O número que circulou nesta semana é difícil de ignorar: US$ 80,7 bilhões de prejuízo líquido em seis meses. Esse é o resultado da Anthropic (abre em nova aba), empresa por trás do assistente Claude (abre em nova aba), no primeiro semestre de 2026. O dado está num rascunho do prospecto de abertura de capital visto pelo Wall Street Journal. O prospecto é o documento em que a empresa detalha finanças e riscos antes de vender ações na bolsa. No mesmo período de 2025, o prejuízo tinha sido de US$ 13 bilhões. Segundo o Futurism, o Journal descreveu o resultado como "um dos maiores prejuízos semestrais já registrados".
O Futurism usou o dado para uma piada: isso explicaria por que o CEO Dario Amodei aparece em qualquer foto com uma expressão entre o horror e a consternação profunda. Funciona como manchete. Com os números na mão, porém, a preocupação de Amodei parece ter outra origem, e ela diz mais sobre a empresa do que o prejuízo.
A maior parte do rombo existe só no papel
Dos US$ 80,7 bilhões, US$ 72 bilhões são lançamentos contábeis, segundo a Reuters e a Bloomberg. Eles refletem a mudança de valor de instrumentos financeiros que a Anthropic emitiu para captar dinheiro. Os principais são as notas conversíveis, uma espécie de empréstimo que o investidor pode trocar por ações da empresa no futuro.

Aqui mora o paradoxo. Quanto mais a Anthropic passa a valer, mais valiosos ficam esses papéis, e a contabilidade registra essa valorização como perda para a empresa. Como resumiu o The Next Web com base na Reuters, esse valor não é dinheiro saindo do caixa para pagar a operação. Tirando essa cobrança, a conta simples deixa algo perto de US$ 8,7 bilhões de prejuízo no semestre. Continua sendo muito dinheiro, só que a escala muda bastante.
A receita não cresceu "só" US$ 1,1 bilhão
O próprio texto do Futurism tropeçou num detalhe: afirmou que a receita cresceu apenas US$ 1,1 bilhão, chegando a US$ 16,3 bilhões. Reuters e The Next Web contam outra história. Os US$ 1,1 bilhão eram a receita do primeiro semestre de 2025 inteiro. Em um ano, portanto, o faturamento se multiplicou por cerca de 15.
Para ter noção da escala, a Anthropic faturou US$ 4,6 bilhões em todo o ano de 2025. Segundo o The Next Web, a empresa disse a investidores na semana passada que só o terceiro trimestre de 2026 rendeu US$ 16,8 bilhões, mais do que todo o semestre anterior. A Bloomberg informou ainda que a Anthropic comunicou ter atingido lucro no terceiro trimestre "em base ajustada". Essa é uma métrica em que a própria empresa deixa alguns custos de fora da conta.
| 1º semestre de 2025 | 1º semestre de 2026 | |
|---|---|---|
| Receita | US$ 1,1 bilhão | US$ 16,3 bilhões |
| Gasto com computação e infraestrutura | US$ 2,3 bilhões | quase US$ 9 bilhões |
| Prejuízo líquido | US$ 13 bilhões | US$ 80,7 bilhões |
O medo de verdade tem nome: computação
Se a receita vai tão bem e o prejuízo é quase todo contábil, de onde vem a cara de preocupação? Dos compromissos gigantes que a Anthropic assumiu para garantir computação, ou seja, os chips e data centers que treinam e fazem o Claude funcionar. Só no primeiro semestre, a empresa gastou quase US$ 9 bilhões nisso, contra US$ 2,3 bilhões um ano antes. Foi mais do que os US$ 7,3 bilhões gastos em todo o ano de 2025.
Esse gasto ainda é pequeno perto do que vem pela frente. Segundo a Bloomberg, o prospecto lista acordos de computação de cerca de US$ 450 bilhões para os próximos sete a dez anos, e a maior parte não pode ser cancelada. São US$ 111 bilhões com o Google Cloud (abre em nova aba), US$ 110 bilhões com a Amazon Web Services (abre em nova aba) e US$ 31 bilhões com a Microsoft (abre em nova aba). Em setembro, a Reuters já havia noticiado compromissos de pelo menos US$ 518 bilhões em uma década. Pelo relato do Journal, a conta pode chegar a US$ 750 bilhões nos próximos anos, contando acordos ainda em negociação.
O próprio documento, segundo o Journal, aponta entre os riscos uma base de clientes estreita e o acesso incerto ao poder de computação de que a empresa precisa. Lado a lado, os dois pontos mostram a aposta. A Anthropic se comprometeu a pagar centenas de bilhões em contratos que não pode desfazer, contando que a demanda de um grupo relativamente concentrado de clientes continue subindo nesse ritmo. Ao mesmo tempo, admite que talvez não consiga toda a capacidade de que precisa. A empresa tem motivo para temer ficar com computação demais e também com computação de menos.
Um IPO na casa dos trilhões
Esses números aparecem agora porque a Anthropic se prepara para estrear na bolsa. De acordo com o The Next Web, Jim Edwards escreveu na Fortune, citando o Journal, que a empresa vai buscar uma avaliação de US$ 2 trilhões. A Reuters informou que alguns investidores consideram um valor mais baixo, em torno de US$ 1,5 trilhão.
O prejuízo de US$ 80 bilhões rende a manchete assustadora, mas o número que merece atenção é outro: os cerca de US$ 450 bilhões em contratos de computação. Se a receita continuar subindo como subiu neste ano, esses contratos vão parecer visão de longo prazo. Se o crescimento perder fôlego, viram uma dívida de que a empresa não consegue se livrar. Esse é um bom motivo para alguém parecer preocupado em todas as fotos, bem melhor do que qualquer linha contábil.


