A fatura da inteligência artificial começou a aparecer onde o investidor comum raramente coloca os óculos: nas letras miúdas dos relatórios financeiros. Um levantamento publicado pelo jornal Nikkei Asia em 4 de novembro de 2026 mostra que cinco gigantes da tecnologia dos Estados Unidos (Alphabet, Microsoft (abre em nova aba), Amazon (abre em nova aba), Meta (abre em nova aba) e Oracle (abre em nova aba)) viram seus compromissos financeiros ligados à IA fora do balanço principal saltarem cerca de 90% em apenas seis meses, chegando à marca estimada de US$ 3,2 trilhões no fim de setembro. Na medição anterior, a conta estava em US$ 1,65 trilhão. Tudo é feito dentro da lei e comunicado à comissão de valores mobiliários americana (SEC), mas fica estacionado nas notas de rodapé, longe da vitrine principal onde se anunciam os lucros trimestrais.
Para entender o tamanho do apetite, essa montanha de US$ 3,2 trilhões em contas a pagar já equivale a cerca de 80% de todos os ativos somados das cinco corporações. Não se trata de empréstimos bancários tradicionais, mas do que o mercado chama de "dívida oculta" ou obrigações fora do balanço. Pelas regras contábeis vigentes, quando uma empresa assina um contrato de vários anos para comprar energia elétrica e processadores da Nvidia (abre em nova aba) (o que representa 60% desse bolo) ou fecha o aluguel de um galpão de servidores que ainda não foi inaugurado (os 40% restantes), ela não precisa registrar o valor total como dívida imediata até que a operação comece a rodar. É a velha arte de assinar a promissória no entusiasmo da feira e deixar o registro do susto para o dia em que o caminhão encostar na porta.
Quem carrega o piano mais pesado dessa procissão é a Alphabet, dona do Google (abre em nova aba). Sozinha, a empresa acumulava US$ 1,05 trilhão nessas obrigações futuras no fechamento de setembro, um volume cerca de 2,6 vezes maior que o registrado em março (ainda que o próprio Nikkei ressalte mudanças na metodologia de cálculo que dificultam a comparação direta). O problema é que o dinheiro já está saindo pelo ladrão no presente: a companhia completou três trimestres seguidos gastando mais na construção de infraestrutura do que consegue gerar de caixa com seus negócios. Apenas entre julho e setembro, os desembolsos de capital consumiram US$ 71,3 bilhões, deixando um rombo no fluxo de caixa livre de aproximadamente US$ 29 bilhões.
A contabilidade criativa dos galpões
Na Meta, a engenharia financeira desenhada para erguer data centers mostra o grau de sofisticação da manobra. Em um recorte anterior do estudo, divulgado em julho, os compromissos futuros da companhia de Mark Zuckerberg com IA somavam cerca de US$ 420 bilhões, enquanto sua dívida de longo prazo declarada oficialmente no balanço principal era de US$ 58,7 bilhões. Para levantar o centro de dados Hyperion, no estado da Louisiana, a empresa se associou à gestora Blue Owl Capital para criar uma estrutura independente que tomou os empréstimos e bancou a obra; a Meta entrou como inquilina única comprometida a pagar os boletos, mantendo o financiamento fora da sua folha de rosto. Quem acompanha os bastidores do setor no IA.com.br nota que a disputa pela liderança tecnológica se transformou, na prática, em um campeonato de fôlego contábil.
| Indicador apurado pelo levantamento | Valor / Proporção |
|---|---|
| Total de obrigações fora do balanço (5 empresas) | ~US$ 3,2 trilhões |
| Crescimento acumulado em 6 meses | ~90% (de US$ 1,65 trilhão) |
| Peso sobre o total de ativos combinados | ~80% |
| Fatia de compras futuras (chips, servidores e energia) | 60% do total |
| Fatia de aluguéis de instalações ainda não iniciados | 40% do total |
| Compromissos futuros da Alphabet (setembro de 2026) | US$ 1,05 trilhão |
| Déficit de caixa livre da Alphabet (3º trimestre) | ~US$ 29 bilhões |
Nos debates entre profissionais do Vale do Silício, a justificativa para tamanha gastança atende pelo nome de pavor de ficar para trás. Antes da febre da inteligência artificial, essas corporações nadavam em tanto dinheiro ocioso que sua maior ousadia financeira consistia em recomprar as próprias ações na bolsa. Agora, executivos operam sob a premissa de que é mais seguro errar pelo excesso e, se a bolha estourar, usar o prejuízo para abater impostos pela próxima década. Resta combinar essa tese com os acionistas, que começam a se alarmar com uma conta de luz, silício e concreto que dobra a cada semestre sem data para terminar.


