Conhecida por suas plataformas de compras, a gigante chinesa construiu uma operação de computação em nuvem e desenvolveu a família Qwen, que inclui modelos capazes de escrever, programar e executar tarefas com ferramentas digitais.
A Alibaba ajudou a transformar a maneira como empresas e consumidores compram pela internet. Agora, quer ampliar sua participação em outra mudança: a forma como as pessoas trabalham com inteligência artificial. Um dos principais instrumentos dessa estratégia é o Qwen, família de modelos de IA desenvolvida pelo grupo chinês.
Entre suas versões está o Qwen3.8-Max, voltado a atividades como programação, produção intelectual e tarefas que exigem várias etapas. Segundo a equipe responsável, a evolução busca melhorar tanto a qualidade das respostas quanto a capacidade de planejar ações e concluir trabalhos com o auxílio de ferramentas.
A trajetória até esse ponto, porém, começou muito antes da popularização dos chatbots. Para entender a aposta da Alibaba em IA, é preciso voltar ao comércio eletrônico — e à infraestrutura que a empresa precisou construir para sustentá-lo.
O que é o Qwen e para que serve?
Qwen é uma família de modelos de inteligência artificial que pode ser utilizada em assistentes de conversa, aplicativos e sistemas empresariais. Entre suas aplicações estão escrever e revisar textos, traduzir, resumir informações, responder a perguntas e gerar código de programação.
Esses modelos também podem ser integrados a produtos por meio de APIs, interfaces que permitem a um software utilizar os recursos de outro sistema. Assim, uma empresa pode incorporar capacidades do Qwen a um atendimento digital, a uma ferramenta de criação de conteúdo ou a um aplicativo próprio.
É importante distinguir a família de modelos dos aplicativos que dão acesso a ela. O modelo fornece a capacidade de processar informações e gerar respostas; o aplicativo acrescenta a interface, os recursos disponíveis e as conexões com outras ferramentas.
No caso do Qwen3.8-Max, a Alibaba destaca avanços em programação, desenvolvimento de interfaces e execução de tarefas por agentes de IA. São sistemas que, quando conectados às ferramentas necessárias, podem realizar uma sequência de ações para cumprir um objetivo.
Como a Alibaba começou no comércio eletrônico
A Alibaba foi fundada em 1999, em Hangzhou, na China, por 18 pessoas lideradas por Jack Ma, um ex-professor de inglês. A proposta inicial era usar a internet para ampliar as oportunidades de pequenos negócios, aproximando empresas de compradores e mercados.
Em 2003, o grupo avançou no comércio entre consumidores com o Taobao. A expansão das plataformas trouxe um desafio que se tornaria decisivo para o futuro da companhia: lidar com volumes crescentes de dados e operações.
Em seu prospecto apresentado ao mercado americano, a própria Alibaba registra que criou a Alibaba Cloud, em 2009, para atender às necessidades cada vez maiores de gerenciamento de dados de suas plataformas.
Essa é a conexão central entre o comércio eletrônico e a inteligência artificial na história do grupo. Antes de oferecer modelos de IA, a Alibaba já precisava desenvolver capacidade computacional para operar negócios digitais em grande escala.
A nuvem preparou o terreno para a inteligência artificial
A computação em nuvem permite que empresas utilizem processamento, armazenamento e outros recursos tecnológicos pela internet, sem manter toda essa estrutura em instalações próprias.
Para a Alibaba, essa atividade passou a representar também um negócio oferecido a outras organizações. Em 2015, o grupo já apresentava a AliCloud entre suas operações de infraestrutura tecnológica para empresas e empreendedores.
A conexão estratégica é direta: desenvolver e disponibilizar inteligência artificial exige infraestrutura computacional. A experiência acumulada na nuvem ajudou a preparar a companhia para atuar nesse mercado.
Por isso, a chamada “virada do varejo para a IA” é melhor compreendida como uma expansão construída ao longo dos anos. A própria Alibaba hoje se define como uma empresa de tecnologia concentrada em IA, nuvem e comércio. O comércio eletrônico continua fazendo parte do negócio.
Como o Qwen foi criado e evoluiu
Um marco público dessa trajetória ocorreu em 11 de abril de 2023, quando a Alibaba Cloud apresentou o Tongyi Qianwen, seu grande modelo de linguagem. Na ocasião, anunciou planos de disponibilizá-lo a clientes corporativos e apoiar a construção de modelos personalizados.
A evolução envolveu sucessivas gerações e aperfeiçoamentos no treinamento. O relatório técnico do Qwen2.5, publicado em 2024, oferece um retrato desse processo: a equipe ampliou o conjunto de pré-treinamento de 7 trilhões para 18 trilhões de tokens, unidades usadas pelos modelos para processar informações.
Depois dessa etapa, empregou ajustes supervisionados com mais de um milhão de exemplos e técnicas de aprendizagem por reforço. O objetivo era melhorar capacidades como seguir instruções, produzir textos longos e analisar dados estruturados. Esses números descrevem o Qwen2.5, e não devem ser tratados como especificações do Qwen3.8-Max.
Na geração Qwen3.8, a equipe passou a destacar melhorias em programação, pesquisa, trabalho profissional e execução de tarefas prolongadas. O repositório oficial informa que a série foi construída sobre a base arquitetural do Qwen3.5 e marcou a disponibilização aberta de um modelo da categoria Max. As condições de utilização dependem da licença de cada versão.
A aposta de US$ 53 bilhões
A mudança de prioridade ganhou uma dimensão financeira explícita em fevereiro de 2025. A Alibaba anunciou um plano de investir pelo menos 380 bilhões de yuans, aproximadamente US$ 53 bilhões à época, em infraestrutura de nuvem e inteligência artificial ao longo de três anos.
Segundo a companhia, o valor superava todo o investimento realizado nessas duas áreas na década anterior. Trata-se de um compromisso anunciado para um período, e não de um montante desembolsado integralmente naquele momento.
A ambição envolve diferentes partes do mercado. Na conferência Apsara de setembro de 2026, o grupo apresentou uma estratégia que abrange chips, infraestrutura de nuvem, modelos e agentes de inteligência artificial.
A leitura estratégica desse movimento é que a Alibaba pretende participar tanto da criação da inteligência quanto da infraestrutura necessária para utilizá-la. Uma empresa pode consumir seus modelos, contratar processamento ou combinar esses serviços em aplicações próprias.
O que essa transformação revela
A trajetória da Alibaba mostra como competências desenvolvidas para resolver um problema podem abrir caminho para outro negócio. A necessidade de sustentar plataformas de comércio ajudou a impulsionar a operação de nuvem. Essa infraestrutura, por sua vez, criou condições para a expansão em inteligência artificial.
O Qwen é a expressão mais visível dessa mudança para quem utiliza assistentes digitais. Por trás dele, porém, existe uma disputa mais ampla: fornecer os modelos, o processamento e as ferramentas que empresas usarão para incorporar IA ao trabalho.
A companhia que nasceu para conectar negócios pela internet agora busca ampliar seu papel na tecnologia que esses negócios utilizam para operar.


