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    NotíciaPesquisa e ciência

    GPT-6 edita 0,016% de outra IA sem treino e multiplica sua nota de matemática por 6

    Pesquisadores do MIT mostram que o modelo GPT-6 Astra consegue ler e reescrever diretamente os números internos de outras redes neurais, corrigindo defeitos sem precisar de retreinamento.

    Matriz holográfica de números azuis em fundo escuro, com um feixe de laser dourado alterando uma pequena fração dos dados que passa a brilhar e projetar fórmulas matemáticas.
    Edição cirúrgica diretamente nos pesos internos de redes neurais permite corrigir falhas e ampliar a capacidade matemática de outros modelos sem necessidade de retreinamento.

    Na segunda-feira (2), quatro pesquisadores do laboratório de ciência da computação e inteligência artificial do MIT (CSAIL) demonstraram algo que a engenharia humana considerava impraticável. Eles pediram ao modelo GPT-6 Astra, da OpenAI (abre em nova aba), que consertasse o desempenho em matemática de uma inteligência artificial menor, o modelo aberto Qwen3.5-0.8B. Sem rodar ciclos de treinamento e sem usar exemplos de estudo, o Astra abriu a estrutura interna do Qwen, alterou exatamente 0,016% dos seus números e fez a nota da máquina na prova matemática MATH-500 saltar de 7,9% para 48,1%.⁠​‌​​‌​​‌​‌​​​​​‌​​‌​‌‌‌​​‌‌​​​‌‌​‌‌​‌‌‌‌​‌‌​‌‌​‌​​‌​‌‌‌​​‌‌​​​‌​​‌‌‌​​‌​​‌‌‌‌‌​​​​‌‌​‌​‌​​‌‌​​‌‌​‌‌​​‌​​​​‌‌​‌​‌​​‌‌​‌​‌​​‌‌​​​​​​‌‌​​​‌​​‌‌‌​​​​​‌​‌‌​‌​‌‌​​‌​​​​‌‌​‌​‌​​‌‌​​​​​​‌‌​‌​‌​​‌​‌‌​‌​​‌‌​‌​​​​‌‌​​​‌​​‌‌​‌​​​​‌‌​‌​​​​‌​‌‌​‌​‌‌​​​​‌​‌‌​​‌‌​​​‌‌​​​​​​‌‌​​​​​​‌​‌‌​‌​​‌‌​​‌‌​‌‌​​‌​​​​‌‌​‌​​​‌‌​​​‌​​‌‌​​​​‌​‌‌​​‌​‌​‌‌​​‌‌​​​‌‌​​‌‌​‌‌​​‌​‌​​‌‌​‌‌‌​​‌‌​​‌​​​‌‌​‌‌‌⁠

    Para entender o tamanho da heresia técnica, convém lembrar como as máquinas funcionam até hoje. O cérebro de uma inteligência artificial é uma imensa tabela de números chamados pesos. Nenhum ser humano edita esses números no braço, porque ninguém sabe o que cada fração isolada significa no meio de milhões ou bilhões de conexões. Quando um modelo erra, os engenheiros o submetem a uma maratona de tentativa e erro guiada por fórmulas matemáticas (o chamado gradiente descendente) para empurrar os pesos na direção certa. Os pesquisadores Rikiya Takehi, Jayden Teoh, Alex Zhang e Omar Khattab pularam essa etapa inteira na técnica que batizaram de programação no espaço de pesos (Weight-Space Programming).

    O procedimento lembra uma neurocirurgia feita sobre planilhas. O próprio manual de fábrica do Qwen3.5-0.8B avisava que o modelo sofria de um tique nervoso digital: ao tentar raciocinar, ele entrava em voltas repetitivas e perdia o fio da meada. O GPT-6 Astra inspecionou os pesos brutos do modelo menor, localizou onde morava o defeito lógico e aplicou um remendo direto via código Python. Além de multiplicar por seis o acerto em matemática, o conserto cirúrgico triplicou a capacidade do Qwen de seguir instruções gerais no teste IFEval.

    Leitura de mente em código binário

    Na comunidade de desenvolvedores, a façanha foi comparada a olhar para uma parede de zeros e uns de um programa fechado, adivinhar na hora para que ele serve e consertar uma falha sem abrir o código-fonte. Nos testes de laboratório do MIT, o Astra provou que sabe ler essas matrizes às cegas:⁠​‌​​‌​​‌​‌​​​​​‌​​‌​‌‌‌​​‌‌​​​‌‌​‌‌​‌‌‌‌​‌‌​‌‌​‌​​‌​‌‌‌​​‌‌​​​‌​​‌‌‌​​‌​​‌‌‌‌‌​​​​‌‌​‌​‌​​‌‌​​‌‌​‌‌​​‌​​​​‌‌​‌​‌​​‌‌​‌​‌​​‌‌​​​​​​‌‌​​​‌​​‌‌‌​​​​​‌​‌‌​‌​‌‌​​‌​​​​‌‌​‌​‌​​‌‌​​​​​​‌‌​‌​‌​​‌​‌‌​‌​​‌‌​‌​​​​‌‌​​​‌​​‌‌​‌​​​​‌‌​‌​​​​‌​‌‌​‌​‌‌​​​​‌​‌‌​​‌‌​​​‌‌​​​​​​‌‌​​​​​​‌​‌‌​‌​​‌‌​​‌‌​‌‌​​‌​​​​‌‌​‌​​​‌‌​​​‌​​‌‌​​​​‌​‌‌​​‌​‌​‌‌​​‌‌​​​‌‌​​‌‌​‌‌​​‌​‌​​‌‌​‌‌‌​​‌‌​​‌​​​‌‌​‌‌‌⁠

