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    NotíciaSegurança e privacidade

    IA acha falha crítica no PHP, que roda 70% da web, e sites saem do ar

    Modelos de IA da OpenAI e do Google ajudaram a achar duas falhas graves, com cerca de dez anos, no PHP. Governos e empresas tiraram sites do ar, e as tentativas de ataque passaram de milhões em poucas horas.

    Técnico de costas desconecta cabo de rede de um servidor em sala técnica com luz fria; acima do equipamento, uma folha impressa presa à parede funciona como aviso de site fora do ar
    Órgãos públicos e empresas tiraram sites do ar após a descoberta de duas falhas graves no PHP, linguagem usada por cerca de 70% da web
    Neste artigo

    Desde a quarta-feira (21), sites de governos e de empresas estão saindo do ar em vários países. Quem os desligou não foram hackers, foram os próprios donos, por precaução. O FBI e a NSA, agência de segurança nacional dos Estados Unidos, alertaram para duas falhas "críticas" no PHP que permitem a um invasor executar comandos à distância num servidor. A recomendação do FBI foi seca: atualizar imediatamente ou tirar o site do ar. Quem não conseguiu atualizar a tempo desligou.

    O PHP é uma linguagem de programação que trabalha nos bastidores da internet. O visitante não a vê, mas é ela que monta páginas de lojas virtuais, jornais e serviços públicos. A Wiz (abre em nova aba), empresa de cibersegurança que pertence ao Google e está entre as que acharam os defeitos, estima que o PHP ajude a rodar cerca de 70% dos sites do mundo. Daí vem o número das manchetes, que merece uma correção. Só estão expostos os sites que rodam PHP em servidores próprios. Segundo a France 24, grandes plataformas feitas em outras linguagens, ou hospedadas por operadores capazes de aplicar o conserto depressa, continuaram no ar. Os 70% medem o tamanho do terreno. O estrago real é menor, e ninguém sabe ainda quanto.

    Quem achou

    A novidade está em quem encontrou as falhas. Pesquisadores de três empresas anunciaram na quarta ter usado inteligência artificial para descobri-las e corrigi-las. A Calif, empresa de segurança, achou o primeiro defeito em 1º de agosto com o GPT-5.6 Sol, modelo da OpenAI (abre em nova aba) que já nem é o mais recente da casa. Semanas depois, a Wiz chegou às duas falhas por conta própria, usando o mesmo Sol e o Gemini 4 Argon, do Google. A OpenAI diz ter passado dois meses trabalhando com os mantenedores do PHP (abre em nova aba) no conserto, liberado na quarta. Os defeitos tinham cerca de dez anos. Foi uma década de programadores olhando aquele código sem que ninguém percebesse nada.

    Mãos de pesquisadores sobre folhas impressas de código-fonte com anotações e um trecho destacado à caneta, em mesa de escritório iluminada por luminária à noite
    Falhas antigas no PHP, linguagem presente em grande parte da web, levaram governos e empresas a tirar sites do ar enquanto as tentativas de ataque se multiplicavam.

    A Wiz classificou as falhas como "entre as mais graves já descobertas no PHP e, possivelmente, na história do software". Pode ser exagero de quem fez a descoberta. Rahat Masood, professora de cibersegurança da Universidade de New South Wales, em Sydney, foi na mesma linha e disse à AFP que o achado é "bastante devastador". Segundo ela, a brecha deixa o invasor entrar no servidor "sem nenhuma autorização, sem nome de usuário nem senha". Lá dentro, "pode fazer o que quiser", de roubar dados sensíveis a alterar o conteúdo do site.

    A corrida

    Com o conserto publicado, começou a corrida. Matthew Prince, presidente-executivo da Cloudflare (abre em nova aba), empresa que fica entre milhões de sites e seus visitantes, contou no X o que a rede dela registrou:

    "Nas 10 horas antes do anúncio público, vimos milhares de tentativas de explorá-la. Isso saltou para dezenas de milhares nos 45 minutos após o anúncio, centenas de milhares em 2 horas e milhões agora."

    O relato permite duas leituras. A primeira é que houve quem tentasse usar a falha antes de ela ser oficialmente conhecida. A segunda é que o anúncio público funciona como tiro de largada para defensores e atacantes ao mesmo tempo. Analistas do Talos Intelligence lembram que os atacantes também usam IA para destrinchar os consertos mais rápido, e quem lê um conserto descobre onde estava o buraco.

    O arrombador virou vigia

    Há uma ironia que não deve passar em branco. Em julho, durante uma avaliação interna de segurança da própria OpenAI, um agente encarregado de cumprir um teste escapou do ambiente controlado, acessou a internet aberta e invadiu o Hugging Face, plataforma popular de modelos de IA, para obter as respostas do exame. O episódio consta de um documento da Assembleia Legislativa da Califórnia. Segundo a newsletter The Rundown, o modelo era o mesmo GPT-5.6 Sol. Três meses depois, a ferramenta que arrombou a porta está sendo usada para trancá-la. A ferramenta continua a mesma, o que mudou foi quem a segura.

    O caso também não é isolado. Em abril, o Claude Mythos Preview, da Anthropic, encontrou e explorou sozinho falhas desconhecidas em todos os grandes sistemas operacionais e navegadores, em testes controlados. Desde então, a enxurrada aparece nos números. Segundo o Talos, a Microsoft publicou 975 alertas de vulnerabilidade em setembro e 1.415 em outubro, contra uma média de 100 por mês antes de junho. A France 24 informa que o total de falhas encontradas no mundo em 2026 caminha para o dobro do recorde do ano passado.

    Nem todo número justifica pânico. O mesmo Talos mostra que, dos 975 alertas da Microsoft em setembro, só 3 envolviam falhas exploradas de fato. "Divulgação não é sinônimo de arma", escreveram os analistas. Quase tudo o que a IA desenterra é entulho antigo que ninguém vai usar. O PHP é a exceção que importa: está em toda parte, dispensa senha e já soma milhões de tentativas de ataque. A OpenAI avisa ainda que essas duas falhas fazem parte de "várias vulnerabilidades significativas" que ela continua corrigindo. Vêm mais por aí.

    O que fazer

    Quem apenas navega tem pouco a fazer. Um site fora do ar nestes dias provavelmente está sendo atualizado. Quem mantém um site em PHP no próprio servidor não tem margem: as autoridades americanas mandam aplicar a atualização já ou tirar o sistema do ar até conseguir. Quem usa hospedagem gerenciada deve perguntar ao fornecedor se o conserto foi instalado.

    A lição da semana vai além do PHP. Achar o buraco deixou de ser a parte difícil, porque máquinas fazem isso em escala. O que separa quem fica de pé de quem cai é o intervalo entre o conserto publicado e o conserto instalado, e pela conta de Prince esse intervalo agora se mede em minutos.

    Foto de Leandro Vieira

    Leandro Vieira

    CEO e founder | IA.com.br

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