Desde 28 de outubro, o Google tem o modelo de inteligência artificial mais bem colocado no ranking mais citado do setor. Quase ninguém pode usá-lo. O Gemini 4 Carbon (abre em nova aba) fez 59 pontos no Intelligence Index v5 da Artificial Analysis (abre em nova aba), uma avaliadora independente, e ficou com o primeiro lugar. Os primeiros a recebê-lo não serão programadores, empresas nem o usuário comum. Será um grupo escolhido de defensores cibernéticos, profissionais pagos para proteger sistemas contra invasores.
O que quer dizer "a mais poderosa"
"A IA mais poderosa do mundo" é uma frase que cabe num post e não cabe numa tabela. O índice da Artificial Analysis é uma média de nove provas, que vão de raciocínio científico a automação de tarefas. O Carbon lidera quatro delas e, nas outras cinco, perde para alguém. A própria avaliadora escreveu que ele "não lidera em programação e em trabalho intelectual". A vantagem sobre o segundo colocado é de um ponto. Segundo a newsletter The Rundown, foi o Claude Opus 5.5 quem perdeu o posto. A tabela publicada pelo Google DeepMind (abre em nova aba), que é parte interessada, mostra o placar:
| Modelo | Pontos no índice v5 |
|---|---|
| Gemini 4 Carbon | 59 |
| Claude Opus 5.5 | 58 |
| GPT-6 Astra | 57 |
| Gemini 4 Argon | 50 |
| Claude Fable 5.1 | 49 |
O salto mais curioso aconteceu dentro de casa. O Argon, que o próprio Google lançou duas semanas antes, marcava 50. São nove pontos em quinze dias. Nesse ritmo, um modelo de ponta envelhece antes de o público aprender o nome dele.

Na programação, o Carbon fica atrás. No índice da Artificial Analysis que mede agentes de código, programas que escrevem e corrigem software com pouca supervisão, ele marca 59. O Claude Code rodando o Opus 5.5 faz 62. Numa avaliação de tarefas de escritório da mesma casa, a AA-Briefcase, o modelo do Google aparece em quarto, atrás de Kimi K3.1 Pro, Muse Wonder e Grok 4.7.
Bom demais para sair da caixa
O Carbon dispara mesmo é na segurança digital. Segundo o Google, ele acertou 88,2% num teste de encontrar falhas em software (SEC-bench Pro), 54,8% num teste de explorá-las (ExploitGym) e 71% num de consertá-las (CWE-bench). A empresa informa que esses testes foram feitos "sem salvaguardas", isto é, com as travas desligadas. Um modelo que acha o buraco na parede e sabe passar por ele serve tanto ao vigia quanto ao ladrão. A equipe do Chrome, o navegador do Google, diz que o Carbon produziu correções de alta qualidade com desempenho mais de dez vezes superior ao do "grande modelo de fronteira de outro laboratório". Não diz qual.
Daí a fila. O Google afirma ter submetido o modelo ao programa voluntário de testes do governo americano antes do lançamento. A partir da semana do anúncio, recebem acesso os defensores cibernéticos e, depois, parceiros de confiança, pelo chamado Programa Fairwind. Só então chegam desenvolvedores, empresas e consumidores, "o quanto antes". Data, não há. A Artificial Analysis confirma que o modelo ainda não está disponível ao público. Ao anunciá-lo no X, a conta oficial do Google deixou a fila explícita e o prazo, vago:
Apresentamos o Gemini 4 Carbon, nosso mais recente modelo de fronteira. O Carbon entrega desempenho melhor em várias áreas — fica em 1º lugar na versão 5.0 do Intelligence Index da @ArtificialAnlys e estabelece um novo estado da arte em cibersegurança e em capacidades de longo horizonte. Ele começa a ser liberado nesta semana para defensores cibernéticos por meio do nosso Programa Fairwind, com acesso ampliado em breve 🧵
O Google também diz que o Carbon resistiu a todas as tentativas num teste de "injeção indireta de instruções", em que ordens maliciosas vêm escondidas no conteúdo que o modelo lê, com 0,0% de sucesso dos ataques. A afirmação é da empresa, e ninguém de fora a conferiu até agora.
Inventa pouco, mas mais que o antecessor
Para quem usa IA no dia a dia, o número mais útil talvez seja outro. Na prova da Artificial Analysis que mede alucinação, quando o modelo inventa uma resposta, o Carbon fez isso em 11% das vezes. Piorou, porque o Argon ficava em 4%. Ainda assim, é a segunda menor taxa já medida pela avaliadora. O Opus 5.5 e o GPT-6 Astra, em suas versões mais potentes, chegaram a 50%.
O preço também tem letra miúda. O Google anuncia US$ 2 por milhão de tokens de entrada e US$ 10 por milhão de saída. Token é o pedaço de texto que serve de unidade de cobrança. Essa é a tarifa de lançamento: uma nota de rodapé avisa que ela sobe depois para US$ 4 e US$ 20, sem dizer quando. Pelo preço cheio, a Artificial Analysis calcula US$ 7,76 por tarefa do índice, contra US$ 10,04 do Opus 5.5 e US$ 6,25 do GPT-6 Astra. O Carbon sai mais barato que um rival e mais caro que o outro. Esses valores valem para empresas que acessam o modelo pela API, a porta usada por programas de terceiros.
A The Rundown pôs no título que o Carbon lidera "por enquanto", e tem razão: o Argon durou duas semanas como o modelo mais avançado do próprio Google. O placar vai mudar. Mais revelador que ele é a ordem de entrega. Quando uma empresa conclui que seu melhor produto precisa passar primeiro pelas mãos dos vigias, ela informa sobre esse produto algo que nenhum ranking mede.