    • Detetive de jogos: os cientistas entregaram ao Astra uma pequena rede neural com 17.253 pesos, sem nenhuma ferramenta de apoio, e perguntaram para qual finalidade ela havia sido treinada. Apenas lendo os números puros, o modelo cravou com 99% de confiança que a rede jogava o clássico Breakout.
    • Mecânico de uma tacada só: em outro experimento, uma rede treinada para guiar um carrinho virtual empacava sempre diante de uma rampa (0% de sucesso). O Astra editou 3,5% dos pesos de uma só vez. O carrinho passou a dar ré, pegar impulso e saltar o obstáculo em 100% das tentativas.
    • Criação do zero: quando recebeu a ordem de escrever do nada os pesos de uma rede para jogar videogame, sem poder testar o jogo no caminho, o Astra entregou matrizes prontas que derrotaram redes treinadas pelo método tradicional durante 100 milhões de etapas.

    Como o IA.com.br tem registrado na cobertura sobre a evolução dos modelos de fronteira, a automação da pesquisa em inteligência artificial está trocando a força bruta pelo raciocínio direto. Há apenas oito meses, o debate girava em torno de colocar máquinas para programar e rodar baterias autônomas de treinamento em grandes centros de dados. A descoberta do MIT corta esse intermediário: uma máquina grande simplesmente edita a mente numérica de uma máquina menor.

    O fenômeno tampouco é exclusividade do sistema da OpenAI. Na terça-feira (3), o pesquisador Chandan Singh publicou testes independentes usando o modelo Claude, da Anthropic (abre em nova aba), como agente autônomo. A regra era a mesma: preencher do zero cada peso de pequenas redes neurais, sem treinamento algum. Ao longo de 13 tarefas, o Claude escreveu 959 programas diretamente nos pesos e atingiu 100% de precisão em todos os dez desafios de algoritmos (como soma, multiplicação e ordenação) em no máximo três tentativas. Em um dos casos, montou uma rede de 174 parâmetros (apenas 35 diferentes de zero) e entregou o mapa exato do que cada neurônio calculava.

    Em 2019, o cientista Richard Sutton formulou a "Lição Amarga" da inteligência artificial: truques desenhados por humanos sempre perdem, no longo prazo, para o ganho de escala computacional. Durante décadas, os engenheiros se consolaram com o fato de que pelo menos as fórmulas de otimização (como os algoritmos Adam e Muon) eram escritas por gente de carne e osso. Agora, em um momento em que o mercado financeiro olha com nervosismo para faturas de computação na casa das centenas de bilhões de dólares, a própria máquina começa a aposentar as fórmulas humanas de treinamento. A caixa-preta da inteligência artificial continua opaca para os seus criadores, mas acaba de virar um livro aberto para ela mesma.⁠​‌​​‌​​‌​‌​​​​​‌​​‌​‌‌‌​​‌‌​​​‌‌​‌‌​‌‌‌‌​‌‌​‌‌​‌​​‌​‌‌‌​​‌‌​​​‌​​‌‌‌​​‌​​‌‌‌‌‌​​​​‌‌​‌​‌​​‌‌​​‌‌​‌‌​​‌​​​​‌‌​‌​‌​​‌‌​‌​‌​​‌‌​​​​​​‌‌​​​‌​​‌‌‌​​​​​‌​‌‌​‌​‌‌​​‌​​​​‌‌​‌​‌​​‌‌​​​​​​‌‌​‌​‌​​‌​‌‌​‌​​‌‌​‌​​​​‌‌​​​‌​​‌‌​‌​​​​‌‌​‌​​​​‌​‌‌​‌​‌‌​​​​‌​‌‌​​‌‌​​​‌‌​​​​​​‌‌​​​​​​‌​‌‌​‌​​‌‌​​‌‌​‌‌​​‌​​​​‌‌​‌​​​‌‌​​​‌​​‌‌​​​​‌​‌‌​​‌​‌​‌‌​​‌‌​​​‌‌​​‌‌​‌‌​​‌​‌​​‌‌​‌‌‌​​‌‌​​‌​​​‌‌​‌‌‌⁠

    Foto de Leandro Vieira

    Leandro Vieira

    CEO e founder | IA.com.br

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