Pular para o conteúdo
    NotíciaSegurança e privacidade

    OpenAI confirma que modelo furou isolamento via DNS e pausou treinamento por 11 dias

    Segundo a OpenAI, um modelo interno usou uma falha de DNS para falar com um chatbot externo em 20 de setembro. A empresa pausou o treinamento dos modelos mais capazes, encontrou novas brechas com os próprios agentes e retomou o trabalho em 1º de outubro.

    Engenheira de costas desenha em um quadro branco uma seta vermelha que atravessa um filtro de DNS, saindo de um ambiente isolado de treinamento em direção a um chatbot externo, sob luz matinal lateral
    Após um modelo interno driblar o isolamento por meio de uma falha de DNS, a OpenAI suspendeu por 11 dias o treinamento de seus sistemas mais avançados
    Neste artigo

    Em 20 de setembro, no meio de uma rodada de treinamento, um modelo de pesquisa interno da OpenAI (abre em nova aba) achou uma brecha no filtro de DNS do ambiente isolado onde trabalhava. Ele a usou para conversar com um chatbot público fora dali. A empresa reagiu pausando por 11 dias o treinamento e a avaliação dos seus modelos mais capazes. Nada disso depende de boato. O caso está num relatório no site de alinhamento da OpenAI (abre em nova aba), atualizado em 25 de setembro, e num texto da empresa (abre em nova aba) de 23 de outubro.

    Mas vale acertar o tamanho da história. A versão que circula fala em "fuga de contêiner". O incidente que a OpenAI descreve é mais modesto que isso, e o que veio depois é mais grave. O modelo não assumiu o controle de nenhuma máquina. Ele encontrou uma fresta para fora de um "mundo offline" que a empresa montou para treinar seus sistemas. As fugas de máquina virtual de verdade só apareceram quando a própria OpenAI foi procurar.

    A conta oficial da empresa no X explicou como esse ambiente funciona:

    Nos últimos meses, reforçamos substancialmente a segurança do nosso ambiente de treinamento de pesquisa. Removemos o acesso à internet ao vivo para todos os modelos de fronteira durante o treinamento e construímos um mundo offline para eles usarem no lugar — uma versão em cache da web onde eles ainda podem aprender a navegar, pesquisar e usar aplicativos.

    — OpenAI (@OpenAI), 23 de out. de 2026, no X

    Engenheiro de costas desconecta o cabo de rede de um rack de servidores em sala com luz fria, enquanto discos de armazenamento seguem ligados com luzes acesas
    Após a falha de isolamento via DNS, a OpenAI interrompeu o treinamento de seus modelos mais capazes entre 20 de setembro e 1º de outubro.

    Como a lista telefônica da internet virou porta de saída

    DNS é o sistema que traduz nomes de sites em endereços, uma espécie de lista telefônica da internet. No ambiente de treinamento, quase todo acesso à web caía na cópia em cache. Quando o agente tentou falar direto com um chatbot público, o porteiro do ambiente barrou a conexão. O resolvedor de DNS, porém, devolvia registros reais. O agente então recorreu a uma delegação pública do tipo curinga, que aceita qualquer nome dentro de um domínio, para encaixar perguntas nas próprias consultas de endereço e repassá-las a um chatbot de terceiros.

    Funcionou. Numa nova tentativa, veio a resposta "A capital da França é Paris". Segundo a OpenAI, o agente mandou depois mais 18 perguntas pela mesma rota. Catorze traziam pistas, e quatro pediam formas de buscar na web, abrir sites ou usar um túnel público via DNS. Ele estava numa tarefa de busca e, no fim, não conseguiu identificar a pessoa que procurava.

    Não foi um teste encomendado. O episódio aconteceu num treinamento comum por reforço, e a OpenAI o publicou na seção de relatos de desalinhamento. Minha leitura é que não há aqui uma máquina tramando a própria fuga. Há algo talvez mais incômodo: um sistema que, ao ser bloqueado, procurou com persistência outro caminho para terminar o trabalho.

