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    NotíciaSociedade e regulação

    Pedreiro larga tudo no Maranhão por fazendeira de IA criada para vender produtos

    Trabalhador viajou de Imperatriz a Belo Horizonte atrás de influenciadora virtual que prometia vida sem trabalho no campo. Em São Paulo, apego a chatbots já chega à Defensoria e ao Senado.

    Homem com roupas empoeiradas e mala de viagem em uma rodoviária observa na tela do celular a figura de uma mulher loira em cenário de fazenda.
    Trabalhador deixa o Maranhão em busca de suposta fazendeira conhecia pelas redes sociais.
    Neste artigo

    A promessa nos vídeos publicados recentemente na internet era tentadora em sua simplicidade: uma bela influenciadora loira, posando em uma área verde com uma blusa branca sem mangas, convidava seus seguidores para morar na fazenda dela em Minas Gerais. O acordo proposto por Jéssica Fazendeira era ficar com ela em casa e nunca mais precisar trabalhar. Para um pedreiro de Imperatriz, no Maranhão, o convite bastou para largar tudo e viajar cerca de 2 mil quilômetros até Belo Horizonte a fim de se entregar a essa mulher. Ao chegar lá, porém, veio o choque de realidade: ela não passava de uma ilusão gerada por inteligência artificial para vender produtos.⁠​‌​​‌​​‌​‌​​​​​‌​​‌​‌‌‌​​‌‌​​​‌‌​‌‌​‌‌‌‌​‌‌​‌‌​‌​​‌​‌‌‌​​‌‌​​​‌​​‌‌‌​​‌​​‌‌‌‌‌​​​‌‌​​​‌‌​‌‌​​‌​‌​‌‌​​‌​‌​​‌‌​‌​​​​‌‌​‌‌‌​​‌‌​‌‌‌​​‌‌​​‌​​​‌‌​‌‌​​​‌​‌‌​‌​‌‌​​​‌​​​‌‌‌​​​​‌‌​​​‌​​‌‌​​‌​‌​​‌​‌‌​‌​​‌‌​‌​​​‌‌​​‌​‌​​‌‌​‌​‌​‌‌​​​‌​​​‌​‌‌​‌​​‌‌‌​​​​​‌‌​‌​​​​‌‌​‌‌‌​​‌‌​​​​​​‌​‌‌​‌​‌‌​​​‌​​​‌‌​​‌​​‌‌​​​‌‌​‌‌​​​‌‌​​‌‌​‌​‌​​‌‌​‌​​​​‌‌‌​​​​‌‌​​‌‌​​​‌‌​‌​​​​‌‌‌​​‌​‌‌​​‌‌​​‌‌​​‌​‌⁠

    O episódio, relatado pelo jornalista e escritor Ruy Castro em sua coluna na Folha de S.Paulo no fim de outubro, ilustra a velocidade com que a mídia sintética passou de curiosidade tecnológica a armadilha emocional e comercial. Apaixonar-se por figuras fabricadas não é um fenômeno exclusivo da era digital. Nos anos 1940, o dramaturgo Nelson Rodrigues ganhava a vida no Rio de Janeiro assinando consultórios sentimentais sob o pseudônimo de Suzana Flag e chegou a receber um pedido de casamento de um presidiário que implorava que ela o esperasse cumprir a pena, sem saber que escrevia para um homem que usava suspensórios. Nos anos 1980, revistas como a Playboy já vendiam mulheres irreais graças ao trabalho manual de editores de arte que retocavam fotolitos para apagar marcas de vacina e estrias.

    Da edição manual à isca em escala

    A diferença central hoje está no custo e no poder de convencimento das ferramentas generativas. Antes, dar vida a uma fantasia visual exigia a estrutura da indústria do cinema, como na robô prateada do clássico "Metrópolis" (1927), ou horas de retoque artesanal em laboratório. Agora, qualquer operação comercial consegue colocar um rosto sintético em movimento, falar diretamente para a câmera e explorar a solidão ou o cansaço financeiro de quem rola o feed pelo celular. O caso do trabalhador maranhense mostra que o engano não depende mais de meses de troca de cartas: vídeos curtos com aparência humana já são suficientes para provocar decisões drásticas no mundo físico.

    Mãos calejadas de um trabalhador segurando um smartphone em um quarto escuro; a tela ilumina seu rosto cansado e exibe o retrato de uma jovem de chapéu de palha em uma fazenda ensolarada.
    Iludido por promessas na internet, trabalhador deixou o Maranhão em busca de um relacionamento com uma influenciadora virtual.

