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    NotíciaNegócios e mercado

    Gary Gensler, ex-chefe da SEC, prevê crise do investimento em IA em 18 a 30 meses

    Ex-presidente da SEC, Gary Gensler disse ao Channel 4 que uma queda forte nos investimentos em IA pode vir em 18 a 30 meses, com risco para bancos e fundos de pensão. Veja o argumento dele e os sinais que já aparecem.

    Obra de um enorme galpão de servidores com estrutura de aço inacabada, guindastes parados e céu nublado ao entardecer
    Gary Gensler, ex-presidente da SEC, alerta para uma possível queda forte nos investimentos em data centers e tecnologia nos próximos 18 a 30 meses, com riscos para bancos e fundos de pensão.
    Neste artigo

    Gary Gensler presidiu a SEC (abre em nova aba), a comissão que fiscaliza o mercado financeiro dos Estados Unidos, e agora deu um prazo para o estouro da bolha da inteligência artificial. Em entrevista ao programa The Fourcast, do canal britânico Channel 4, publicada nesta segunda-feira (19), ele afirmou que uma queda forte nos investimentos em IA pode estar a 18 a 30 meses de distância. Segundo o resumo do próprio canal, essa queda poderia atingir bancos, fundos de pensão e a economia global.

    A partir de outubro de 2026, essa janela vai de abril de 2028 a abril de 2029. Gensler não está falando da próxima década. Está falando de algo como dois anos.

    O que torna o alerta relevante é menos a data e mais o mecanismo. Gensler não diz que a IA vai deixar de funcionar. Ele aponta para a dívida contraída para construir os data centers, os galpões de servidores onde os modelos são treinados e operados, e pergunta o que acontece quando essa conta vencer.

    Galpão extenso em construção com estrutura metálica inacabada, guindastes parados e placa de financiamento bancário presa à cerca, sob a luz do entardecer
    Gensler alerta que uma retração nos aportes em data centers pode atingir bancos e fundos de pensão em 18 a 30 meses.

    O argumento: o boom desacelera e a dívida aparece

    Na conversa com o jornalista Krishnan Guru-Murthy, Gensler explicou por que considera o boom da IA insustentável. Também discutiu se o mundo pode enfrentar outra crise como a de 2008 e o que acontece quando vencem as dívidas que financiam os data centers.

    O raciocínio já tinha aparecido em 29 de setembro, no programa Open Interest, da Bloomberg:

    "Estamos gastando cerca de 2,5% do nosso produto interno bruto nessa construção de IA. Quando temos esses booms, eles se estabilizam em algum momento; as empresas perdem parte do poder de definir preços, parte do crescimento, e isso expõe onde está a dívida no sistema. Neste momento, há muito risco nesse mercado de capitais."

    Em termos simples: enquanto o setor cresce rápido, pouca gente pergunta de onde veio o dinheiro. Quando o crescimento perde fôlego, fica visível quem pegou empréstimo contando com receitas cada vez maiores.

    No mesmo programa, segundo a descrição da Bloomberg, Gensler tratou de quatro pontos:

    • Bancos: a IA poderia gerar estresse no sistema bancário ao provocar deslocamento de depósitos.
    • Fundos e crédito: há riscos escondidos em fundos de private equity, que compram participações em empresas fora da bolsa, e no mercado de crédito.
    • Bolha: um recuo dos investimentos em IA é possível.
    • Anthropic: a empresa incluiu alertas duros no seu S-1, o documento entregue à SEC por quem quer abrir capital na bolsa. Gensler discutiu o que esses alertas sinalizam para investidores e para a estabilidade financeira.

    O medo de Gensler mudou de lugar

    Esta não é a primeira vez que Gensler associa IA a crise financeira. Em outubro de 2023, ainda no comando da SEC, ele disse ao Financial Times que um colapso do mercado causado por IA era "quase inevitável" na década seguinte se os reguladores não agissem. O temor, porém, era outro:

    "Acho que teremos no futuro uma crise financeira [e] nos relatórios posteriores as pessoas dirão: 'Aha! Havia um agregador de dados ou um modelo... em que nos apoiamos.' Talvez seja no mercado de hipotecas. Talvez em algum setor do mercado de ações."

    Em 2023, o risco era a IA usada dentro do sistema financeiro: muitos bancos e fundos dependendo do mesmo modelo e errando juntos. Ele próprio chamou o problema de "francamente, um desafio difícil". Agora, o risco é o dinheiro do sistema financeiro aplicado na construção da IA. O horizonte também encolheu, de "a próxima década" para 18 a 30 meses.

