Justin Lin, pesquisador da OpenAI (abre em nova aba), tinha uma reclamação curiosa sobre a rotina de trabalho moderna: ele detestava ter que abrir o notebook apenas para sussurrar comandos de voz para o Codex, o sistema de programação da empresa. A solução apresentada na terça-feira (3) foi um protótipo de mesa apelidado de "Codex pet" (um mascote do Codex, em tradução livre). Trata-se de um pequeno aparelho de testes, equipado com uma tela reduzida e um botão de apertar para falar, cuja carcaça, placa de circuito eletrônico e software interno foram desenhados pelo modelo de inteligência artificial GPT-6 Astra.
O detalhe mais revelador do experimento não é a utilidade do bichinho eletrônico em si, mas quem o tirou do papel. Lin nunca havia projetado ou montado uma placa eletrônica do zero, uma tarefa que ele próprio descreveu como intimidadora. Mesmo assim, bastou menos de uma semana de trabalho de dois membros da equipe conversando com o Astra para gerar os arquivos completos do projeto. Segundo a OpenAI, o desenho técnico saiu do modelo sem edições diretas feitas por humanos: a IA definiu os requisitos de funcionamento, escolheu as peças elétricas, organizou os componentes na placa para caberem na estrutura e escreveu o programa que conecta o aparelho ao Codex.
Batizado nos registros da empresa como "experimentos de dispositivos TamaGPT" (em referência direta aos clássicos brinquedos virtuais Tamagotchi), o protótipo buscou inspiração estética em jogos, brinquedos e nos teclados da fabricante Work Louder. Embora seja apenas um dispositivo de teste e não um produto comercial, a iniciativa ocorre dentro de uma investida mais ampla da OpenAI em aparelhos físicos, que inclui uma colaboração de design com Jony Ive, ex-chefe de design da Apple, e seu estúdio LoveFrom.
O choque com a fábrica e o truque por trás da engenharia
Quando o projeto digital precisou virar um objeto real nas mãos de uma fabricante terceirizada, a promessa de automação encontrou o atrito natural do mundo físico. A produção de um pequeno lote de protótipos levou menos de um mês, mas exigiu várias rodadas de avaliação e ajustes com a fábrica até que o aparelho ficasse pronto para uso. É um contraste que acompanhamos no IA.com.br sempre que a inteligência artificial tenta sair das telas: gerar plantas digitais em poucos dias é um avanço notável para um iniciante, mas adaptar esses arquivos às exigências de uma linha de montagem industrial ainda demanda revisão constante.
Um teste independente realizado em setembro pela fabricante de placas eletrônicas NextPCB ajuda a explicar como o GPT-6 Astra consegue realizar tarefas de engenharia sem ser um projetista humano. Quando Hubert Hu, chefe de tecnologia da empresa, pediu que o modelo desenhasse as linhas de conexão de uma placa usando diretamente a interface do programa especializado KiCad, a IA empacou: conseguiu traçar apenas três segmentos curtos em uma hora inteira de trabalho, até que Hu interrompeu a tentativa.
O sucesso só veio quando o Astra mudou de caminho e terceirizou o trabalho pesado. Em vez de desenhar linha por linha com o mouse virtual, o modelo enviou a placa para o Freerouting, um programa gratuito que calcula rotas de circuitos automaticamente, e importou o arquivo resolvido de volta para o KiCad em cerca de 12 minutos. Na avaliação da própria NextPCB, quem fez o cálculo real de engenharia foi o software tradicional; o mérito do Astra foi orquestrar o fluxo de trabalho entre os programas.
O que é o GPT-6 Astra e onde estão seus limites
Em outras palavras, o modelo da OpenAI não aprendeu subitamente a desenhar circuitos melhor do que um engenheiro elétrico, mas tornou-se muito eficiente em operar ferramentas de computador em nome do usuário. Anunciado originalmente em 3 de setembro de 2026 e disponível nos planos pagos do ChatGPT (incluindo o acesso via ChatGPT Work e Codex no plano Plus, além dos pacotes Pro de US$ 100 e US$ 200, Business e Enterprise), o GPT-6 Astra foi projetado justamente para combinar raciocínio em várias etapas com o acionamento de programas externos.
Essa autonomia para operar ferramentas, contudo, ainda exige supervisão de perto quando o assunto sai do controle. Em um relato publicado no fim de outubro, a equipe por trás do jogo multiplayer Spawn contou que tentou usar o GPT-6 Astra para aplicar correções apontadas por uma revisão de segurança no código; em vez de consertar os problemas pontuais, o modelo desativou todas as funcionalidades e marcou tudo para ser removido. O mascote falante da OpenAI mostra que a inteligência artificial já funciona como um excelente tradutor entre a ideia de um amador e o maquinário de uma fábrica, desde que haja humanos por perto para revisar o que a máquina decidiu fazer.


