou o texto por unanimidade. O apoio de quem será fiscalizado sugere que as exigências cabem no que essas empresas já se dispunham a fazer. Além disso, o título de "mais dura do país" é disputado entre apenas três leis.

    Há também o calendário. O governador descreve um risco comparável ao da destruição mútua, mas a lei que assinou só começa a valer daqui a mais de 14 meses. Até lá, as regras de Illinois existem apenas no papel.

    O resto da campanha

    Pritzker contou ao Decoder que criou um Gabinete de IA no governo estadual, com participação do órgão de gestão de emergências e da polícia estadual. Na mesma conversa em que comparou a IA à bomba, exibiu outra credencial atômica: Illinois produz mais energia nuclear do que qualquer outro estado americano. Cerca de 53% ou 54% de sua eletricidade vem de usinas nucleares, e o estado exporta o excedente.

    Sobre o próprio futuro, não disse nada. Na ABC, não respondeu se pretende disputar a Presidência em 2028. Um governador que fala em vidas de 110 anos, desemprego de 10% e destruição mútua a semanas de uma eleição está testando um tema de campanha. A IA entrou no palanque.

    O que muda para quem lê

    No curto prazo, nada muda para quem usa ferramentas como o ChatGPT. A lei de Illinois só vale a partir de 2028 e só atinge empresas gigantes. Aplicativos pequenos ficam de fora.

    O peso dessas leis estaduais vem da escala. Pelas contas dos legisladores de Illinois, os três estados que já aprovaram regras desse tipo (Califórnia, Nova York e Illinois) somam cerca de 20% da população americana e cerca de 40% do mercado de IA dos Estados Unidos. Empresas do porte da OpenAI e da Anthropic dificilmente podem ignorar esse pedaço do mercado. E os modelos dessas empresas são usados por muita gente também no Brasil.

    As previsões do governador pedem outro tratamento. Para prometer longevidade aos filhos, Pritzker citou a cura da anemia falciforme e o avanço esperado contra o câncer. A estimativa de desemprego veio no condicional. São apostas de um político em campanha, e não compromissos que alguém possa cobrar. Pela lei que ele mesmo assinou, as empresas de IA terão de passar por auditoria todo ano, mas as previsões do governador não passam por auditoria nenhuma.

    Foto de Leandro Vieira

    Leandro Vieira

    CEO e founder | IA.com.br

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