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    NotíciaNegócios e mercado

    Laboratórios de IA compram dados de startups mortas; tradução animal ainda é promessa

    Código, e-mails e chats de startups fechadas viraram matéria-prima para treinar IA, sem lei federal nos EUA que proíba a venda. Enquanto isso, a IA acumula gravações de animais, mas ainda não consegue traduzi-las.

    Caixas de papelão lacradas com discos rígidos e pastas de arquivo, etiquetadas, sobre o piso de um escritório vazio com cadeiras empilhadas, sob luz fria da manhã
    Arquivos de startups que fecharam as portas, como código, e-mails e conversas internas, viraram mercadoria cobiçada por laboratórios de tecnologia
    Neste artigo

    Keelan Miskell achava que o arquivo digital da sua startup de cripto não valia grande coisa. A empresa tinha poucos anos, usuários anônimos e estava sendo fechada. Ele errou. Segundo reportagem de Matthew King na MIT Technology Review, Miskell recebeu cerca de US$ 25 mil pelo código-fonte. Ainda espera algo perto de US$ 15 mil pelos dados de trabalho guardados no Google, Notion, Figma e Slack. Foram dois anos e meio de rotina de uma equipe, empacotados e vendidos.

    O caso abriu a edição de 28 de outubro da The Download, newsletter diária da revista. A edição pôs lado a lado duas histórias que parecem não ter relação: laboratórios de IA comprando o espólio de startups mortas e cientistas tentando decifrar a comunicação dos animais. O fio que liga as duas é a fome de dados da inteligência artificial e a distância entre acumular dados e entender o que eles dizem.

    Por que o arquivo morto virou mercadoria

    Os laboratórios que treinam modelos de IA estão chegando ao limite do texto público disponível e dos dados sintéticos, aqueles gerados por outras máquinas. Agora querem registros reais de como as pessoas trabalham: quem pede o quê no chat, como um problema é discutido, como um documento evolui. É o material de que precisam os agentes de IA, programas criados para executar tarefas de escritório por conta própria.

    Caixas de mudança empilhadas num escritório vazio, cheias de papéis impressos com anotações e marcas de revisão, ao lado de mesas e cadeiras desocupadas sob a luz cinzenta da tarde
    Código, e-mails e conversas internas de empresas que fecharam as portas passaram a ser vendidos como matéria-prima, sem lei federal nos EUA que proíba a prática

    Startups fechando não faltam. Estimativas da Carta e da AngelList citadas pela reportagem mostram os encerramentos crescendo entre 26% e 56% ao ano nos últimos anos. A SimpleClosure (abre em nova aba), empresa que ajuda startups a fechar as portas e que intermediou a venda de Miskell, criou em abril a Asset Hub, uma área só para vender código e dados como e-mails, conversas e documentos. Já são mais de 150 negócios, e a meta é devolver mais de US$ 10 milhões a startups até o fim de 2026. O CEO, Dori Yona, diz que essas transações, antes raras e "meio tabu", viraram rotina: 47% dos negócios da empresa já incluem venda de código ou dados. A concorrente Sunset, de Brendan Mahony, define o preço pelo número de funcionários, pelos anos de operação, pelo volume de dados e pelo uso de ferramentas.

    Do lado de quem compra estão os laboratórios dos grandes modelos, empresas que montam escritórios simulados para treinar IA e companhias de tecnologia maduras que desenvolvem modelos próprios.

    Os grandes já entraram no jogo

    Isso não se limita a startups de garagem. Em agosto, no processo de falência da Spirit Airlines, o Google superou a oferta da Mercor e levou os dados da companhia aérea por US$ 10 milhões. O pacote inclui 100 milhões de e-mails, 500 milhões de mensagens no Teams e 176 mil registros de funcionários. Em setembro, a Bloomberg informou que a unidade de IA da SpaceX avalia comprar dados de startups em dificuldade.

    Quem escreveu os e-mails não está na mesa

    Os e-mails e as mensagens vendidos foram escritos por pessoas que não estavam negociando nada. Estavam trabalhando. O advogado Greg Ewing chamou esse tipo de material de "legalmente radioativo". A professora de direito Ifeoma Ajunwa, da Universidade Emory, lembra que o dinheiro costuma ir para credores preferenciais e investidores, e não para os funcionários. Ela também aponta que não existe lei federal nos Estados Unidos proibindo essas vendas. Nem os fundadores sabem direito quem compra ou o que será feito com os dados. O arranjo é conveniente para quase todo mundo, menos para quem produziu o conteúdo.

    Há ainda um detalhe que deveria esfriar o entusiasmo. Nick Heiner, da Surge AI (abre em nova aba), empresa que constrói "ginásios de aprendizado por reforço" (ambientes simulados onde a IA aprende tarefas por tentativa e erro), afirma que nenhuma empresa publicou testes comparando o treino com dados reais e com as alternativas. Segundo ele, os preços se apoiam em teses de pesquisa. Na prática, é um mercado de milhões montado sobre uma aposta e pago com a conversa alheia.

    Do Slack ao latido

    A segunda história da edição, de Cassandra Willyard, faz parte da série "Are we there yet?" ("Já chegamos?") e mostra o problema pelo outro lado. Na comunicação animal também sobram dados. Em 50 anos, hidrofones (microfones subaquáticos) e sensores presos ao corpo dos bichos ampliaram muito a observação. Na última década, a IA passou a detectar chamados, identificar qual animal emitiu cada som e encontrar padrões. O que falta é compreensão. A revista deu nota 4 ao campo em seu medidor de progresso: há montanhas de gravações, e os pesquisadores ainda tentam descobrir como decifrá-las.

    Algumas coisas já se sabe. Cães-da-pradaria emitem sequências diferentes de ganidos quando um coiote se aproxima e quando há um gavião por perto. E a comunicação animal não passa só pelo som: inclui sinais visuais, toque, feromônios ou combinações deles.

    O Earth Species Project (abre em nova aba), organização sem fins lucrativos criada em 2018, usou aprendizado de máquina para detectar vocalizações de gralhas-pretas e saber qual ave fez cada chamado. A ecóloga comportamental Sara Keen diz que o grupo espera que o NatureLM, modelo treinado com fala humana, música e sons de animais, consiga interpretar vocalizações de várias espécies. O neuroecólogo Yossi Yovel, da Universidade de Tel Aviv, faz o alerta certo: modelos podem agrupar sons parecidos que têm significados diferentes.

    Para Con Slobodchikoff, fundador da Zoolingua, que trabalha em comunicação de cães para humanos, decifrar esses sinais poderia ajudar as pessoas a perceber que os animais são seres sencientes, que pensam e têm esperanças e sonhos próprios. Uma conversa de mão dupla, porém, não tem data marcada nem garantia de acontecer. A tradução segue no campo teórico.

    Lidas juntas, as duas histórias dizem muito sobre o momento da IA. A indústria age como se mais dados significassem automaticamente mais inteligência. A bioacústica tem montanhas de gravações e ainda recebe nota 4, o que mostra que não é bem assim. Antes de alguém pagar US$ 10 milhões pelos e-mails de uma companhia aérea falida, seria bom que alguém provasse que eles ensinam alguma coisa.

    Foto de Leandro Vieira

    Leandro Vieira

    CEO e founder | IA.com.br

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