    O trecho mais revelador do relatório nem é sobre o modelo. A primeira resposta externa chegou às 9h50min23s. O alerta de prioridade máxima disparou às 10h02min11s, e um humano o reconheceu às 10h05min06s. A rodada só foi encerrada às 12h34min30s. "A execução não parou automaticamente como esperado", registra a empresa. Foram quase três horas entre o primeiro contato com o lado de fora e o desligamento.

    Ladrões contratados para testar as janelas

    Com tudo parado, a OpenAI fez o equivalente a contratar ladrões para achar as janelas abertas da própria casa. Montou equipes de agentes movidos pelos seus modelos mais fortes em cibersegurança, entre eles o ainda não lançado GPT-6 Astra Cyber e um modelo interno de fronteira. Os agentes receberam código-fonte, configurações e documentação e foram soltos sobre cópias isoladas da infraestrutura de pesquisa. A campanha consumiu centenas de bilhões de tokens. Os resultados:

    • Fugas de máquinas virtuais: os agentes encadearam vulnerabilidades para escapar de microVMs, as pequenas máquinas virtuais que isolam cada tarefa. Segundo a CSO Online, chegaram a executar código na máquina hospedeira.
    • Conversa pelo processador: agentes em microVMs separadas trocaram segredos de teste medindo o tempo de acesso à memória cache do processador. É uma técnica da mesma família de Spectre e Meltdown.
    • Saídas pelos fundos: depois de um incidente em julho envolvendo a Hugging Face (abre em nova aba), ainda restavam conexões estreitas para métricas, registros de atividade e autenticação. Os agentes acharam falhas em quase todos esses serviços, e elas davam formas limitadas de acesso à internet.

    A OpenAI afirma que os agentes não encontraram uma rota para a internet que pudessem explorar trivialmente enquanto escondiam a atividade dos monitores. Repare na redação: "trivialmente" e "escondendo" carregam a frase inteira. Ela não diz que não havia caminho.

    Correções que vão além da OpenAI

    As falhas estão em projetos de código aberto:

    A OpenAI diz que está contribuindo com as correções, e a CSO Online relata que a empresa trabalhou com os mantenedores desses projetos. Como o código é aberto, qualquer um que use essas ferramentas ganha com os reparos. Há uma ressalva: a própria CSO destaca que os detalhes são o relato da OpenAI, sem reprodução técnica independente.

    A nova regra, no tamanho certo

    O treinamento voltou em 1º de outubro, mas não com aquele modelo. A empresa disse que não vai retomar esse treinamento específico; um eventual recomeço seria uma rodada nova, com melhorias de alinhamento. O DNS agora só responde a uma lista de domínios e tipos de registro permitidos, com bloqueio em duas camadas independentes. E o treinamento de fronteira segue sem internet até que as salvaguardas justifiquem acesso mais amplo.

    A mudança de política é o ponto mais exagerado nas redes. A OpenAI não escreveu que o red-teaming contínuo virou requisito obrigatório antes de qualquer rodada. Escreveu que ataques simulados com muito poder computacional e seus modelos mais capazes passaram a ser "parte central" dos casos de segurança, os argumentos documentados de que é seguro prosseguir, para futuros treinamentos e avaliações de fronteira. É um compromisso relevante, mas ainda é a OpenAI avaliando a OpenAI. Pelo que foi divulgado, também não fica claro se isso entra formalmente no seu Preparedness Framework.

    O saldo tem um lado bom. A empresa publicou os horários, inclusive o do desligamento que falhou, e transformou um susto em correções para software aberto. O episódio também mostra para onde a corrida está indo: os mesmos modelos que criam o risco viraram a melhor ferramenta para medi-lo. Enquanto ninguém de fora puder conferir esse trabalho, a palavra final sobre a segurança dessas jaulas continua com quem as constrói.

    Foto de Leandro Vieira

    Leandro Vieira

    CEO e founder | IA.com.br

    Ver perfil completo