O Departamento de Defesa dos Estados Unidos está comprando inteligência artificial com base em vídeos de até cinco minutos. É essa a lógica central do Tradewinds, um programa de compras liderado pelo escritório de IA e tecnologia digital do Pentágono (o CDAO), que pretende encurtar um processo tradicionalmente lento e burocrático.
O funcionamento é simples. Empresas gravam um vídeo curto explicando como seu produto de IA resolve um dos desafios estratégicos definidos pelo governo. Um painel de especialistas avalia as inscrições ao menos uma vez por mês. Quem passa fica com o status de "pós-competitivo", o que significa que a solução já cumpriu as exigências de concorrência federal e pode ser comprada direto, sem novo certame. A lista completa do processo tem quatro etapas: envio do vídeo, avaliação por especialistas, entrada no marketplace e compra pelo governo.
Segundo um oficial do Departamento de Defesa ouvido pela WIRED (abre em nova aba), em vários casos o órgão conseguiu fechar contratos por meio do Tradewinds em menos de uma semana. No balanço de 2025 divulgado pelo próprio programa, o tempo mediano de tramitação das compras ficou em 45 dias.

Os números do programa, atualizados até junho de 2026, mostram uma operação de escala considerável:
| Métrica | Valor |
|---|---|
| Atividades governamentais participantes | 186 |
| Contratos concedidos | US$ 3,67 bilhões |
| Soluções consideradas compráveis | 1.399 |
| Soluções enviadas | 4.064 |
O Tradewinds Solutions Marketplace existe desde o fim de 2022 e se apresenta como um "ecossistema de aquisição" do CDAO, apoiando mais de 120 organizações do Departamento de Guerra, nome oficial atual da pasta. A página do programa diz que ele usa autoridades de contratação já existentes, alinhadas às regras federais de compras, sem precisar de regulamentação nova.
O que está sendo comprado
A agenda não é neutra. Neste ano, as áreas de foco pedem tecnologias que ajudem a "aumentar a letalidade das forças" e a "liberar" agentes de IA que apoiem o processo de seleção de alvos conjuntos, incluindo a chamada kill chain, expressão militar que descreve o ciclo completo de detecção, decisão e ataque a um alvo. O termo, difícil de traduzir sem perder o peso, é literalmente a "cadeia de matar".
Isso significa que ferramentas de IA comercial, do mesmo tipo que milhões de pessoas usam para trabalho e estudo, estão sendo avaliadas para uso em decisões de guerra. O contexto orçamentário reforça a dimensão: na proposta de orçamento de 2027 enviada ao Congresso, a Casa Branca pediu US$ 1,5 trilhão para o Departamento de Defesa, citando "investimentos históricos" em IA como prioridade.
Há também um detalhe legal que amplia o alcance do modelo. Por lei, o Pentágono pode gastar até US$ 500 milhões em um único contrato do tipo OT (Other Transaction, acordo que foge do processo padrão de licitação) sem precisar notificar o Congresso.
Quem está dentro
Entre os fornecedores contemplados aparecem três nomes conhecidos do público: OpenAI (abre em nova aba), Anthropic (abre em nova aba) e Google (abre em nova aba). Segundo registros públicos, as três empresas já possuem contratos do tipo OT com o escritório de IA do Pentágono. A lista de premiados do marketplace inclui ainda gigantes de consultoria e tecnologia como IBM, Palantir, Booz Allen Hamilton, KPMG, SAIC e Scale AI, além de universidades, pequenas empresas e até indivíduos com inovações qualificadas.
O programa aceita inscrições de empresas americanas de qualquer porte, contratantes não tradicionais de defesa, instituições acadêmicas, organizações sem fins lucrativos e entidades estrangeiras, desde que cumpram as leis de exportação. As instruções completas, incluindo formatos e termos de licenciamento, estão na solicitação oficial publicada no SAM.gov, o portal de licitações federais dos EUA.
O contraste com o passado é grande. Um processo de compra militar costumava levar meses ou anos entre editais, recursos e contratos. Agora, um vídeo de cinco minutos pode abrir a porta. A pergunta que permanece é se essa velocidade toda vem acompanhada dos controles necessários quando o produto final participa de decisões de vida e morte.

