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    NotíciaNegócios e mercado

    Fuga de US$ 480 bi e chats íntimos à venda: o que já acontece na temida bolha da IA

    Enquanto Wall Street tenta adivinhar a data de um colapso financeiro na inteligência artificial, o mercado chinês encolhe 40% e a falência da Character.ai ameaça expor segredos de milhões de pessoas.

    Esfera de vidro rachada sobre uma mesa escura contendo um smartphone com tela de chat, com gráficos financeiros em queda na cor vermelha ao fundo.
    Sinais de esgotamento no setor de inteligência artificial provocam perdas bilionárias no mercado e levantam alertas sobre a privacidade de dados de usuários.
    Neste artigo

    Existe uma pergunta que tomou conta de quase todas as conversas sobre tecnologia e dinheiro nesta semana: quando a bolha da inteligência artificial vai estourar? No The Verge (abre em nova aba), a jornalista Elizabeth Lopatto pediu publicamente que parem de fazer essa pergunta a ela, brincando que, se soubesse a data exata, faria uma aposta alavancada no mercado financeiro, ficaria rica e iria se aposentar em uma praia para cuidar de um santuário de gatos. O problema de tentar adivinhar o dia do colapso é que, para boa parte do mundo, os estragos deixaram de ser teoria: na China, um dos principais índices de ações de tecnologia já perdeu cerca de US$ 480 bilhões em valor de mercado até o fim de outubro, e nos Estados Unidos a falência da plataforma de robôs de conversa Character.ai (abre em nova aba) colocou à venda os desabafos mais íntimos de dezenas de milhões de usuários.⁠​‌​​‌​​‌​‌​​​​​‌​​‌​‌‌‌​​‌‌​​​‌‌​‌‌​‌‌‌‌​‌‌​‌‌​‌​​‌​‌‌‌​​‌‌​​​‌​​‌‌‌​​‌​​‌‌‌‌‌​​​​‌‌‌​​​​‌‌​​‌​‌​‌‌​​‌​‌​​‌‌​‌‌‌​‌‌​​​‌‌​​‌‌‌​​​​​‌‌​‌​​​​‌‌​‌​‌​​‌​‌‌​‌​​‌‌‌​​​​‌‌​​‌​‌​​‌‌​​​​​​‌‌​‌​​​​‌​‌‌​‌​​‌‌​‌​​​​‌‌​‌‌​​​‌‌​‌​‌​​‌‌​‌​​​​‌​‌‌​‌​​‌‌‌​​‌​​‌‌‌​​‌​​‌‌​‌‌‌​​‌‌‌​​‌​​‌​‌‌​‌​‌‌​​‌​​​‌‌​​‌​​​​‌‌​‌​​​​‌‌​‌​‌​‌‌​​​​‌​​‌‌​‌​​​​‌‌​‌‌​​‌‌​​​‌‌​​‌‌​​‌​​​‌‌​​​​​‌‌​​‌​​​​‌‌‌​​​⁠

    A ansiedade atual nasce de sinais financeiros que parecem se contradizer a cada hora. Durante uma cúpula de líderes financeiros em Hong Kong nesta terça-feira (3), Emmanuel Roman, presidente-executivo da gigante de investimentos PIMCO, alertou para uma desaceleração da IA, mas as empresas do setor continuam emitindo títulos de dívida em ritmo acelerado para financiar sua expansão. Do outro lado do balcão, as ações sentem o golpe: o índice Nasdaq 100, termômetro das gigantes de tecnologia nos EUA, fechou outubro com sua pior queda mensal desde março de 2025, recuando 9% em relação ao pico do início do mês.

    Para o economista David Rosenberg, o recado da última semana foi raro porque os dois lados do mercado caíram juntos, tanto as grandes empresas de nuvem quanto seus fornecedores de infraestrutura. Quando todo mundo perde valor ao mesmo tempo com notícias opostas, significa que os investidores começaram a duvidar do retorno real de tanto dinheiro gasto. Enquanto o bilionário Ray Dalio compara a euforia atual aos níveis que antecederam as crises de 1929 e 2000, estrategistas como Paul Dietrich, da Wedbush Securities, avaliam que os investimentos em IA atingem o pico agora em 2026 e que a bolha pode acabar antes de 2027.

    Corredor de data center escuro com servidores piscando luzes vermelhas de alerta e reflexos de gráficos financeiros em queda nas laterais das máquinas.
    Fuga de capitais e retração no mercado asiático acendem o alerta para os riscos financeiros na infraestrutura de tecnologia.

    Fora de Wall Street, o choque de realidade já tem números fechados. No fim de outubro, o índice chinês STAR 50, que reúne grandes empresas de semicondutores e tecnologia do país, acumulou queda de aproximadamente 40% em menos de quatro meses, apagando cerca de US$ 480 bilhões segundo estimativas reportadas pela Reuters (abre em nova aba). Ao acompanhar esses movimentos de mercado no IA.com.br, fica evidente que o debate mudou de fase: até gestoras que seguem otimistas nos EUA, como BCA Research e Franklin Templeton, já recomendam que investidores dividam suas carteiras entre ativos de alto e baixo risco para se protegerem da volatilidade.

