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    NotíciaPesquisa e ciência

    Infraestrutura terá de crescer gastando menos, diz chefe de engenharia civil do MIT

    Ali Jadbabaie, do MIT, diz que o mundo precisa de mais infraestrutura com menos água, energia e carbono. Ele também reconhece que o papel da IA nessa tarefa ainda está em aberto.

    Operários trabalham na concretagem de uma adutora de água em bairro periférico em expansão, com tubos pré-moldados leves alinhados em vala e canteiro de obras compacto sob luz da manhã
    Obras de saneamento em áreas urbanas em expansão: o desafio é ampliar a infraestrutura consumindo menos água, energia e carbono
    Neste artigo

    Em 2028, pela primeira vez, a pessoa que ocupa o meio exato da fila da humanidade vai viver com US$ 10 por dia. Metade do mundo ganhará mais do que ela, metade ganhará menos. A projeção foi apresentada por Ali Jadbabaie, chefe do Departamento de Engenharia Civil e Ambiental do MIT, em entrevista publicada pelo MIT News (abre em nova aba) na quarta-feira (28). Ele atribui o número a "modelos". Não disse quais.

    Um número desse tamanho merecia certidão de nascimento. Sem ela, fica plausível e citável, mas impossível de conferir. O argumento que Jadbabaie constrói em cima dele, porém, não depende da casa decimal. Mais gente com um pouco mais de renda significa mais procura por tudo o que depende de obra: água, energia, transporte, cidades. A questão é como atender a essa procura.

    O modelo do século 20 não cabe na conta

    A resposta do professor é desconfortável. Se o mundo tentar atender essa demanda crescente com o modelo de infraestrutura do século 20, que ele descreve como intensivo em recursos, não haverá recursos suficientes. A tarefa, segundo ele, é construir mais infraestrutura gastando menos água, menos energia, menos materiais e emitindo menos carbono.

    Operários trabalham na concretagem de uma ponte de estrutura esbelta em madeira laminada e pouco concreto, ao lado de um viaduto antigo e maciço, em canteiro de obras urbano sob luz natural da manhã
    Estruturas mais leves, com menos concreto, ilustram o desafio de ampliar a infraestrutura consumindo menos água, energia e carbono

    A frase é curta e o problema é enorme. Jadbabaie lembra que boa parte do crescimento populacional e das obras novas das próximas décadas acontecerá em países onde os sistemas ainda estão em desenvolvimento. Esses países só evitariam repetir o modelo antigo com novas abordagens de tecnologia, financiamento, engenharia e governança. O peso da frase está no "só". O brasileiro, que convive com obra parada e rede incompleta, não precisa de tradução para entender de quem ele está falando.

    A IA entra, mas sem roteiro pronto

    É aqui que a inteligência artificial aparece, e com uma modéstia incomum. Jadbabaie diz que a IA e a transformação digital podem acelerar quatro frentes:

    • Sensoriamento: medir o que acontece numa estrutura ou numa rede.
    • Dados: organizar e interpretar o que foi medido.
    • Acionamento: fazer o sistema reagir.
    • Exploração de projetos: testar muitas alternativas antes de assentar o primeiro tijolo.

    Logo em seguida, ele faz uma ressalva que vale mais do que a lista: "a história disso ainda não foi escrita".

    Quem se acostumou a ver a inteligência artificial vendida como resposta pronta para qualquer pergunta deve guardar essa frase. Ela vem do chefe de um departamento do MIT, às vésperas de um fórum internacional em que a IA é um dos temas oficiais. A tecnologia promete tornar a engenharia mais rápida e mais econômica. Ninguém ainda mostrou, em escala, que vai cumprir a promessa. Ele também não disse que mostrou.

    Um fórum fechado em Madri

    A entrevista antecede o World Infrastructure Forum (abre em nova aba), realizado nos dias 28 e 29 de outubro na Escola Técnica Superior de Engenheiros Civis da Universidade Politécnica de Madri. O encontro foi cofundado pelo departamento de Jadbabaie, pela universidade espanhola, pelo Grupo Banco Mundial e pela Universidade do Texas em Austin. É uma organização sem fins lucrativos, administrada pela Fundação Agustín de Betancourt. A cúpula acontece a cada dois anos e só entra quem é convidado. O público-alvo inclui executivos de primeiro escalão, ministros, gestores de fundos, pesquisadores e reguladores.

    O fórum se propõe a repensar como a infraestrutura é concebida, financiada, entregue e governada. Os temas incluem infraestrutura digital e IA, resiliência climática, financiamento, cidades e mobilidade, governança e cooperação internacional. Jadbabaie explica a escolha pela parceria com um argumento simples: nenhuma disciplina, empresa ou país resolve isso sozinho. Por isso foram criados cinco grupos de trabalho e um conselho consultivo com mais de 30 lideranças.

    Há um detalhe que não compromete nada, mas diverte. A página oficial do fórum informa que o evento reúne representantes de "mais de 30" países e, em outro trecho, de "mais de 40". Os palestrantes aparecem como "mais de 100" e também como "mais de 50". Os executivos da indústria somam "mais de 350". Um encontro criado para planejar a infraestrutura do planeta ainda não fechou a contagem de quem estava na sala. Nada de grave. Serve apenas de lembrete de que planejar é difícil até em escala pequena.

    Para o leitor comum, que não recebeu convite e não estará em Madri, a entrevista deixa uma advertência. As decisões sobre como financiar e governar a próxima geração de estradas, redes de água e de energia estão sendo discutidas agora, por governos, bancos e universidades. A IA entrou na pauta como ferramenta promissora, e não como solução garantida. Se o calendário bienal for mantido, a próxima edição do fórum deve cair em 2028, o mesmo ano em que, segundo os modelos citados por Jadbabaie, a mediana da humanidade chegará aos US$ 10 por dia. Será uma boa ocasião para conferir quanto dessa história já foi escrito.

    Foto de Leandro Vieira

    Leandro Vieira

    CEO e founder | IA.com.br

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