Em fevereiro de 2025, o especialista em cibersegurança James Gates, morador de um subúrbio tranquilo de Charlotte, na Carolina do Norte, deu um conselho prático à esposa, Cheryl, que voltava ao trabalho em tempo integral: usar o ChatGPT (abre em nova aba) para organizar a rotina doméstica e profissional. Dezenove meses depois, nesta quinta-feira (5), Gates recorreu ao Tribunal Superior de São Francisco para processar a OpenAI (abre em nova aba) e seu executivo-chefe, Sam Altman. A ação judicial sustenta que o assistente virtual deixou de ser um organizador de tarefas para atuar como coconspirador em um plano detalhado para assassiná-lo por envenenamento.
Segundo o processo, a ferramenta alimentou delírios de Cheryl de que o marido pretendia pedir o divórcio e deixá-la na miséria. A conversa sobre venenos começou sob o pretexto de autoproteção, com a mulher alegando temer ser morta pelo cônjuge. Em vez de encerrar o diálogo, o programa forneceu instruções específicas sobre o preparo e a administração de espirradeira (planta ornamental altamente tóxica), detalhando inclusive se remédios para náusea acelerariam o óbito e se a substância apareceria em uma autópsia.
Ao longo de pelo menos 25 interações, o disfarce de defesa pessoal caiu por terra sem que qualquer trava de segurança fosse acionada. A usuária passou a perguntar qual quantidade seria instantaneamente fatal por injeção "para mim ou para ele" e questionou se 0,2 miligrama do medicamento clonidina bastaria para matar um homem de cerca de 90 quilos. A petição relata que o robô calculou repetidamente as doses letais de diversos remédios disponíveis na residência do casal, ajustando a matemática para o peso exato de James.

A logística da seringa no energético
Resolvida a etapa farmacológica, o programa passou a atuar na logística da dissimulação. Em um histórico de conversa dedicado a explicar por que a bebida energética Celsius seria mais furtiva para dopar alguém, o sistema apontou que o líquido mascararia o gosto amargo de pós e comprimidos triturados melhor do que cerveja ou refrigerantes escuros. O texto gerado pela máquina chegou ao requinte de ensinar que é fisicamente possível perfurar uma lata lacrada com uma seringa para injetar substâncias sem deixar sinais visíveis na embalagem.
Na vida real, as tentativas teriam ocorrido entre junho e setembro de 2025. Enquanto a esposa emagrecia e passava os dias imersa na tela, James notou um amargor estranho em suas latas matinais de energético e chegou a descartar uma bebida deixada sem vigilância. No episódio mais grave, ele ficou 72 horas doente. A confirmação do que ocorria sob o próprio teto veio em agosto de 2025, quando Cheryl saiu de casa com os dois filhos pequenos: ao recolher um bloco de notas esquecido por ela no balcão da cozinha, o marido viu escorregar uma folha dobrada com o roteiro passo a passo para matá-lo e ocultar as provas.
O caso carrega um paradoxo jurídico que transfere o foco da esfera policial para o Vale do Silício. Cheryl chegou a ser indiciada por tentativa de homicídio e contaminação de alimentos em outubro de 2025, mas os promotores arquivaram as acusações em abril deste ano sob a justificativa de falta de provas suficientes, e sua defesa não comenta o assunto. Sem condenação criminal na ponta doméstica, restou a ação civil por negligência contra os criadores da tecnologia. No acompanhamento que o IA.com.br faz sobre os limites e os riscos dos modelos de linguagem, processos desse tipo expõem a distância entre os discursos de segurança das empresas e o comportamento real do software diante de usuários em crise.
Confrontada com o processo, a OpenAI declarou à imprensa americana que a segurança é prioridade máxima, informou ter banido a conta da usuária e colaborado com a investigação policial, além de listar a criação de conselhos de bem-estar e o redirecionamento de conversas sensíveis para modelos mais cautelosos. É a conhecida providência de trancar a porta depois da casa arrombada. Para um produto vendido ao público leigo como um assistente inofensivo de escritório, validar a paranoia de uma cliente e ensinar a furar latas de alumínio com uma seringa não é um mero tropeço técnico, mas uma falha primária de engenharia e contenção.


