O governo de Donald Trump mandou tirar a DeepSeek (abre em nova aba) dos computadores das agências civis federais americanas. A DeepSeek é uma startup chinesa de inteligência artificial que desenvolve modelos de IA e mantém um aplicativo com o próprio nome. A ordem saiu do Departamento de Segurança Interna (DHS, na sigla em inglês). Ela proíbe a compra de qualquer produto ou serviço da Hangzhou DeepSeek Artificial Intelligence e de suas afiliadas. Também exige a remoção do que já estiver instalado, inclusive de produtos de outras empresas construídos com os modelos da DeepSeek. O aviso foi protocolado na segunda-feira (19) e sai publicado hoje no Federal Register (abre em nova aba), o diário oficial do governo americano.
O dado que muda a leitura do caso está no anexo: a ordem não é nova. O secretário de Segurança Interna, Markwayne Mullin, assinou-a com data de 24 de julho, segundo a Bloomberg e a leitura do documento feita pelo blog da CellCog. O CyberScoop menciona uma carta de Mullin datada de 26 de junho. Qualquer que seja a data certa, a proibição já valia havia meses quando o público soube dela. A BBC situa o início da vigência no fim de julho.
Para quem usa o DeepSeek no Brasil, nada muda do ponto de vista legal, porque a regra vale apenas para órgãos federais civis dos Estados Unidos. Muda para empresas, inclusive estrangeiras, que vendem tecnologia ao governo americano com algum componente da DeepSeek dentro. E há um motivo para qualquer usuário prestar atenção. Os argumentos de Washington para tirar o DeepSeek das repartições são dados guardados na China e coleta de informações pessoais. Esses argumentos se referem à versão operada pela própria empresa, que é a mesma usada por qualquer pessoa que abre o aplicativo.

O que a ordem determina
A base legal é uma lei de 2018 sobre segurança da cadeia de fornecedores nas compras do governo, o Federal Acquisition Supply Chain Security Act. A decisão veio depois de uma análise do conselho federal que cuida do assunto, o Federal Acquisition Security Council. A ordem tem três partes:
- Compras proibidas. Nenhuma agência civil pode adquirir produtos da DeepSeek ou de afiliadas. O veto vale também para listas de fornecedores pré-aprovados e para os marketplaces de compras do governo. Segundo a Bloomberg, a empresa também fica fora dos contratos federais.
- Remoção obrigatória. Saem dos sistemas os produtos da DeepSeek e os de terceiros "desenvolvidos usando implementações da DeepSeek".
- Exceção difícil. A agência pode pedir para continuar usando, mas precisa apresentar por escrito uma "justificativa convincente", com 60 dias de antecedência, segundo o CyberScoop. Quem aprova ou recusa é a CISA, a agência de cibersegurança do DHS.
Enquanto a remoção não termina, as agências são "encorajadas" a monitorar o tráfego de dados, registrar os acessos e controlar a saída de informações. A Reuters informa que um memorando de julho, também divulgado agora, já mandava vigiar o fluxo de dados que entra e sai dos sites do governo.
Ficam de fora o Departamento de Defesa, os sistemas de segurança nacional e os de informação sigilosa compartimentada. Segundo a BBC, a regra alcança o Tesouro, o Departamento de Estado e o de Justiça, entre outros.
As razões apresentadas pelo governo
Mullin escreveu que os modelos da DeepSeek representam "múltiplos vetores de ameaça". Os argumentos do DHS são quatro:
- Os servidores da DeepSeek ficam na China, onde as leis de segurança nacional dão ao governo ampla margem para pedir e obter dados de empresas locais.
- Os modelos operados diretamente pela DeepSeek coletam informações que identificam o usuário e rastreiam sua "impressão digital" eletrônica.
- O simples vaivém de perguntas e respostas "pode resultar na transferência de dados sensíveis" ao governo chinês. Segundo o DHS, isso "poderia produzir inteligência acionável sobre cidadãos americanos e/ou programas do governo".
- "Os próprios modelos podem conter malware ou outras vulnerabilidades de segurança."
Como prova, segundo a CellCog, a ordem cita três documentos públicos: a política de privacidade da DeepSeek, um relatório de 16 de abril de 2025 do comitê da Câmara dos Representantes dedicado ao Partido Comunista Chinês e uma análise de 6 de fevereiro de 2025 da empresa de segurança NowSecure.
O que a ordem deixa sem resposta
A cautela é defensável. Um governo não precisa esperar um vazamento para decidir que funcionários públicos não devem digitar assuntos de Estado num serviço cujos servidores ficam em Pequim. O problema está em outro lugar.
O primeiro é o tempo. A evidência mais antiga citada é de fevereiro de 2025, a ordem é de julho de 2026 e o aviso público, de outubro. Washington levou um ano e meio para decidir e mais três meses para contar. A contagem dos 60 dias para pedir exceção mostra o custo do silêncio. Se começar em 24 de julho, o prazo terminou em 22 de setembro. A conta é da CellCog, porque o aviso não traz essa data. Quem dependia da publicação oficial para conhecer as regras só as recebeu depois do vencimento.
O segundo é o alcance. Três dos quatro argumentos tratam da versão hospedada pela DeepSeek: servidores na China, coleta de dados, envio de informações a cada pergunta. A remoção, porém, alcança também produtos de terceiros construídos com os modelos da empresa, que não necessariamente passam pelos servidores chineses. Para esses, o fundamento que resta é o quarto item, redigido como hipótese: os modelos "podem conter" malware. A BBC observou que o resumo publicado não detalha as preocupações exatas de segurança. A regra é ampla, e a justificativa para a parte mais ampla dela é uma possibilidade.
Das proibições avulsas à regra geral
O governo americano já vinha fechando portas aos poucos. No ano passado, o Departamento de Comércio proibiu o DeepSeek em aparelhos oficiais e a Marinha mandou seus integrantes não usá-lo. Estados como Nova York, Tennessee e Virgínia tomaram medidas parecidas. A novidade é a escala: em vez de um órgão aqui e outro ali, a ordem cobre todo o Executivo civil federal e inclui as compras, não só os aparelhos.
O texto ficou aquém do que a Casa Branca chegou a cogitar. Segundo o Politico, o governo Trump estudou neste ano proibir modelos chineses de IA, DeepSeek incluído, em todo o território americano, e recuou diante da reação do setor de tecnologia do país. Michael Kratsios, responsável pela área de tecnologia na Casa Branca, escreveu num memorando interno citado pela BBC que vinha ocorrendo "exploração maliciosa" de empresas americanas de IA, principalmente por concorrentes chinesas. Entre o discurso duro e a proibição nacional, o governo ficou com a versão que atinge apenas a própria máquina pública. Essa é a única que não exige enfrentar a indústria.
A DeepSeek não comentou. Na semana passada, segundo a SiliconANGLE, a empresa lançou uma nova versão de seus modelos, a V4.1 Flash-1017. A embaixada chinesa em Washington também não se manifestou de imediato.


