Circulou nesta semana a manchete de que os americanos já têm mais medo da inteligência artificial do que de ver alguém da família com câncer. A frase é boa, mas a leitura dos números é ruim. A pesquisa de onde ela saiu não usa a palavra "câncer", e a distância entre os dois medos é de 0,1 ponto percentual. Debaixo do exagero, porém, há uma notícia de verdade: pela primeira vez, a IA entrou na lista dos dez maiores medos dos Estados Unidos.
O que a pesquisa mediu
O levantamento é a 12ª edição da Pesquisa de Medos Americanos da Universidade Chapman (abre em nova aba). O trabalho de campo ficou com o NORC (abre em nova aba), centro de pesquisa da Universidade de Chicago. O instituto ouviu 1.221 adultos pela internet entre 7 e 21 de abril de 2026, usando um painel probabilístico, em que os participantes são sorteados em vez de se oferecerem. A margem de erro é de 3,79 pontos percentuais, para mais ou para menos. Os resultados saíram em 20 de outubro.
Neste ano, os pesquisadores incluíram pela primeira vez perguntas sobre IA, e duas delas chegaram ao alto da lista. O medo de que a tecnologia prejudique o processo político ficou em terceiro lugar: 51,9% dos entrevistados disseram ter medo ou muito medo disso. O medo de que ela prejudique a economia ficou em sétimo, com 49,7%. Na frente continuam dois velhos conhecidos, as autoridades corruptas (61,1%) e a possibilidade de o país entrar em outra guerra mundial (58%).

| Medo | Com medo ou muito medo |
|---|---|
| Autoridades corruptas no governo | 61,1% |
| EUA em outra guerra mundial | 58,0% |
| IA prejudicar o processo político | 51,9% |
| Alguém que amo ficar gravemente doente | 51,8% |
| Alguém que amo morrer | 50,6% |
| Colapso econômico ou financeiro | 50,6% |
| IA prejudicar a economia | 49,7% |
| Governo rastrear dados pessoais | 48,9% |
| Guerra biológica | 48,2% |
| Ataques terroristas | 47,3% |
Onde a manchete escorregou
O site Futurism, em texto de Victor Tangermann publicado no dia 26, escreveu que os americanos têm "mais medo de IA do que de um ente querido receber um diagnóstico terminal". O TechTimes foi além e afirmou no título que a IA assusta mais que a morte de pessoas amadas. A tabela publicada pelo próprio site mostra outra coisa.
Lida com calma, a conta é esta. Só um dos itens de IA, o político, fica numericamente acima de "alguém que amo ficar gravemente doente" (51,8%) e de "alguém que amo morrer" (50,6%). O item econômico fica abaixo dos dois. Uma diferença de 0,1 ponto, numa pesquisa com margem de quase 4, não dá vitória a ninguém. Os institutos chamam isso de empate técnico. Para qualquer pessoa, quer dizer que a pesquisa não consegue separar os dois medos.
O episódio tem sua ironia. Uma pesquisa que mostra o americano preocupado com o efeito da IA sobre a informação política virou matéria-prima de manchete torta, e ninguém precisou de máquina para isso.
O medo é do uso, não do robô
O que os números dizem, sem enfeite, já é bastante. Metade dos adultos americanos teme a IA com a mesma intensidade com que teme a doença grave de um filho ou de um pai. E esse temor não é o do robô assassino dos filmes. É o de eleição contaminada e de economia desarrumada, ou seja, o medo do que pessoas e instituições vão fazer com a tecnologia.
O sociólogo Christopher Bader, fundador da pesquisa, resumiu assim:
"Esses resultados deixam claro que os americanos estão preocupados não só com o que a IA pode significar para seus empregos, mas com seu impacto potencial no nosso sistema político e na economia."
Bader acrescentou que espera que a preocupação continue "uma parte significativa da conversa nacional nos próximos anos". A pesquisadora Ashley Wendell Kranjac, segundo o Futurism, lembrou que o top 10 não conta a história inteira. Alguns medos, como a poluição do ar e os ataques terroristas, recuaram em relação ao ano anterior.
Quem usa teme menos, ou parece temer
Há um dado que merece atenção. Entre quem usa ferramentas de IA ao menos uma vez por semana, 46% temem o dano ao processo político. Entre quem nunca usa, são 55%. A própria universidade avisa que se trata de associação, e não de causa. Os números não permitem dizer que conversar com um chatbot acalma alguém. Pode ser apenas que os menos assustados experimentem mais.
Outras sondagens apontam na mesma direção. O TechTimes atribui ao Pew Research Center (abre em nova aba) uma pesquisa de junho de 2026 em que 52% dos adultos americanos se dizem mais preocupados do que animados com o avanço da IA, contra 37% em 2021. O Futurism cita um levantamento do Politico (abre em nova aba), feito no mês anterior, em que cerca de dois terços veem ao menos uma chance "moderada" de a IA avançada destruir a humanidade. Esse número não vem da pesquisa da Chapman.
A IA não ultrapassou o câncer. Empatou com a angústia mais doméstica que existe, a de perder alguém, e conseguiu isso na primeira vez em que entrou no questionário. A indústria vende a tecnologia como ajudante, e esse é um começo de reputação difícil. O recado do público tem pouco a ver com o medo da máquina. Ele mostra desconfiança de quem vai usá-la.


