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    NotíciaSociedade e regulação

    Por que a China continua a ser o bicho-papão que os entusiastas de data centers não conseguem deixar para trás

    O aumento da oposição a data centers nos Estados Unidos leva a um discurso que culpa a China por essa aversão, embora as evidências para tal sejam escassas.

    Por que a China continua a ser o bicho-papão que os entusiastas de data centers não conseguem deixar para trás
    Neste artigo

    Nos últimos anos, a resistência a data centers tem aumentado nos Estados Unidos. Recentes pesquisas revelam que até 75% da população se opõe à construção dessas infraestruturas em suas comunidades, um aumento significativo em relação aos 42% do ano anterior. À medida que as eleições se aproximam, políticos, como os governadores Greg Abbott (Texas) e Josh Shapiro (Pensilvânia), mostraram-se mais cautelosos em relação ao apoio que antes ofereciam a esses projetos.

    O aumento da resistência a data centers tem levado, por outro lado, a um discurso muito focado na influência da China. A narrativa de que a insatisfação com esses centros é, na verdade, um produto de operações de influência estrangeira começou a ganhar força, especialmente entre alguns políticos e figuras proeminentes da tecnologia. A alegação reflete uma tentativa de desviar a atenção dos problemas ambientais e sociais associados a essas instalações.

    Em agosto, a plataforma X (anteriormente conhecida como Twitter) anunciou a identificação de 200 contas supostamente ligadas à China que estariam promovendo a oposição a data centers. Esta denúncia desencadeou uma série de reportagens, incluindo uma da Axios, que afirmava que “a China está lentamente alimentando a raiva americana em relação aos data centers”. O presidente dos Estados Unidos também se manifestou, sugerindo que a insatisfação popular com os data centers era de alguma forma benéfica para a China.

    A Narrativa da Influência Estrangeira

    A ideia de que a animosidade em relação aos data centers é fomentada pela China serve como uma explicação conveniente para os defensores da construção dessas instalações. Em vez de lidar com questões cruciais, como impactos ambientais, os interesses em tecnologia podem simplesmente atribuir a culpabilidade a um adversário externo. Essa estratégia evita um exame mais crítico das preocupações legítimas da população.

    Estudos, como os realizados por especialistas em relações internacionais, afirmam que não há evidências concretas que sustentem a narrativa de uma influência significativa da China neste contexto. Segundo Tyler Williams da Graphika, uma empresa de análise de redes sociais, a maior parte da oposição aos data centers parece ser originada localmente, e não fruto de manipulações estrangeiras.

    Reações e Implicações Políticas

    À medida que a pressão aumenta e políticas sobre os data centers se tornam mais polarizadas, a retórica política tende a se intensificar. Estes dados apresentados por políticos caterizam uma audiência que já demonstrou estar bastante cética em relação à construção de data centers nas suas comunidades. Enquanto alguns legisladores voltam atrás em sua posição, argumentando contra os data centers, outros continuam a promover a ideia de que a mudança de opinião do público se deve a um ataque coordenado de fontes estrangeiras, como a China.

    Entretanto, o efeito disso pode ser duplo. Se, de um lado, essa narrativa pode ajudar a desviar a atenção de problemas legítimos que geram a resistência popular, por outro, também poderá alimentar um clima de desconfiança e xenofobia em relação à China. Isso levanta questões mais amplas sobre a influência da política nas percepções públicas a respeito da tecnologia e infraestrutura.

    O que vem a seguir?

    Os debates sobre os data centers e seu impacto na sociedade continuam a evoluir. Com as eleições se aproximando, é provável que as discussões sobre esses temas ganhem ainda mais destaque. Por outro lado, a narrativa sobre a influência da China pode evoluir, mas à luz da falta de evidências consistentes, pode não ressoar como os defensores esperam.

    Enquanto isso, especialistas e analistas continuam a observar de perto a situação, esperando que a verdade sobre a oposição a data centers perdure, longe das sombras de um bicho-papão conveniente. Políticos e defensores da tecnologia terão que lidar com uma realidade em que as preocupações legítimas dos cidadãos não podem ser facilmente descartadas em favor de teorias de conspiração externas.

    Fontes

    Foto de Simão Vieira de Mairins

    Simão Vieira de Mairins

    COO e co-fundador do ia.com.br

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