Hemanth Asirvatham e Elliott Mokski tinham 24 anos quando começaram a chefiar equipes na OpenAI (abre em nova aba). Contam isso sem modéstia e sem drama. Segundo eles, a gerência "desceu" até o degrau em que estavam porque assistentes de inteligência artificial passaram a fazer o serviço miúdo. Dessa experiência pessoal, os dois tiraram uma tese sobre o que pode acontecer com o organograma de todas as outras empresas.
A tese está em The future of the firm (abre em nova aba) ("O futuro da empresa"). É o segundo ensaio da série The Next Economy e saiu nesta semana na Intelligence Age, a plataforma de textos da OpenAI. O subtítulo resume a ambição: como a IA pode entrar no organograma "embaixo, ao lado e entre nós". Há um detalhe que o leitor não deve pular. Os autores avisam que o texto traz opiniões deles, e não da OpenAI ou dos colegas. O arranjo é curioso: a casa empresta o endereço, mas não assina o recado.
Três portas de entrada
Os autores descrevem três cenários. Advertem que nenhum vai se realizar exatamente como foi descrito, mas acreditam que pedaços dos três virão. Dizem ainda que os três já estão acontecendo, de forma discreta.

Embaixo. Cada pessoa mantém sua cadeira, e debaixo dela cresce um porão de trabalho feito por IA. Primeiro vêm os assistentes, depois os chefes de gabinete e, por fim, empresas em miniatura, todos respondendo a um único humano. O exemplo é um contador chamado Jace. A frase-síntese dos autores é "toda pessoa ganha uma promoção". Eles sustentam que esse caminho não precisa terminar em demissão: se a IA fizer 90% de um trabalho, o funcionário pode assumir um objetivo dez vezes maior.
Ao lado. Aqui a IA chega como colega dos gerentes humanos que já existem. Começa com tarefas, passa a ocupar cargos e, mais adiante, assume funções inteiras, que respondem a escalões mais altos. Na ilustração, Sheila, uma vice-presidente, entrega a uma equipe de marketing formada por IA o lançamento de um sofá.
Entre. O cenário que os próprios autores consideram o menos intuitivo põe humanos em cima e embaixo, com a IA no meio. Ela coordena e monitora, faz valer a visão do executivo e, ao mesmo tempo, reconhece a contribuição de quem trabalha. No exemplo, Asha, uma presidente-executiva, recorre a uma espécie de consultoria de IA.
Nem robô total, nem escritório de sempre
O ensaio não vende a empresa sem gente. O foco declarado é a firma híbrida, em transição, e não a automação completa. A escolha é prudente. Para quem ocupa a parte de baixo do organograma, também é mais útil do que as profecias de escritórios vazios, porque descreve o que pode mudar na próxima segunda-feira.
Para quem tem emprego, os três cenários servem de régua. O assistente de IA que redige seus e-mails é o porão. O sistema que assume sozinho uma função da sua área é o colega. A ferramenta que distribui tarefas e acompanha entregas ocupa o meio do organograma. A leitura é desta reportagem, mas decorre da própria descrição dos autores.
A série segue uma linha de raciocínio. No primeiro ensaio, The eternal complement (abre em nova aba), de 1º de outubro, a dupla argumentou que máquinas geniais talvez mostrem seu maior valor fazendo trabalho monótono. Para sustentar a ideia, citou estudos de Nick Bloom e coautores. Segundo esses estudos, manter a lei de Moore, o ritmo histórico de melhoria dos chips, exige hoje mais de 18 vezes o número de pesquisadores do início dos anos 1970. O segundo texto leva o argumento para o escritório: o gargalo estaria menos no talento e mais no volume de serviço braçal que alguém precisa fazer.
A parte que fica em aberto
Depois dos cenários, os autores passam a quatro problemas: burocracia, autonomia do trabalhador, tamanho das empresas e disparidade salarial. Tratam os quatro como perguntas em aberto. É ali que o texto deixa de ser fluxograma e vira política.
O cenário do meio merece duas leituras. Uma máquina que coordena, monitora e faz cumprir a vontade do chefe tem nome antigo no chão de fábrica: supervisor. Que ela também "reconheça" quem se esforça é o lado simpático da mesma moeda. Quem registra o mérito registra também a falta dele. A diferença é que esse supervisor não tira férias.
A promessa de promoção universal também pede letra miúda. Ganhar um porão de assistentes digitais pode significar mais poder, mas pode significar apenas mais metas. Se cada pessoa passa a entregar dez vezes mais, alguém fica com a diferença: o funcionário, o acionista ou o cliente. A pergunta não é detalhe técnico. Ela aparece na lista dos próprios autores, que fizeram bem em incluí-la.
Asirvatham e Mokski chegaram à chefia aos 24 anos porque as máquinas fizeram o trabalho pesado. O ensaio ainda não diz quanto dessa subida, para o resto do organograma, será pago em salário e quanto apenas em cargo.