    Quando a conta chega para quem nem investe na bolsa

    O erro mais comum ao falar de bolhas financeiras é achar que o problema pertence apenas a quem compra ações. O economista Dean Baker, cofundador do Center for Economic and Policy Research (CEPR), aponta que o custo de tomar dinheiro emprestado está subindo para empresas de infraestrutura como a CoreWeave (abre em nova aba), enquanto boa parte da demanda por IA vem de startups menores comprando serviços umas das outras. Se essa engrenagem travar após investimentos trilionários em centros de dados, a conta pode recair sobre trabalhadores comuns, afetando fundos de aposentadoria, a rede elétrica e até o consumo de água potável.⁠​‌​​‌​​‌​‌​​​​​‌​​‌​‌‌‌​​‌‌​​​‌‌​‌‌​‌‌‌‌​‌‌​‌‌​‌​​‌​‌‌‌​​‌‌​​​‌​​‌‌‌​​‌​​‌‌‌‌‌​​​​‌‌‌​​​​‌‌​​‌​‌​‌‌​​‌​‌​​‌‌​‌‌‌​‌‌​​​‌‌​​‌‌‌​​​​​‌‌​‌​​​​‌‌​‌​‌​​‌​‌‌​‌​​‌‌‌​​​​‌‌​​‌​‌​​‌‌​​​​​​‌‌​‌​​​​‌​‌‌​‌​​‌‌​‌​​​​‌‌​‌‌​​​‌‌​‌​‌​​‌‌​‌​​​​‌​‌‌​‌​​‌‌‌​​‌​​‌‌‌​​‌​​‌‌​‌‌‌​​‌‌‌​​‌​​‌​‌‌​‌​‌‌​​‌​​​‌‌​​‌​​​​‌‌​‌​​​​‌‌​‌​‌​‌‌​​​​‌​​‌‌​‌​​​​‌‌​‌‌​​‌‌​​​‌‌​​‌‌​​‌​​​‌‌​​​​​‌‌​​‌​​​​‌‌‌​​​⁠

    Mas o efeito colateral mais imediato e assustador do aperto financeiro é o que acontece com os nossos segredos quando uma empresa de IA quebra. Criar e manter ferramentas de inteligência artificial custa tão caro que muitos negócios jamais darão lucro, como mostra o colapso recente da Character.ai, reportado pela BBC (abre em nova aba). A empresa, famosa por oferecer chatbots que simulam namoradas virtuais, advogados e até psiquiatras, entrou em processo de falência após atrair dezenas de milhões de usuários, incluindo crianças.

    Na tentativa de salvar parte do dinheiro, a Character.ai concordou em vender alguns de seus ativos para a Disney (abre em nova aba) por US$ 20 milhões. Os dados dos usuários ficaram de fora desse pacote específico, o que significa que a casa do Mickey Mouse não terá acesso às conversas alheias, mas documentos judiciais revelam que a empresa tem permissão para vender seu banco de mensagens para outros compradores. Uma coalizão de 40 procuradores-gerais estaduais dos EUA já acionou a Justiça pedindo travas de proteção à infância e à privacidade antes que esses arquivos mudem de mãos.

    O detalhe mais perverso dessa liquidação é que você não precisa nunca ter aberto um aplicativo de IA para estar exposto. Como explica Calli Schroeder, diretora do programa de IA e direitos humanos do Electronic Privacy Information Center (EPIC), as pessoas compartilham informações muito mais sensíveis quando conversam com um robô que imita um humano, pedindo conselhos sobre familiares ou contando segredos íntimos de amigos pelo nome. Crises financeiras sempre deixam ativos baratos pelo caminho; a diferença, desta vez, é que o estoque liquidado na prateleira pode ser a vida privada de milhões de pessoas.⁠​‌​​‌​​‌​‌​​​​​‌​​‌​‌‌‌​​‌‌​​​‌‌​‌‌​‌‌‌‌​‌‌​‌‌​‌​​‌​‌‌‌​​‌‌​​​‌​​‌‌‌​​‌​​‌‌‌‌‌​​​​‌‌‌​​​​‌‌​​‌​‌​‌‌​​‌​‌​​‌‌​‌‌‌​‌‌​​​‌‌​​‌‌‌​​​​​‌‌​‌​​​​‌‌​‌​‌​​‌​‌‌​‌​​‌‌‌​​​​‌‌​​‌​‌​​‌‌​​​​​​‌‌​‌​​​​‌​‌‌​‌​​‌‌​‌​​​​‌‌​‌‌​​​‌‌​‌​‌​​‌‌​‌​​​​‌​‌‌​‌​​‌‌‌​​‌​​‌‌‌​​‌​​‌‌​‌‌‌​​‌‌‌​​‌​​‌​‌‌​‌​‌‌​​‌​​​‌‌​​‌​​​​‌‌​‌​​​​‌‌​‌​‌​‌‌​​​​‌​​‌‌​‌​​​​‌‌​‌‌​​‌‌​​​‌‌​​‌‌​​‌​​​‌‌​​​​​‌‌​​‌​​​​‌‌‌​​​⁠

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    Leandro Vieira

    CEO e founder | IA.com.br

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