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    Oracle envia aviso de força maior e coloca data center de US$ 18 bilhões em risco nos EUA

    Em 24 de setembro de 2026, a Oracle enviou um aviso de força maior ao desenvolvedor do Project Jupiter, no Novo México, parte do Stargate de US$ 500 bilhões. A medida pode adiar pagamentos se o data center de 2,45 gigawatts não entrar em operação em 2028.

    Leandro Vieira

    CEO e founder | IA.com.br

    Data center Project Jupiter em construção no Novo México com estruturas metálicas e torres de refrigeração
    O Project Jupiter, no Novo México, é a primeira peça do campus de IA que integra o Stargate.

    Em 24 de setembro de 2026, a Oracle enviou um aviso de força maior ao desenvolvedor do data center Project Jupiter, no Novo México, um empreendimento de US$ 18 bilhões que faz parte do projeto Stargate, a iniciativa de infraestrutura de inteligência artificial anunciada pelo presidente Donald Trump. A informação foi divulgada por veículos financeiros e confirmada por declarações das empresas envolvidas. O aviso permite que a Oracle se proteja de custos adicionais caso o data center não entre em operação em 2028, conforme o cronograma original.

    Força maior é um termo jurídico usado quando uma empresa alega que eventos fora do seu controle, como guerras, desastres naturais ou convulsões sociais, a impedem de cumprir um contrato. No caso, a Oracle usou o mecanismo para se resguardar depois que o projeto não conseguiu obter certas licenças de desenvolvimento. A medida foi interpretada por analistas financeiros como uma tentativa de adiar pagamentos caso o data center não fique pronto até 2028.

    O Project Jupiter é a primeira peça de um campus de IA de US$ 165 bilhões, que por sua vez integra o Stargate, orçado em US$ 500 bilhões. O Stargate reúne a Oracle na infraestrutura, a OpenAI no software e a SoftBank na gestão financeira. Quando estiver online, o data center deverá usar 2,45 gigawatts de potência de computação, energia suficiente para abastecer cerca de 1,8 milhão de residências a qualquer momento.

    A Oracle declarou que "o Project Jupiter permanece no cronograma planejado" e que está "totalmente comprometida com o Novo México e confiante no caminho a seguir". A Blue Owl Capital, desenvolvedora do projeto, contestou a ideia de que o aviso alteraria as finanças do empreendimento. "Este aviso não muda os compromissos financeiros deste projeto de vários anos", afirmou a empresa, segundo declarações reproduzidas pela imprensa.

    A reação do mercado foi imediata. As ações da Oracle caíram 4% na quinta-feira, segundo uma das apurações. Outra fonte relata queda de 6,4% às 10h17 em Nova York, o pior desempenho entre as empresas de tecnologia do índice S&P 500, acumulando queda de 31% no ano. As ações da Blue Owl recuaram 3,6%. Um indicador de risco de crédito da Oracle atingiu o maior nível já registrado.

    A dívida atrelada ao data center já estava sendo negociada em níveis estressados, abaixo de 90 centavos por dólar. Cerca de 20 bancos concederam um empréstimo de US$ 18 bilhões para financiar a construção. O temor é que o aviso de força maior assuste os credores e piore as condições de financiamento.

    O projeto enfrenta obstáculos desde o ano anterior. Em maio, a Oracle cancelou os planos de construir uma grande usina de gás natural para alimentar o data center, depois que os desenvolvedores não obtiveram licenças de uso do solo das autoridades estaduais e federais. Como alternativa, a empresa disse que usaria células de combustível de óxido sólido, uma tecnologia experimental que nunca foi testada nessa escala. A maior instalação desse tipo até hoje tem 80 megawatts de capacidade, na Coreia do Sul, uma gota d'água comparada aos 2,45 gigawatts necessários.

    Células de combustível de óxido sólido em instalação industrial como alternativa de energia para data center
    A Oracle trocou a usina a gás por células de combustível de óxido sólido, tecnologia nunca testada em escala de 2,45 gigawatts.

    Além dos problemas de licenciamento, o projeto enfrenta oposição local e de grupos ambientalistas. A resistência a data centers cresceu antes das eleições de meio de mandato nos Estados Unidos, transformando o assunto em ponto de disputa política. Trump classificou a oposição a data centers e a preocupação com os avanços da IA como uma "conspiração doentia".

    A situação financeira da Oracle também pesa. No trimestre encerrado em 31 de agosto, a empresa usou US$ 28,5 bilhões em capital, contra US$ 8,5 bilhões no mesmo período do ano anterior. O fluxo de caixa livre foi negativo em US$ 5,4 bilhões. A companhia planeja levantar cerca de US$ 40 bilhões por meio de dívida e ações no ano fiscal corrente. Ainda assim, teve receita total de US$ 19,3 bilhões no trimestre, acima dos US$ 14,9 bilhões de um ano antes.

    Os custos de reestruturação subiram. A Oracle ampliou em aproximadamente US$ 700 milhões a estimativa de gastos com cortes de empregos, elevando o custo total do plano de reestruturação de 2026 para cerca de US$ 2,8 bilhões. Até 31 de agosto, a empresa havia registrado cerca de US$ 2,1 bilhões em encargos. No início do ano, já havia demitido milhares de trabalhadores em uma tentativa emergencial de corte de custos.

    O aviso de força maior é visto como um possível primeiro dominó a cair. Se a primeira grande peça do Stargate já enfrenta dificuldades, o restante do megaprojeto de Trump e a expansão da infraestrutura de IA nos Estados Unidos podem sentir o impacto. A divergência entre as fontes sobre a queda das ações, de 4% a 6,4%, e sobre a data exata da divulgação, entre 24 e 25 de setembro, não altera o quadro geral: o projeto está longe de ser um consenso tranquilo.

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