A OpenAI anunciou, em 6 de outubro de 2026, a publicação de 722 manuscritos matemáticos criados por um modelo interno de inteligência artificial que ainda não foi lançado. O material está disponível em um repositório público no GitHub (abre em nova aba), organizado em 372 "famílias" de resultados, espalhadas por 16 áreas da matemática. Uma família reúne trabalhos ligados entre si: um resultado principal, argumentos complementares, consequências ou provas alternativas. Por isso, 722 é o número de textos, e não de problemas resolvidos.
O detalhe que mais chama atenção está no método. Um porta-voz da OpenAI afirmou que quase tudo saiu de um único prompt, ou seja, um único comando de texto, entregue a um único agente de IA. Há uma ressalva: alguns resultados podem ter exigido várias tentativas. A conta que a empresa apresenta é outra e ajuda a dimensionar o esforço. Ao longo da avaliação, o modelo recebeu cerca de 4 mil problemas, e a OpenAI manteve no catálogo apenas o que considerou significativo. Em média, cada resultado consumiu o equivalente a três horas de raciocínio do ChatGPT Pro, o plano pago do assistente da empresa. Os prompts usados e os tempos por problema não foram divulgados.
Os temas são pesados. Entre os resultados listados estão uma solução para a conjectura de Kakeya em quatro dimensões, um problema sobre conjuntos de pontos que contêm um segmento reto em todas as direções possíveis, e avanços ligados à hipótese de Riemann, uma das questões mais famosas da matemática, ligada à distribuição dos números primos. Nesse ponto, as informações divulgadas divergem: um dos documentos descreve uma região sem zeros para a função zeta de Riemann em que a parte real da variável é maior que 11/12, enquanto o catálogo menciona uma região com limite em 7/8. Nenhum dos dois casos equivale a provar a hipótese de Riemann, apenas a avançar na mesma fronteira. Também constam da lista a conjectura de Hodge para variedades abelianas de tipo CM e, em ciência da computação teórica, trabalhos sobre a Conjectura dos Jogos Únicos e sobre a igualdade L = RL = BPL, que investiga quanto de memória é preciso para resolver certos problemas computacionais.

Dois desses trabalhos fogem da receita do prompt único: a região sem zeros da função zeta e a prova da conjectura de Hodge para variedades de tipo CM seguiram procedimentos diferentes, segundo o próprio repositório. O texto sobre a região com limite em 11/12 ainda foi editado por humanos para facilitar a leitura.
E aqui entra a parte delicada. Para conferir provas, existe o Lean, uma linguagem de programação em que o computador verifica cada passo de uma demonstração e confirma se ela vale. Apenas 162 dos 722 manuscritos, cerca de 22%, têm o resultado principal formalizado nessa linguagem. A OpenAI reconhece a limitação em seu repositório: "alguns dos resultados não formalizados podem ter problemas". Nada passou por revisão por pares, o processo tradicional em que outros matemáticos avaliam um trabalho antes da publicação. O matemático do MIT Andrew Sutherland disse à Scientific American que a alegação do prompt único deve ser tratada como não verificada até que o modelo seja liberado e os resultados possam ser replicados por outros grupos.
A divulgação seguiu recomendações do Grupo Consultivo Independente sobre Matemática e Inteligência Artificial, ligado ao Institute for Advanced Study, com quem a OpenAI diz ter consultado para definir boas práticas. O repositório traz protocolos para revisões e citações, dez resumos do raciocínio do modelo e estatísticas sobre os problemas tentados. O anúncio oficial foi feito pela empresa em suas redes:
Estamos liberando uma ampla gama de novos resultados matemáticos produzidos por um modelo de fronteira interno. Consultamos o Grupo Consultivo Independente sobre Matemática e Inteligência Artificial do Institute for Advanced Study e nos baseamos em seus conselhos e recomendações públicas para informar como divulgamos esses resultados.
O anúncio não veio do nada. Em setembro, a empresa já havia dito que seus modelos haviam resolvido mais de 100 problemas abertos de longa data na matemática, e afirmava que está trabalhando para liberar, de forma responsável, o modelo que produziu os resultados agora publicados.
Para quem pesquisa matemática, o efeito prático já existe: os manuscritos podem ser lidos, revisados, contestados e citados, com regras claras para isso. Até o modelo ser liberado e as provas serem replicadas, porém, o catálogo depende em boa medida da palavra da OpenAI. Quem quiser usar um resultado terá de fazer o que a matemática sempre exigiu, máquina ou não: verificar.

