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    NotíciaRobótica e dispositivos

    Google lança Gemini 4 Argon para robôs, e teste independente mostra limites

    O Google anunciou o Gemini 4 Argon, modelo de raciocínio físico voltado à robótica, com 87% no benchmark ERQA medido pela própria empresa. Uma avaliação independente em robô real colocou o modelo em terceiro lugar.

    Braço robótico tenta encaixar um plugue em uma tomada sobre bancada de laboratório, enquanto engenheiro confere lista de acertos durante avaliação prática
    Avaliação prática em robô real testou limites do novo modelo de raciocínio físico do Google, que ficou em terceiro lugar no teste independente
    Neste artigo

    Em 13 de outubro de 2026, o Google lançou um modelo de inteligência artificial com uma ambição pouco comum: não escrever textos nem responder perguntas, mas fazer robôs entenderem e executarem ações no mundo físico. O anúncio do Google (abre em nova aba) descreve o Gemini 4 Argon como um modelo de "raciocínio físico" de uso geral, capaz de gerar código para controlar robôs, construir simulações a partir de fotos e vídeos e julgar se uma ação robótica foi bem ou mal executada. Kanishka Rao, engenheiro principal do Google DeepMind, classifica o lançamento como um salto em direção à chamada "AGI física", um estágio em que a IA lida com tarefas do mundo real com a mesma generalidade que os modelos atuais mostram com linguagem. Essa é a promessa. O que os testes até agora mostram é mais matizado.

    O que o modelo se propõe a fazer

    Os modelos de IA que o público conhece trabalham com texto, imagem e som. O Argon ataca um problema mais duro: traduzir percepção em movimento. Segundo o Google, ele serve para o "ciclo de vida" inteiro da robótica, desde criar simulações de treino até dirigir o robô em tempo real. Os exemplos publicados pela empresa incluem quatro frentes: controle direto de robôs, conversão de imagens do mundo real em simulações, compreensão física de cenas e ferramentas para pesquisas com autoaprimoramento.

    O resultado de maior destaque vem de um teste chamado ERQA, sigla em inglês para "Raciocínio Encarnado, Perguntas e Respostas". É um exame de perguntas sobre problemas físicos e espaciais em ambientes tridimensionais: onde um objeto está, como se move, o que acontece se algo for empurrado. São 400 questões, respondidas sem ferramentas auxiliares. O Google afirma que o Argon, usando apenas raciocínio, atingiu 87% e superou todos os demais modelos de ponta.

    Braço robótico em laboratório posicionado sobre uma mesa com pequenos objetos, avaliando sua disposição antes de empurrá-los em teste de raciocínio espacial, sob luz branca uniforme
    Braço robótico realiza teste de raciocínio espacial em laboratório, cenário semelhante ao benchmark usado para avaliar modelos voltados à robótica

    Vale uma ressalva: o número foi medido pelo próprio Google. O veículo The Decoder, que analisou o anúncio em 15 de outubro, cites o gráfico da empresa para listar os colocados atrás: Claude Opus 5.5 com 82,3%, GPT-6 Astra com 81% e Claude Fable 5.1 com 74%. Ou seja, os comparáveis vêm da empresa interessada, não de avaliação independente.

    O vídeo que virou arremesso

    A demonstração mais chamativa aparece no comunicado de produto do Google (abre em nova aba): cornhole, um jogo norte-americano em que a pessoa arremessa sacos de grãos tentando acertar um furo em uma prancha inclinada. Em um teste interno descrito pela empresa, o Argon assistiu a um vídeo cru de um humano jogando, mapeou coordenadas espaciais, calculou os movimentos das juntas do corpo inteiro e escreveu o código de uma simulação. Transferido para o Apollo, humanoide da fabricante Apptronik, o robô acertou sete arremessos consecutivos em teste real.

    O Google DeepMind resumiu a sequência em sua rede social:

    O Gemini 4 Argon ensinou um robô a jogar cornhole apenas assistindo a um vídeo. Ele mapeou a física, criou sua própria simulação e ensinou o humanoide Apollo, da @Apptronik, a acertar 7 arremessos seguidos.

    — Google DeepMind (@GoogleDeepMind), 13 de out. de 2026, no X

    A empresa batiza esse caminho de "Vídeo-Simulação-Real" e afirma que ele comprime semanas de modelagem manual de simulação em poucas horas. São alegações do Google sobre um teste interno, ainda não confirmadas por terceiros.

    Outros exemplos publicados completam o quadro. O Argon controlou o Spot, robô quadrúpede da Boston Dynamics, para pisar em um pedal de lixeira depois de treinar em MuJoCo, um simulador de física usado em pesquisas de robótica. Dirigiu o modelo Gemini Omni por 33 etapas para soletrar A-R-G-O-N com peças de jogo de tabuleiro. A partir de uma única foto comum de uma mesa, sintetizou mais de 4.500 episódios simulados; ao treinar um robô real com esse material, a taxa de sucesso subiu de 56% para 75% e o tempo de conclusão caiu de 35 para 24 segundos, sempre segundo o Google. Em braços robóticos de seis graus de liberdade (uma medida técnica de quantos movimentos independentes a máquina tem), tarefas de pegar e soltar encurtaram de 58,9 segundos para 17,4 segundos ao longo das repetições.

