Notícia

    Pesquisador do Google DeepMind sai e chama corrida por superinteligência de irresponsável

    Robert O'Callahan, especialista em ferramentas de projeto de chips no Google DeepMind, deixou a empresa em 25 de setembro de 2026 dizendo que o ritmo da inteligência artificial é rápido demais e que buscar superinteligência no futuro próximo é inerentemente irresponsável.

    Leandro Vieira

    CEO e founder | IA.com.br

    Pesquisador em escritório de tecnologia diante de anotações sobre chips e inteligência artificial
    A saída ocorreu depois que o pesquisador concluiu que acelerar a inteligência artificial não era bom para as pessoas naquele momento.

    Robert O'Callahan, especialista técnico do Google DeepMind (abre em nova aba) baseado na Nova Zelândia, anunciou nesta sexta-feira, 25 de setembro de 2026, que deixou a empresa. Ele trabalhava em ferramentas de projeto de chips, as peças de hardware que fazem os computadores rodarem sistemas de inteligência artificial. O objetivo do seu time era tornar a IA mais barata e com menor latência, ou seja, com respostas mais rápidas. Foi esse mesmo trabalho que passou a pesar contra a decisão de ficar.

    Em uma publicação feita no dia do anúncio, ele disse que o ritmo atual de mudanças na IA é alto demais. Em um texto mais longo, afirmou que o risco trazido pela superinteligência artificial é real, mas incerto, e que buscar esse tipo de sistema no futuro próximo é inerentemente irresponsável.

    O que é superinteligência artificial

    Superinteligência artificial, chamada de ASI na sigla em inglês, é o nome dado a um sistema hipotético que superaria os seres humanos em praticamente todas as tarefas que exigem raciocínio, como planejar, pesquisar, programar e decidir. Nada assim existe hoje. A discussão é sobre o que poderia acontecer se essa busca avançasse antes que existam formas confiáveis de manter tais sistemas sob controle.

    O pesquisador não afirma que o desastre é certo. Ele escreveu que não está convencido de que a chance de um cenário catastrófico seja de 100%. Ainda assim, avalia que a probabilidade é alta o suficiente para tornar a corrida atual um problema. Segundo ele, existe a obrigação moral de fazer um esforço enorme para reduzir esse risco.

    Quais preocupações ele lista

    Além da superinteligência, O'Callahan menciona outros efeitos que já estariam em curso: a chamada entrega cognitiva, quando as pessoas passam a aceitar respostas de máquinas sem questionar; casos de psicose e solidão associados ao uso de chatbots; a concentração de poder nas mãos de poucas empresas; a disrupção econômica; riscos de segurança digital; e a falta de responsabilização quando algo dá errado. Ele disse que apostaria que os danos superam os benefícios.

    Segundo ele, muitos colegas do Google DeepMind compartilham dessas preocupações, mas raramente falam sobre isso em público. Ele afirmou que pretende passar a fazer um trabalho inequivocamente pró-humano.

    A carta enviada aos colegas

    O'Callahan também divulgou a carta de demissão que enviou a colegas na sexta-feira. Nela, escreveu que não poderia fechar os olhos para o impacto do próprio trabalho, porque isso não seria uma atitude de quem segue Jesus. Em sua biografia no blog, ele se descreve como cristão.

    “Não foi uma decisão fácil. Amo meus colegas e meu ambiente de trabalho, e ser bem pago para resolver quebra-cabeças divertidos tem sido incrível. Mas o objetivo do meu time é, no fim das contas, tornar a IA muito mais barata e com menor latência, e não acho que isso seja bom para as pessoas agora: acredito firmemente que o progresso da IA é rápido demais no momento, e também tenho dúvidas sobre o destino.”

    Em um texto de novembro de 2025, ele já havia resumido sua posição em três pontos: trabalhava no Google DeepMind, acreditava que a IA provavelmente seria desastrosa para a humanidade e cria que Jesus ressuscitou.

    Uma sequência de saídas

    A partida não é um caso isolado. No mesmo mês, Jacob Coxon deixou a Anthropic dizendo temer que a indústria estivesse construindo uma tecnologia que não conseguiria controlar. No mês anterior, o pesquisador Bilal Chughtai afirmou ter deixado o Google DeepMind no meio do ano por receio de que a humanidade esteja ficando sem tempo para evitar um cenário em que a IA prejudique as pessoas.

    Corredor de escritório de tecnologia com estações de trabalho vazias, tema de saídas na área de IA
    A demissão se soma a outras saídas recentes de pesquisadores que alertaram sobre riscos da inteligência artificial.

    O'Callahan disse que sua saída não foi planejada para coincidir com essas outras. A data já estava definida havia tempo, porque tinha uma viagem de mochilão de dez dias com amigos marcada para começar na segunda-feira, nas trilhas de Abel Tasman e Wangapeka.

    Ele também afirmou que pretende continuar trabalhando com IA de outras formas, incluindo o estudo de como agentes, programas capazes de executar tarefas por conta própria, podem ser usados para encontrar e corrigir erros em códigos de computador.

    Um debate maior em volta do tema

    O'Callahan recomendou a leitura do livro “If Anyone Builds It”, dos autores Eliezer Yudkowsky e Nate Soares, sem endossar a tese da obra de que a superinteligência levaria inevitavelmente a uma catástrofe. Os dois estão ligados ao movimento conhecido como altruísmo eficaz, já criticado por priorizar a doação de caridade em vez da redistribuição de renda.

    Um memorando da Casa Branca descreve esse movimento como um grupo marginal com características de seita e critica o executivo Dario Amodei, da Anthropic, tratado como a face do derrotismo sobre IA.

    Sobre os alertas vindos de dentro das empresas, O'Callahan disse acreditar que os funcionários que os fazem são sinceros. Segundo ele, não viu evidência concreta de que pessoas estejam exagerando os riscos da IA para inflar o valor das ações das companhias ou para regular concorrentes fora do mercado.

    Para quem acompanha o setor de fora, a saída ilustra uma tensão que não se resolve com números: quanto mais barata e rápida fica a IA, mais gente consegue usá-la, e menos claro fica quem responde pelos efeitos desse uso.

    Fontes

    0 comentários

    Comentários

    Faça login para comentar nesta notícia.

    Nenhum comentário ainda. Seja o primeiro!