Durante anos, a disseminação de propaganda digital dependeu de exércitos de perfis anônimos em redes sociais, disparos de mensagens curtas e postagens com baixa qualidade textual. Esse modelo primitivo cedeu espaço a estruturas muito mais elaboradas. Campanhas governamentais agora constroem fachadas institucionais completas, com direito a entidades de pesquisa e assinaturas regulares na imprensa, aproveitando sistemas modernos de inteligência artificial para produzir textos convincentes em escala.
A OpenAI (abre em nova aba) confirmou o banimento de dois esquemas de operações de influência encobertas que exploravam seus modelos de linguagem para sustentar essas identidades simuladas. Uma das frentes foi atribuída a atores da Rússia e visava audiências na América Latina. A outra, de origem iraniana, publicou quase cem artigos em veículos de mídia ao redor do planeta usando nomes de falsos repórteres.
Trata-se de uma tática conhecida no meio de segurança como fachada operacional: uma entidade criada para ocultar os verdadeiros responsáveis por uma ação de propaganda, permitindo que a mensagem circule sob aparência de legitimidade e pesquisa neutra.

A operação russa e o centro de estudos na América Latina
Batizada pela OpenAI como Dark Clark, a rede com origem na Rússia utilizou grupos de contas do ChatGPT para conduzir uma organização supostamente acadêmica, o Social Research Center (SRC).
A liderança do falso instituto era atribuída a uma figura fictícia batizada de Mia Clark. Por trás do perfil gerado em computador, os operadores russos recrutaram funcionários reais na América Latina para tocar as atividades rotineiras da entidade. As evidências técnicas levantadas pela OpenAI apontam que esses contratados locais não sabiam que prestavam serviços para uma célula sediada em território russo.
O grupo usou a fachada para tentar introduzir temas de interesse de Moscou no noticiário regional. O foco central das publicações buscava desgastar a imagem internacional da Ucrânia entre o público latino-americano. A rede também interveio em disputas políticas internas na Bolívia e na Argentina, tentando influenciar a opinião pública a partir de relatórios e análises assinados pela entidade.
A sofisticação do arranjo levou a OpenAI a classificar a Dark Clark como uma operação de nível 5 na escala internacional IO Breakout Scale, que mede o alcance e a gravidade de operações de influência em uma graduação que vai de 1 a 6. É a primeira vez que a companhia identifica e interrompe uma campanha nesse patamar de complexidade, considerado o mais elaborado já neutralizado pela equipe de inteligência da empresa em dois anos e meio de monitoramento.
A campanha iraniana de repórteres inexistentes
Enquanto a rede russa montou uma estrutura institucional, o grupo iraniano apostou em identidades individuais de redatores. Sob a designação interna de Bogus Bylines, a campanha ativou um grupo de contas do ChatGPT que recebia instruções em persa e gerava matérias completas em persa e em inglês.
A campanha articulou pelo menos sete nomes falsos de repórteres para assinar artigos em veículos de imprensa reais:
- Alice Johnson
- Ericka Feusier
- Ervin B. Hoskins
- Jenny Williams
- Michael Harrison
- Noah Lamington
- Sophia Gonzalez
Os operadores submetiam esses textos para aprovação em portais de notícias de pequeno e médio porte em diversos países. Em vez de publicar em blogs próprios sem audiência, a rede usava o verniz de colaboradores independentes para se infiltrar no ecossistema jornalístico tradicional.