    O teste independente aponta na direção contrária

    Um dia depois do anúncio, em 14 de outubro, a empresa de avaliação Artificial Analysis publicou o AA-Robotics v0.1 (abre em nova aba), uma bateria de testes em que cada modelo recebe o controle de um braço robótico de seis eixos e oito tarefas simples de mesa, executadas direto em um robô real, sem treino prévio. Os resultados divergem do benchmark do Google.

    ModeloMédia nas oito tarefas (0 a 100)
    GPT-6 Astra69,4
    GPT-6.1 Sol64,6
    Gemini 4 Argon55,3
    Claude Opus 5.548,8
    Claude Fable 5.146,3

    O Argon ficou em terceiro lugar. Foi também o mais lento dos cinco: 52 minutos em média por tarefa, com 21 minutos gastos antes da primeira ação. Em tentativas de pegar objetos em seis tarefas, teve sucesso em 36% de 75 tentativas. A Artificial Analysis conclui que os modelos de linguagem de hoje são cerca de 100 vezes mais lentos que um humano, meia hora por tarefa contra 20 segundos de uma pessoa, e que isso os torna lentos e caros demais para uso em produção. Para comparação de custo, o GPT-6 Astra gastou em média US$ 16,36 por tarefa e o GPT-6.1 Sol, US$ 1,93.

    Duas avaliações, dois retratos. No papel, o Argon lidera. Com as mãos em um robô de verdade, ficou no meio da tabela. A diferença tem explicação parcial: o ERQA mede raciocínio sobre cenas, enquanto o AA-Robotics mede velocidade, custo e execução física, e os dois conjuntos de habilidades ainda não andam juntos.

    Prompts escritos à mão

    The Decoder apontou outra limitação nos exemplos do Google. As demonstrações ainda dependem de orientação humana detalhada: a tarefa de "controle direto" anunciada como zero-shot (ou seja, executada sem treino prévio) recebe uma imagem de câmera com uma grade em centímetros e comandos prontos, como o de agarrar. Os prompts de simulação vêm com longas listas de proibições, instruções do que o modelo não deve fazer. O Google também não divulgou taxas de falha das demonstrações individuais, e a taxa de sucesso de 75% da foto em simulação aparece sem o número total de tentativas em que se baseia. Nenhuma dessas observações invalida os resultados; elas os delimitam.

    O que já está no mercado

    Robôs à parte, o modelo em si é produto. O Google afirma que o Argon está disponível globalmente para desenvolvedores e empresas pela Gemini API, a interface paga em que programas de computador consomem o modelo, além dos assinantes nas ferramentas Google Antigravity, no aplicativo Gemini e no AI Mode da Busca, com restrições: o app e o AI Mode pedem assinatura Ultra ou Pro, e o Antigravity exige Ultra.

    No período introdutório, o custo é de US$ 2 por milhão de tokens de entrada e US$ 10 por milhão de tokens de saída, com entrada em cache 95% mais barata. Tokens são as unidades de texto com que se mede o consumo de um modelo; um milhão de tokens equivale a algumas centenas de milhares de palavras. A partir de 1º de dezembro, o preço passa a US$ 4 por milhão de tokens de entrada e US$ 20 por milhão de tokens de saída, para o modelo de acesso público.

    Perguntas frequentes

    O que é o benchmark ERQA?

    É um teste de 400 perguntas sobre problemas físicos e espaciais em ambientes 3D, respondidas pelo modelo sem ferramentas auxiliares. O Google informa que o Argon acertou 87%, mas a medição é da própria empresa.

    O Argon já controla robôs sozinhos em situações reais?

    Não de forma autônoma e confiável. Os exemplos do Google dependem de prompts humanos detalhados, e no teste independente da Artificial Analysis o modelo levou em média 52 minutos por tarefa e acertou 36% das tentativas de pegar objetos.

    Quanto custa usar o Gemini 4 Argon?

    Até 30 de novembro de 2026, US$ 2 por milhão de tokens de entrada e US$ 10 por milhão de tokens de saída pela Gemini API, com entrada em cache 95% mais barata. Depois dessa data, os preços passam a US$ 4 e US$ 20 por milhão, respectivamente.

    Os números do Google foram confirmados por terceiros?

    Os 87% no ERQA são medição do próprio Google, com os rivais posicionados pelo gráfico da empresa. A única avaliação independente conhecida até agora, a AA-Robotics da Artificial Analysis, colocou o Argon em terceiro lugar entre cinco modelos em robô real.

    Foto de Leandro Vieira

    Leandro Vieira

    CEO e founder | IA.com.br

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