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    NotíciaSegurança e privacidade

    IA achou falhas que ameaçam até 70% dos sites; ataques vieram antes do conserto

    Modelos de IA da OpenAI e do Google acharam falhas críticas no PHP, mas o segredo vazou antes do conserto e virou milhões de tentativas de ataque. O episódio mostra a IA servindo a quem defende e a quem ataca.

    Folha de aviso impressa afixada na porta de vidro de uma repartição pública, com funcionários de costas lendo o comunicado sob luz fria da manhã
    Falhas críticas no PHP, linguagem presente em até 70% dos sites, foram exploradas em milhões de tentativas de ataque antes da correção e chegaram a tirar serviços do ar
    Neste artigo

    A inteligência artificial passou dois meses guardando um segredo capaz de deixar boa parte da internet exposta. Na quarta-feira, 21 de outubro, o segredo já tinha escapado. Agências de cibersegurança dos Estados Unidos, da Europa, da Austrália, do Canadá e de outros países pediram então a empresas e governos que tirassem seus sites do ar imediatamente. Uma série de páginas oficiais e privadas já estava desligada naquele dia.

    O caso ganhou um nome de filme B, PHP2Shell, e segue um enredo de manual. O PHP (abre em nova aba) é a linguagem de programação que funciona por trás de até 70% dos sites do mundo. Pesquisadores usaram o GPT-5.6 Sol, modelo da OpenAI (abre em nova aba), para vasculhar o código da linguagem e encontraram falhas críticas, do tipo que permite a um invasor rodar comandos à distância no computador de outra pessoa. A Cloudflare (abre em nova aba), que ajudou na resposta, resumiu o risco: ataques, redes fora do ar e vazamento de dados.

    Duas equipes chegaram lá. Uma foi a empresa de segurança Calif, dentro do programa Patch the Planet, da OpenAI. A outra foi a Wiz (abre em nova aba), que pertence ao Google e combinou o Gemini 4 Argon, o próprio GPT-5.6 Sol e um agente automatizado chamado Wiz Atlas. A OpenAI diz ter liderado por dois meses uma coalizão para preparar os consertos e classificou o episódio como "um dos problemas de segurança de maior impacto em memória recente".

    Pesquisadores de segurança, de costas ou com rostos fora de foco, comparam folhas impressas com anotações sobre uma falha de software numa mesa de escritório iluminada por luz natural lateral
    Equipes de segurança analisam falhas críticas no PHP, linguagem presente em grande parte dos sites da web

    A janela que fechou cedo

    O plano era o da boa segurança: descobrir em silêncio, consertar e só então anunciar. A OpenAI escreveu que, até onde sabe, a IA achou as falhas antes dos atacantes, o que abriu uma "janela" para os defensores se prepararem. A janela fechou antes da hora. A PHP Foundation, que cuida da linguagem, informou que as falhas vazaram antes da data prevista, por uma mistura de descuidos e invasões intencionais.

    A partir daí, a história se conta em números. A Amazon disse que os ataques começaram quatro dias antes de as correções serem publicadas. Matthew Prince, presidente-executivo da Cloudflare, descreveu assim a escalada na rede da empresa:

    • nas 10 horas anteriores ao anúncio público: milhares de tentativas de ataque;
    • nos 45 minutos seguintes ao anúncio: dezenas de milhares;
    • em duas horas: centenas de milhares;
    • no dia 22: milhões.

    A NSA, agência de inteligência americana, recomendou desligar os sites que não pudessem ser corrigidos na hora. O remédio é amargo, mas honesto: um site fora do ar não é invadido.

    A faca corta para os dois lados

    O episódio expõe o problema central desta fase da IA. A ferramenta que encontra o buraco para quem quer tapá-lo também o encontra para quem quer entrar. A empresa watchTowr flagrou tentativas reais de invasão feitas com programas montados às pressas com ajuda de IA, o que no jargão se chama "vibecoding". Nenhuma havia funcionado até aquele momento. O tempo e a insistência, porém, ficaram baratos.

    John Scimone, presidente e chefe de segurança da Dell (abre em nova aba), disse que o custo e as barreiras para atacar desmoronaram. Na avaliação dele, o ataque menos sofisticado de amanhã será mais sofisticado do que qualquer coisa que o mundo tinha visto um ano atrás. A Dell participa do Project Glasswing, da Anthropic (abre em nova aba).

    O volume de trabalho já aparece nas contas. A Microsoft (abre em nova aba) corrigiu mais de 1.400 vulnerabilidades no pacote de atualizações de outubro, o maior de sua história. As contagens variam entre 1.413 e 1.453, conforme quem soma. Uma das falhas, no Windows, já estava sendo explorada por criminosos quando o conserto saiu. O recorde não informa quanto dessas descobertas veio de máquinas, mas mostra o tamanho da fila de correções que as empresas precisam instalar.

    O próximo cadeado

    Há uma frente menos barulhenta e talvez mais grave: a criptografia, a matemática que protege senhas, pagamentos e a identidade dos sites. No fim de julho, a Anthropic relatou que pesquisadores usando o Claude Mythos Preview encontraram formas melhores de atacar algoritmos criptográficos. Conseguiram enfraquecer o HAWK, um dos nove candidatos que o NIST (abre em nova aba), órgão americano de padrões, avalia para novas assinaturas digitais pós-quânticas. São os cadeados desenhados para resistir aos computadores quânticos do futuro.

    Um estudo da DigiCert publicado neste ano mostrou que só 7% das organizações pesquisadas adotaram criptografia resistente à computação quântica, ou híbrida, na maior parte de seus certificados digitais. A maioria ainda não trocou o cadeado velho, e a IA já está testando a resistência do novo.

    No caso do PHP, a IA fez a parte dela e achou o problema primeiro. Quem falhou foram as pessoas que deixaram o segredo escapar, e continua falhando quem demora a instalar a correção. Daqui em diante, a vantagem não ficará com quem tem o modelo mais poderoso, e sim com quem conserta mais rápido. Quem mantém um site, por menor que seja, deve perguntar hoje ao provedor de hospedagem se a correção do PHP já foi aplicada.

    Foto de Leandro Vieira

    Leandro Vieira

    CEO e founder | IA.com.br

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