Um estudante de 29 anos de Sydney, na Austrália, está preso por causa de algo que disse a um chatbot. Segundo um documento policial apresentado à Justiça, David Lan Thackray contou ao Claude (abre em nova aba), assistente de inteligência artificial da Anthropic (abre em nova aba), que iria "descer agora até o Westfield daqui e atirar na creche do local". Westfield é uma rede de shopping centers. Thackray foi detido na manhã de domingo, 18 de outubro, depois que a Interpol (abre em nova aba) sinalizou as conversas.
Ele foi acusado de "usar um serviço de telecomunicação para ameaçar, assediar ou ofender", crime previsto na lei australiana. Na segunda-feira, 19, o Tribunal Local de Sutherland determinou que ele continue preso até passar por uma avaliação de saúde mental. Ainda não há condenação. O que se sabe vem do relato policial e dos argumentos de acusação e defesa, publicados primeiro pelo Sydney Morning Herald.
O que diz a acusação
Thackray mora em Hurstville, no sul de Sydney. Segundo a polícia, ele falou em atirar em várias crianças numa creche perto de casa. Nas mesmas conversas, citou Naveed Akram, acusado de participar do ataque de dezembro de 2025 contra uma celebração de Hanukkah na praia de Bondi, que deixou 15 mortos. O pai de Naveed, Sajid Akram, foi morto pela polícia no local. O filho responde, entre outras acusações, por 15 homicídios.

Para a promotoria, a menção não foi por acaso. "O que ele pretende é começar a matar pessoas em Sydney, assim como o [suposto] terrorista fez em Bondi", disseram os promotores no tribunal. Eles alertaram que soltá-lo poderia ter um desfecho "catastrófico" caso ele descumprisse as condições da fiança. E completaram: "Estamos entendendo o que se passa na cabeça dele pelas interações com o chatbot."
Essa última frase resume bem o caso. A conversa com uma IA deixou de ser apenas uma conversa e passou a funcionar, para a Justiça, como uma janela para a intenção de alguém.
O que diz a defesa
O advogado Danilo Rajkovic apresenta outra versão. Segundo ele, Thackray tentava usar o Claude para tratar uma infecção no ouvido e, estressado e frustrado, explodiu num desabafo. "Não havia peso algum no que ele dizia", afirmou. A defesa argumenta ainda que o cliente não pediu ao chatbot que ameaçasse nenhuma pessoa ou organização e que acreditava estar numa conversa privada, dentro da própria casa.
Pelo que o tribunal ouviu, Thackray usava o modo de voz do Claude, em que a pessoa fala em voz alta com o assistente em vez de digitar. Depois, recebeu um e-mail avisando que sua conta tinha sido suspensa e pediu uma revisão da decisão. O advogado diz que ele estuda relações internacionais, não tem antecedentes criminais e vive na Austrália há mais de 17 anos.
O caminho até a polícia segue sem explicação
A peça que falta na história é justamente a mais importante para quem usa esses serviços. Não se sabe como a Interpol teve acesso às conversas nem se foi a própria Anthropic quem as encaminhou. Nem a empresa nem a polícia detalharam esse percurso publicamente.
O que a Anthropic diz, de forma geral, é que o Claude é treinado para recusar pedidos de planejamento ou incitação à violência e que a empresa pode compartilhar dados com autoridades em emergências. Em setembro, ela publicou um relatório afirmando que sua equipe de inteligência de ameaças identificou e desmontou, entre dezembro de 2025 e agosto de 2026, operações de pessoas que tentavam usar o Claude para fins maliciosos.
Seu chatbot não é seu diário
O argumento de que Thackray "achava que estava em privado" diz mais sobre como as pessoas enxergam esses assistentes do que sobre o caso em si. Chatbots viraram confidentes, inclusive de gente em sofrimento psíquico. Conversas longas com essas ferramentas já foram associadas a crimes, entre eles um caso de assassinato seguido de suicídio. O modo de voz reforça a ilusão: falar em voz alta, sozinho em casa, parece pensar alto. Só que do outro lado há uma empresa, com regras, sistemas de vigilância e uma política declarada de cooperação com a polícia.
Na minha avaliação, sinalizar alguém que diz que vai atirar numa creche "agora" é exatamente o que a maioria das pessoas espera de uma empresa de tecnologia. Se o alerta não tivesse sido dado e algo tivesse acontecido, a revolta seria muito maior.
Isso não elimina dois incômodos legítimos. O primeiro é a falta de transparência: quem leu a conversa, se uma pessoa ou um sistema automático, e a partir de que ponto uma frase vira caso de polícia internacional. O segundo é jurídico e vai ficar para o tribunal. A acusação é de usar um serviço de comunicação para ameaçar, mas, como lembra a defesa, a mensagem não foi dirigida a ninguém. Resta saber se é possível ameaçar alguém quando quem escuta é um software.
O processo volta ao tribunal depois da avaliação de saúde mental. Qualquer que seja o resultado, quem conversa com uma IA precisa saber que pode estar sendo ouvido por mais alguém.