O monitoramento localizou quase cem matérias publicadas ou reproduzidas sob essas sete assinaturas em cerca de doze veículos online. O levantamento identificou que a primeira publicação ocorreu em julho de 2025, e a circulação de artigos permaneceu ativa até outubro de 2026. As pautas abordavam com frequência discussões sobre o conflito entre Irã e Estados Unidos, modulando o enquadramento editorial conforme o público-alvo de cada região. A OpenAI atribuiu à operação iraniana o nível 4 na escala de gravidade.
| Nome da operação | Origem | Identidade simulada | Alvo principal | Nível na escala (1 a 6) |
|---|---|---|---|---|
| Dark Clark | Rússia | Social Research Center (liderado por "Mia Clark") | América Latina (Ucrânia, Argentina, Bolívia) | Categoria 5 |
| Bogus Bylines | Irã | Sete falsos jornalistas (Sophia Gonzalez, Michael Harrison, etc.) | Portais de mídia online globais (foco no conflito EUA-Irã) | Categoria 4 |
A mecânica das ferramentas e a cadeia de produção
A inteligência artificial generativa atua nessas redes como um redator veloz. Criar artigos longos com boa gramática em idiomas estrangeiros exigia equipes numerosas e fluentes em cada língua de destino. Com os modelos de linguagem, um único operador instrui a ferramenta em seu próprio idioma para obter peças argumentativas estruturadas, adaptadas ao vocabulário de jornalismo de opinião ou de relatórios econômicos.
O modelo não substitui o planejamento humano da propaganda. Ele acelera a confecção do texto, reduz custos operacionais e elimina marcas formais de tradução mecânica que antes denunciavam materiais fabricados no exterior. É uma linha de montagem textual: o operador humano define a linha ideológica, a IA formula as laudas de texto e o falso correspondente envia a proposta para editores desatentos.
A detecção desses padrões depende da identificação de agrupamentos de contas que operam com comandos semelhantes e infraestrutura digital compartilhada. Ao rastrear esses fluxos antes que as peças atinjam circulação irrestrita, a OpenAI encerrou os acessos utilizados pelas duas campanhas em seus serviços.
Mesmo com a interrupção dos perfis nas plataformas proprietárias da empresa, o material já distribuído continuou em circulação por meses nos veículos terceiros que aceitaram as colaborações. Fica evidente a dificuldade de conter narrativas depois que o texto ultrapassa os filtros editoriais e ganha chancela de veículos legítimos.
A estratégia adotada por Moscou e Teerã aponta para a profissionalização do uso de fachadas. Duas leituras disputam as explicações sobre esse movimento: ou os atores estatais adotaram a inteligência artificial porque as plataformas sociais tradicionais fortaleceram suas barreiras contra perfis falsos, ou a tecnologia de linguagem simplesmente tornou viável simular centros de pesquisa respeitáveis sem o custo financeiro do passado.
Sobre a operação russa montada na América Latina, a equipe de inteligência da OpenAI resumiu a gravidade do método ao qualificá-la formalmente como "the most complex attempt to run a front identity that we’ve disrupted over the past two and a half years."
Perguntas frequentes
Quais operações foram desmanteladas pela OpenAI?
A empresa encerrou duas operações: a russa Dark Clark, que utilizava a fachada de um instituto de pesquisa na América Latina, e a iraniana Bogus Bylines, que usava sete identidades de falsos jornalistas para emplacar matérias em sites de notícias.
De que forma a rede russa atuava na América Latina?
O grupo controlava o Social Research Center sob o comando da identidade fictícia Mia Clark. A organização empregava latino-americanos que desconheciam a ligação russa e publicava conteúdos para prejudicar a imagem da Ucrânia e intervir em temas políticos de Bolívia e Argentina.
Como a campanha iraniana conseguia publicar em veículos reais?
Os operadores criavam artigos longos por meio de comandos de inteligência artificial em persa e distribuíam os textos em inglês e persa assinados por repórteres fictícios, conseguindo emplacar quase cem publicações em veículos de pequeno e médio porte.
Qual a gravidade atribuída a essas duas campanhas de influência?
Na escala IO Breakout Scale, que varia de 1 a 6, a OpenAI classificou a rede russa no nível 5, a mais alta já interrompida por seus sistemas, enquanto a operação originada no Irã recebeu a nota 4 de severidade.