    Para mim, essa mudança é o dado mais relevante da entrevista. O regulador que alertava para falhas técnicas dentro dos mercados agora aponta para a forma como a construção da IA está sendo paga.

    Ele não é o único preocupado

    Em 16 de outubro, três dias antes da entrevista, o Open Markets Institute (abre em nova aba) divulgou um relatório de Matthew Scherer e Maya Jenkins. A conclusão está no título: a bolha da IA estaria "pronta para estourar". Os motivos apontados são financiamento circular, dívida arriscada crescente e maior exposição do mercado de ações. O documento detalha os gastos de Alphabet, Amazon, Anthropic, Meta, Microsoft, OpenAI, Oracle e SpaceX.

    O instituto cita dois sinais de alerta recentes:

    • A receita anualizada da OpenAI (abre em nova aba) ficou US$ 20 bilhões abaixo de um número amplamente divulgado poucas semanas antes.
    • A Firmus Technologies, apoiada pela Nvidia (abre em nova aba) e pela Blackstone, desistiu de abrir capital na Austrália depois que investidores resistiram ao valor pedido e às perspectivas do negócio.

    Duas vozes reforçaram a crítica no lançamento do relatório. Asad Ramzanali, diretor de política de IA e tecnologia do Vanderbilt Policy Accelerator, disse: "As empresas de IA estão investindo trilhões sem um caminho para receitas proporcionais, e estão tapando o buraco com financiamento circular, dívida opaca e truques contábeis." Damon Silvers, diretor de políticas da central sindical AFL-CIO, afirmou que o risco de a bolha estourar e provocar uma crise do tamanho da de 2008 vem crescendo há pelo menos um ano.

    O que levar a sério

    A parte do alerta que virou manchete é também a que pede mais cautela. Prever o momento exato de um estouro é sempre o ponto mais difícil. O próprio Gensler, três anos atrás, falava em uma década. Já o mecanismo que ele descreve pode ser acompanhado de perto: empréstimos têm data de vencimento, aberturas de capital acontecem ou são canceladas, e receitas são publicadas e comparadas com o que foi anunciado.

    Também é preciso saber quem está falando. Gensler está fora do governo. É professor do MIT (abre em nova aba) e apresenta o podcast Power and Consequences. Na mesma entrevista ao Channel 4, discutiu a política de Donald Trump para a regulação financeira, o envolvimento da família do presidente com criptomoedas e mercados de apostas, e se os órgãos de fiscalização americanos ainda conseguem cobrar responsabilidade dos poderosos. Isso não invalida o alerta, mas ele vem de alguém com posição clara sobre o governo atual.

    Gensler também não é um cético da tecnologia. Na mesma conversa, defendeu que os riscos de sistemas de IA cada vez mais poderosos são reais, apesar de Trump descartar as preocupações com segurança em IA. Dá para acreditar que a IA é poderosa e, ao mesmo tempo, achar que se pegou dinheiro emprestado demais para construí-la. Essa é exatamente a posição dele.

    O que muda para quem lê

    • O risco não fica restrito a quem comprou ações de big tech. Gensler cita bancos e fundos de pensão. Se a dívida dos data centers azedar, o efeito pode chegar a quem nunca investiu diretamente em IA.
    • Vale saber onde está o seu dinheiro. Previdência, fundos de investimento e ETFs podem ter peso relevante nas empresas que lideram esses gastos. Conferir essa exposição é mais útil do que tentar adivinhar a data.
    • Os sinais aparecem em números, não em lançamentos de produto. Fique atento a receitas que não batem com o que foi anunciado, como no caso da OpenAI. Observe também aberturas de capital canceladas, como a da Firmus, ou acompanhadas de alertas pesados, como o S-1 da Anthropic. E acompanhe se empresas e fundos continuam conseguindo renovar a dívida dos data centers.
    • Para quem usa ferramentas de IA, a mensagem não é que a tecnologia vai sumir. Gensler questiona o modelo de financiamento, não a utilidade dos sistemas.

    A janela de Gensler começa em abril de 2028. Até lá, esses indicadores dizem mais sobre a saúde do setor do que qualquer previsão, inclusive a dele.

    Foto de Leandro Vieira

    Leandro Vieira

    CEO e founder | IA.com.br

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