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    Kalshi admite ter usado IA para mudar raça de criador em anúncio

    A plataforma de mercados de previsão Kalshi reconheceu que um anúncio foi montado a partir do vídeo de um youtuber, com inteligência artificial alterando sua aparência e sua raça. O caso foi descoberto por Elliot Choy em 23 de setembro de 2026.

    Filipe Mendes

    Kalshi admite ter usado IA para mudar raça de criador em anúncio
    Ilustração gerada por IA

    A plataforma de mercados de previsão Kalshi reconheceu que um de seus anúncios foi criado a partir do vídeo de um youtuber e que a inteligência artificial foi usada para alterar a aparência e a raça do criador. O caso veio à tona em 23 de setembro de 2026, quando Elliot Choy, que faz vídeos sobre aluguel de apartamento em Nova York, encontrou o anúncio enquanto navegava no YouTube. As primeiras reportagens sobre o episódio foram publicadas em 24 de setembro de 2026, um dia depois da descoberta.

    O que aconteceu

    O vídeo original de Choy tratava da mudança dele para um apartamento na cidade de Nova York e tinha sido publicado em setembro de 2025. No anúncio que ele encontrou, segundo seu próprio relato, o rosto do criador foi substituído pelo de um homem branco que não existe. Choy publicou uma comparação lado a lado entre o material original e a versão alterada.

    Um correspondente confirmou que o anúncio da Kalshi é real. Um representante da empresa disse que o material é antigo, com cerca de quatro meses de idade segundo a própria Kalshi, e que a companhia não usa mais anúncios gerados por inteligência artificial que retratem pessoas. O representante afirmou ainda que a empresa está revisando sua relação com a agência que produziu a peça, mas não informou publicamente o nome dessa agência. Não houve pedido de desculpas a Choy nem menção a pagamento pelo vídeo copiado.

    Entenda o que é deepfake

    Deepfake é um vídeo ou áudio manipulado por inteligência artificial para simular a aparência ou a voz de alguém. Em termos simples, o sistema aprende padrões de um rosto de referência e reescreve os quadros do vídeo original para que a pessoa pareça outra. Ferramentas de conversão de vídeo para vídeo e de troca de rosto fazem esse trabalho em poucos passos, o que reduz o custo e o tempo de produção. O professor Hany Farid, especialista em forense digital da Universidade da Califórnia, afirmou que esse tipo de manipulação é muito fácil de fazer com as ferramentas atuais e tende a passar pelas brechas da moderação de conteúdo.

    Esquema de vídeo original, processamento por inteligência artificial e resultado com rosto trocado
    A troca de rosto em vídeo usa modelos que reescrevem os quadros a partir de um rosto de referência.

    Um padrão, não um caso isolado

    Choy não é o único criador a relatar o problema. Em junho, o criador Pushpek Sidhu disse que a Kalshi recriou um de seus vídeos quase palavra por palavra para promover a plataforma, sem pagar nem dar crédito a ele. Nesse anúncio, segundo Sidhu, ele também foi substituído na tela por um homem branco. São dois criadores, com meses de diferença, seguindo o mesmo roteiro: pegam o conteúdo, mantêm o texto e trocam o rosto.

    A Kalshi já vinha experimentando inteligência artificial em seu marketing. No ano anterior, veiculou um anúncio feito com IA para as finais da NBA, que a empresa disse ter custado apenas 2 mil dólares. Depois disso, diante do aumento das críticas a conteúdos gerados por IA, a companhia mudou o discurso e contratou nomes conhecidos, como o ator Timothée Chalamet e cinegrafistas premiados. Keaton Inglis, chefe de crescimento da Kalshi, disse que a empresa passou de líder em IA para o mais humano possível daqui em diante.

    Pressão regulatória e jurídica

    O episódio ocorre em meio a outras investigações sobre a Kalshi. O órgão regulador de derivativos dos Estados Unidos, a CFTC, está revisando quase 1 milhão de negociações no mercado de contratos perpétuos de ether da plataforma. Mais de um terço dessas negociações tinha o mesmo tamanho de 5.500 dólares, padrão que representou entre 48% e 58% de todo o volume de perpétuos de ether em quatro dias diferentes. A Kalshi afirma que a CFTC não abriu uma investigação formal e atribui o padrão a seus programas de incentivo à liquidez, que pagam formadores de mercado para postar ordens de tamanho fixo. A empresa também aponta lucros consistentes obtidos pelos traders que aceitam essas ordens como prova de que nada foi manipulado.

    Além disso, a National Advertising Division, entidade de autorregulação do setor publicitário, encaminhou a Kalshi à Comissão Federal de Comércio depois que a empresa não participou de uma apuração sobre suas práticas de marketing com influenciadores. No Senado, todos os onze senadores democratas do Comitê Bancário pediram ao presidente do colegiado uma audiência pública sobre mercados de previsão. Eles citam preocupações com manipulação de mercado, informação privilegiada e concentração de lucros em uma pequena parte dos usuários.

    Do ponto de vista legal, copiar o vídeo de alguém sem licença é uma questão de direito autoral que existe muito antes da inteligência artificial. Usar a imagem de uma pessoa, mesmo alterada, para vender um produto sem consentimento também pode violar direitos de publicidade em vários estados americanos. O que muda com a IA é o custo baixo e a velocidade. Choy não disse se pretende processar a empresa. A Kalshi não revelou qual agência está revisando. Até agora, o anúncio já foi exibido.

    Fontes

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