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    NotíciaProgramação e desenvolvimento

    Linus Torvalds usa IA em correções do kernel Linux; código segue fora da versão oficial

    O criador do Linux usou o assistente de codificação Claude Code, da Anthropic, para desenvolver uma série de dez patches de desempenho e outra de correções de bugs. O material está em revisão na lista do kernel e ainda não foi incorporado à versão oficial.

    Tela de notebook exibindo página de e-mail com patch do kernel Linux, destacando diff de gerenciamento de memória em linhas verdes e vermelhas sob luz lateral suave, com espaço livre no canto inferior direito
    Patches de desempenho e correções de bugs desenvolvidos para o kernel Linux seguem em revisão na lista de discussão e ainda não foram incorporados à versão oficial do sistema
    Neste artigo

    Há uma frase, no meio de uma mensagem técnica sobre gerenciamento de memória, que diz mais sobre a semana no projeto Linux (abre em nova aba) do que qualquer manchete: "O código, os programas de teste, a revisão por trás da lista acima e o primeiro rascunho deste texto foram feitos com um assistente de codificação LLM (Claude Code) sob minha direção". A autoria é de Linus Torvalds, o criador do kernel, e a mensagem acompanha uma série de correções que ele publicou em 13 de outubro de 2026 na lista de e-mails do projeto.

    Para quem chega agora: o kernel é o núcleo do sistema, a parte que conversa com o hardware e de que dependem o Android e a maior parte dos servidores do mundo. Uma mudança nele chega na forma de patches, blocos de alterações propostas que precisam passar por revisão pública antes de entrarem de vez. O que Torvalds fez foi recorrer a um modelo de linguagem, a mesma família de tecnologia por trás de chatbots como o ChatGPT, para ajudar a produzir um desses blocos. Não é todo dia que o cara que escreveu a primeira versão do Linux, em 1991, admite isso na própria documentação técnica.

    O contexto veio da chamada cúpula de mantenedores, reunião anual das pessoas responsáveis por aprovar código no projeto. Torvalds contou na lista que um dos grandes temas deste ano seria o uso de LLMs no desenvolvimento do kernel. Diante disso, ele decidiu, nas próprias palavras, tentar de fato resolver um problema antigo usando um LLM como ajuda. A ferramenta escolhida foi o Claude Code (abre em nova aba), assistente de programação da empresa Anthropic.

    Close-up de um monitor com terminal exibindo um diff de código C do kernel Linux, com linhas destacadas em verde e vermelho, ao lado de janelas com e-mails de lista de revisão, sob luz fria de escritório
    Patches de desempenho e correções de bugs desenvolvidos para o kernel Linux seguem em revisão na lista de discussão e ainda não entraram na versão oficial

    O problema que resistia havia tempos

    O alvo técnico era um gargalo de leitura de arquivos. Quando um programa pede dados ao sistema, o kernel copia informações de blocos de memória que guardam o conteúdo dos arquivos, chamados de folios no jargão do projeto. Para gerenciar esses blocos, o kernel usa contadores de referência, mecanismos que registram quantos usos simultâneos cada pedaço de memória tem. Quando dezenas de processadores tentam atualizar o mesmo contador ao mesmo tempo, eles disputam a mesma linha de cache, e aí a leitura fica lenta.

    Torvalds relatou que tentativas anteriores de resolver isso fracassaram. Houve um rascunho dele mesmo, usado localmente por um ano e meio sem ser publicado; uma versão de Kiryl Shutsemau, de quase um ano antes; e uma abordagem de Ilya Gladyshev, então na sexta versão, com problemas fundamentais em aberto. Foi justamente esse histórico de fracassos que o motivou a testar a IA.

    A série publicada tem dez patches, no ramo de desenvolvimento chamado rcu-free-v3. A ideia central é adiar a liberação desses blocos de memória por um intervalo curto de segurança, o que permite ler os dados sem precisar atualizar o contador de referências no caminho mais rápido.

    E funcionou, pelo menos no teste. Em uma mensagem à lista, Torvalds apresentou números de uma simulação em um processador Ryzen Threadripper: um laço com 64 threads lendo o mesmo trecho de uma página saltou de 13,3 milhões de leituras por segundo para 304 milhões, com o custo por leitura caindo de cerca de 19.900 ciclos para 735. Uma aceleração de 23 vezes.

    Aceleração no teste de leitura do Torvalds (Threadripper, 64 threads)
    Unidade: milhões de leituras por segundo. Escala a partir de zero.
    IndicadorValor (milhões de leituras por segundo)
    Antes13,3
    Depois304

    Fonte: Mensagem de Linus Torvalds à LKML, 13/10/2026; teste artificial lendo o mesmo trecho de uma página em laço com todas as CPUs (abre em nova aba)

    Só que ele mesmo colocou a ressalva em sequência: nenhuma carga de trabalho real verá esse número, e o impacto na prática será bem menor. Vale uma pausa aqui, porque os números divulgados pelo site ZDNET contam uma história um pouco diferente. Segundo o veículo, em um teste anterior, em um notebook com um processador Intel Core i7 de quatro núcleos, oito threads fazendo pequenas leituras na mesma página fizeram a linha de cache disputada responder por 99,92% da carga entre núcleos medida, e o desempenho subiu de cerca de 10 milhões para algo entre 30 e 33 milhões de leituras por segundo. São máquinas e metodologias distintas, então os resultados não se comparam diretamente. Menos espetacular que 23 vezes, mas ainda assim uma mudança de patamar em um cenário de disputa.