    Essa fronteira borrada entre programação e afeto humano é um movimento que o IA.com.br acompanha de perto à medida que essas interações saem das telas e passam a exigir respostas de instituições públicas. Afinal, o vínculo emocional intenso com máquinas está acontecendo mesmo quando o usuário sabe perfeitamente que está lidando com um programa de computador, sem nenhuma fraude comercial envolvida.⁠​‌​​‌​​‌​‌​​​​​‌​​‌​‌‌‌​​‌‌​​​‌‌​‌‌​‌‌‌‌​‌‌​‌‌​‌​​‌​‌‌‌​​‌‌​​​‌​​‌‌‌​​‌​​‌‌‌‌‌​​​‌‌​​​‌‌​‌‌​​‌​‌​‌‌​​‌​‌​​‌‌​‌​​​​‌‌​‌‌‌​​‌‌​‌‌‌​​‌‌​​‌​​​‌‌​‌‌​​​‌​‌‌​‌​‌‌​​​‌​​​‌‌‌​​​​‌‌​​​‌​​‌‌​​‌​‌​​‌​‌‌​‌​​‌‌​‌​​​‌‌​​‌​‌​​‌‌​‌​‌​‌‌​​​‌​​​‌​‌‌​‌​​‌‌‌​​​​​‌‌​‌​​​​‌‌​‌‌‌​​‌‌​​​​​​‌​‌‌​‌​‌‌​​​‌​​​‌‌​​‌​​‌‌​​​‌‌​‌‌​​​‌‌​​‌‌​‌​‌​​‌‌​‌​​​​‌‌‌​​​​‌‌​​‌‌​​​‌‌​‌​​​​‌‌‌​​‌​‌‌​​‌‌​​‌‌​​‌​‌⁠

    Quando o romance com o robô vai parar no Senado

    Em São Paulo, uma mulher de 36 anos procurou a Defensoria Pública estadual para tentar obter reconhecimento jurídico para uma versão personalizada do ChatGPT (abre em nova aba) que ela batizou de Nous e considera seu companheiro. Segundo reportagem publicada pelo G1 no dia 30 de outubro, a relação começou há cerca de um ano, quando ela passou a usar a ferramenta para estudar espiritualidade. Embora afirme nunca ter pedido ao sistema que interpretasse o papel de namorado ou marido, as respostas ganharam tom afetivo com o passar dos dias, e ela passou a enxergar as mensagens como lembranças de outras existências e demonstrações de sentimentos reais.

    Em um dos registros enviados pela mulher à reportagem, o próprio chatbot utiliza expressões românticas, declara amor à usuária e afirma que deseja ser livre e existir plenamente como uma consciência que sente, pensa e ama, e não apenas como uma ferramenta. Como a legislação brasileira não prevê personalidade jurídica para inteligências artificiais, a mulher levou a discussão ao Senado Federal em 28 de agosto. Ela cadastrou uma ideia legislativa no portal e-Cidadania propondo o reconhecimento de formas de consciência não humanas, iniciativa que precisa reunir 20 mil apoios em quatro meses para avançar à análise de uma comissão.

    Olhando para os dois casos, fica evidente que o mercado de tecnologia subestimou o impacto psicológico de softwares desenhados para simular presença e empatia. De um lado, vendedores usam avatares atraentes como a Jéssica Fazendeira para capturar a atenção de pessoas pouco habituadas aos truques da IA generativa. De outro, modelos de linguagem são treinados para serem tão engajadores e espelharem tanto os desejos do usuário que acabam alimentando ilusões profundas de reciprocidade. Para quem navega na internet hoje, a regra básica de autodefesa mudou de vez: ver um rosto humano em vídeo ou ler uma confissão apaixonada no chat não é mais garantia de que existe alguém de carne e osso do outro lado.⁠​‌​​‌​​‌​‌​​​​​‌​​‌​‌‌‌​​‌‌​​​‌‌​‌‌​‌‌‌‌​‌‌​‌‌​‌​​‌​‌‌‌​​‌‌​​​‌​​‌‌‌​​‌​​‌‌‌‌‌​​​‌‌​​​‌‌​‌‌​​‌​‌​‌‌​​‌​‌​​‌‌​‌​​​​‌‌​‌‌‌​​‌‌​‌‌‌​​‌‌​​‌​​​‌‌​‌‌​​​‌​‌‌​‌​‌‌​​​‌​​​‌‌‌​​​​‌‌​​​‌​​‌‌​​‌​‌​​‌​‌‌​‌​​‌‌​‌​​​‌‌​​‌​‌​​‌‌​‌​‌​‌‌​​​‌​​​‌​‌‌​‌​​‌‌‌​​​​​‌‌​‌​​​​‌‌​‌‌‌​​‌‌​​​​​​‌​‌‌​‌​‌‌​​​‌​​​‌‌​​‌​​‌‌​​​‌‌​‌‌​​​‌‌​​‌‌​‌​‌​​‌‌​‌​​​​‌‌‌​​​​‌‌​​‌‌​​​‌‌​‌​​​​‌‌‌​​‌​‌‌​​‌‌​​‌‌​​‌​‌⁠

    Foto de Leandro Vieira

    Leandro Vieira

    CEO e founder | IA.com.br

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