Os notebooks RTX Spark chegaram às prateleiras há duas semanas. Agora a NVIDIA (abre em nova aba) faz o que toda fabricante de máquina cara precisa fazer logo cedo: dar motivos para alguém pagar por ela. Em 28 de outubro, a empresa anunciou um modelo de IA que transcreve áudio e suporte a modelos compactos da Liquid AI (abre em nova aba). Também vieram ferramentas extras para o agente de IA Hermes e o lançamento de um jogo de ação com seus truques gráficos. É um pacote de software para justificar um hardware que custa a partir de US$ 2.599.
Um chip só, e da NVIDIA
Os RTX Spark foram lançados em 16 de outubro por ASUS, Dell, HP, Lenovo, Microsoft e MSI. A lista inclui:
- Dell XPS 16;
- Microsoft Surface Laptop Ultra;
- Lenovo Yoga Pro 9n;
- ASUS ProArt P14 e P16;
- HP OmniBook Ultra e OmniBook X 14;
- MSI Prestige N16 e N16 Flip AI+.
A mudança de verdade está dentro deles. A NVIDIA, conhecida pelas placas de vídeo, agora fornece também o processador principal. O chamado superchip junta uma GPU Blackwell RTX e uma CPU Grace, desenhada em parceria com a MediaTek. A empresa chama isso de "um novo começo" para os PCs com Windows.

Para quem não acompanha o assunto, a palavra importante é memória. As duas partes do chip dividem até 128 GB, como se usassem o mesmo estoque em vez de cada uma ter o seu. Modelos de IA consomem muita memória, e é esse arranjo que, segundo a NVIDIA, permite rodar modelos de ponta no próprio notebook. A empresa fala em até 1 petaflop de desempenho de IA. É um número de marketing, medido num formato de baixa precisão chamado FP4, mas mostra o tamanho da ambição. Tudo isso cabe em máquinas a partir de 14 mm de espessura e cerca de 1,4 kg, e as versões de 128 GB já estão à venda.
Transcrição sem mandar o áudio para a nuvem
Para gente comum, a novidade mais útil é o Nemotron 3.5 Transcribe, que converte fala em texto em 40 idiomas, incluindo sete línguas da Índia. Segundo a NVIDIA, ele lidera o ranking Open ASR do Hugging Face (abre em nova aba) e é o segundo entre os modelos abertos na Artificial Analysis. Faz isso com cerca de 4,3 bilhões de parâmetros ativos, 80% menos que o primeiro colocado entre os abertos. Em português claro: um modelo enxuto que briga no topo com rivais bem maiores.
Rodar no computador importa porque a gravação da reunião, da consulta ou da entrevista não sai da máquina. Só que há um detalhe. O anúncio lista o Transcribe como disponível no RTX Spark, mas logo depois explica que só os pesos do modelo (os arquivos com o que ele aprendeu) já estão no Hugging Face. As versões quantizadas, comprimidas justamente para rodar com folga no notebook, chegam "em breve". Por ora, o Transcribe é matéria-prima para desenvolvedores, não um aplicativo que você abre e usa.
Menor e melhor
A Liquid AI ganhou suporte desde o primeiro dia para sua família LFM3. A NVIDIA destaca um modelo-base de 1,7 bilhão de parâmetros que supera o antecessor, de 2,6 bilhões. Ele funciona com as ferramentas abertas llama.cpp e vLLM e pode ser ajustado no próprio computador. Assim, uma empresa consegue adaptá-lo aos seus documentos sem entregá-los a terceiros. A tendência é boa para o usuário: modelos que encolhem e ainda assim melhoram.
Agentes, com asterisco
Agentes são programas de IA que executam tarefas em várias etapas, em vez de só responder perguntas. O Hermes Agent, da Nous Research, passou a integrar duas ferramentas da NVIDIA, a OpenShell e a Switchyard. Os nomes dizem pouco a quem não é do ramo, e é aqui que entra meu ceticismo.
Desde o lançamento, a NVIDIA exibe uma lista de agentes compatíveis: GitHub Copilot, Hermes, OpenClaw, Perplexity, Pi e WorkBuddy. Também apresentou o Nemotron 3.5 Bolt, de 74 bilhões de parâmetros, feito para tarefas longas "em configurações compatíveis". No rodapé, a própria empresa avisa que muitos produtos e recursos estão em estágios diferentes e serão oferecidos "quando e se" estiverem disponíveis. Quando e se. Numa máquina de US$ 2.599, esse rodapé merece leitura antes do cartão de crédito.
E, claro, os jogos
Phantom Blade Zero saiu em 28 de outubro na Steam e na Epic com DLSS 4.5. Nessa tecnologia, a IA cria quadros extras entre os que a placa desenha, e a imagem fica mais fluida. Segundo a NVIDIA, o recurso Dynamic Multi Frame Generation multiplica em até seis vezes a geração de quadros.
Na semana anterior, o RTX Remix 1.6 trouxe três novidades:
- path tracing, um tipo de iluminação realista, para o Minecraft Java Edition 1.21.1;
- DLSS 5;
- suporte nativo ao RTX Spark.
No lançamento, a empresa já prometia jogos pesados em 1440p acima de 100 quadros por segundo, citando títulos como Cyberpunk 2077, Fortnite e World of Warcraft.
Para quem é isso, afinal
Sejamos francos: não é notebook para quem vive de navegador, planilha e streaming. O preço inicial é de US$ 2.599, e a NVIDIA avisa que valores e configurações variam por região. O público óbvio são criadores e desenvolvedores.
- Criadores: o Photoshop e o Premiere, da Adobe (abre em nova aba), já funcionam de forma nativa, ainda em versões beta. Dá para editar vídeo 8K no formato 4:2:2, que sai direto da câmera, e montar cenas 3D na casa dos 90 GB. O Substance vem depois.
- Desenvolvedores: a atração é rodar IA sem pagar nuvem nem expor dados.
O anúncio de 28 de outubro deixa uma coisa clara: a NVIDIA sabe que chip potente sozinho não vende notebook. A disputa agora é por software, e nesse terreno a empresa ainda entrega em prestações. O hardware chegou pronto, mas boa parte do resto continua em "em breve".