    A segunda série: IA como lupa, não como redator

    Torvalds também usou LLM em outro trabalho, com um propósito diferente. Em um ramo de correções da biblioteca assoc_array, uma estrutura de dados de uso interno do kernel, ele explicou que um bug reportado por Nils Ollrogge vinha com uma correção proposta, mas que o código era obscuro demais para ele acompanhar. Então, diz ele, fez o que costuma pregar: usou ferramentas modernas de LLM para dar sentido ao material, dividindo funções grandes e difíceis de ler. O código reorganizado passou por uma bateria de testes fora do kernel, que confirmou o bug original e encontrou outros três, todos presentes desde o primeiro registro dessa biblioteca, em 2013.

    Aqui a IA não gerou a solução de desempenho; ela ajudou a decifrar código antigo e a revelar falhas escondidas. São dois usos bem distintos, e convém não confundi-los quando o assunto for "Torvalds e IA".

    O que não está confirmado

    O material não entrou no kernel oficial. Em 13 de outubro, os patches estavam fora da versão de testes Linux 7.3-rc6, e a incorporação era incerta. O site Phoronix presumiu que a decisão ficaria para a janela de mesclagem do Linux 7.4, a próxima oportunidade de aceitar novidades. E a revisão coletiva, mecanismo que faz o kernel ser o que é, já encontrou uma condição de corrida no código, um erro que aparece quando partes do sistema executam em ordem inesperada. O LWN.net, veículo especializado que acompanha o projeto, resumiu: o resultado é uma aceleração de grande magnitude em um teste focado em leitura, mas será necessário mais trabalho. Até o fechamento desta reportagem, não havia confirmação de mantenedores ou da Linux Foundation sobre aceitação do código.

    Vale notar também o que as fontes têm entre si. A Computerworld publicou sua própria versão da história em 14 de outubro, citando o ZDNET; trata-se de republicação de reportagem, não de medição independente nem de declaração nova.

    O tom mudou

    Há pouco mais de uma semana dos patches, no dia 9 de outubro, Torvalds participou de uma conversa com Dirk Hohndel no Open Source Summit Europe, em Praga, e rendeu um depoimento que ajuda a ler o momento (tradução livre):

    "Eu costumava achar que simplesmente não era muito boa. Agora cheguei a um ponto em que realmente gosto de usar IA."

    Na mesma conversa, porém, veio o limite: "acho que é preciso ter muito cuidado ao usar IA quando você está fazendo algo real e importante". Se ele tinha um histórico de ceticismo com a tecnologia, o que os fatos recentes mostram não é uma conversão irrestrita, e sim um uso dirigido, com supervisão declarada e testes. O próprio Torvalds registrou um efeito colateral curioso: as mensagens que descrevem os commits ficaram "um pouco mais verbosas do que eu teria escrito eu mesmo, sem uso de ferramenta".

    No fim das contas, o detalhe mais revelador talvez não seja a velocidade de 23 vezes, nem o nome da ferramenta. É o fato de o projeto do kernel ter passado a conviver com uma regra tácita de transparência: quando a IA participa, ela é declarada no próprio código. Essa frase, escrita sob direção humana em uma mensagem técnica, pode acabar sendo mais influente para o projeto do que qualquer número de desempenho.

    Perguntas frequentes

    O código feito com IA já faz parte do kernel Linux?

    Não. Os patches estão em revisão na lista do projeto e, segundo o ZDNET, em 13 de outubro estavam fora da versão de testes Linux 7.3-rc6. A revisão já identificou uma condição de corrida, e a incorporação, possivelmente na janela do Linux 7.4, ainda era incerta.

    Qual ferramenta de IA o Torvalds usou?

    O Claude Code, assistente de codificação da Anthropic. Ele declarou na própria documentação dos patches que o código, os programas de teste, a revisão e o rascunho do texto foram feitos com a ferramenta sob sua direção.

    A IA escreveu o código sozinha?

    Não há base para dizer isso. Segundo o relato do próprio Torvalds, o trabalho ocorreu sob sua direção, com testes em máquinas dele e revisão posterior da comunidade, que já encontrou problemas no código.

    Isso significa que o kernel Linux passará a ser escrito por IA?

    Nada indica isso por enquanto. O uso da IA, nos dois casos descritos, foi pontual e supervisionado por Torvalds, que alertou ser preciso muito cuidado ao usar a tecnologia em algo real e importante. A cúpula de mantenedores discutiu o tema, mas não há decisão anunciada sobre política formal de uso.

    Foto de Leandro Vieira

    Leandro Vieira

    CEO e founder | IA.com.br

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