Em abril de 2023, o catálogo completo de Taylor Swift acumulou 9,3 milhões de reproduções em planos familiares no YouTube Music. No mesmo mês, canções geradas por inteligência artificial e atribuídas a um único homem foram ouvidas 80,9 milhões de vezes, quase nove vezes mais, sem que nenhum ouvinte real existisse por trás dos playbacks. O número não mede sucesso musical. Mede fraude, e agora tem sentença: 18 meses de prisão.
O caso é de Michael Smith, norte-americano de 54 anos, morador de Cornelius, na Carolina do Norte. Conforme o Departamento de Justiça dos EUA, ele é o primeiro americano a responder criminalmente por fraude de streaming assistida por IA. Smith se declarou culpado, em 19 de março de 2026, de uma acusação de conspiração para cometer wire fraud (fraude eletrônica, ou seja, golpe executado por meios digitais), perante o juiz federal John G. Koeltl. A pena foi anunciada em 6 de outubro de 2026.
O esquema durou de 2017 a 2024. Sete anos sem detecção.
A mecânica era simples de descrever e trabalhosa de sustentar. Smith criava contas falsas nos serviços de streaming Amazon Music, Apple Music (abre em nova aba), Spotify (abre em nova aba) e YouTube Music (abre em nova aba), usando e-mails inventados e cartões de débito obtidos de forma fraudulenta. Essas contas, chamadas no caso de "contas bot", eram controladas por software: programas que simulavam ouvintes e tocavam músicas automaticamente, sem intervenção humana. Em certos períodos, chegou a operar 10 mil contas bot ao mesmo tempo.

Cada reprodução gerava royalties, o pagamento que as plataformas repassam aos detentores de direitos musicais. Como Smith alegava ser dono das canções, o dinheiro ia para ele. No total, ele desviou mais de US$ 8 milhões das plataformas de streaming.
Havia um obstáculo: os sistemas antifraude das plataformas tendem a estranhar quando uma única música explode em reproduções. Foi por isso que a IA entrou no golpe. Em um e-mail citado pelo Departamento de Justiça, Smith escreveu que precisava de "a TON of songs fast", ou seja, uma quantidade enorme de músicas rápido, para contornar as "políticas antifraude". A inteligência artificial resolveu o problema: gerou centenas de milhares de canções, e as distribuições de plays foram espalhadas entre elas, de modo que nenhuma faixa isolada chamasse atenção.
O resultado foi bilhões de reproduções automáticas distribuídas por esse catálogo fake. O exemplo de abril de 2023, divulgado pela promotoria federal do Distrito Sul de Nova York, mostra a escala: os bots de Smith, usando planos familiares, geraram 80,9 milhões de streams no mês, contra 9,3 milhões de todo o repertório de Taylor Swift na mesma janela no YouTube Music.
A condenação, além dos 18 meses de prisão, inclui dois anos de supervised release, uma espécie de liberdade supervisionada com acompanhamento judicial após o cumprimento da pena, e a ordem de pagar US$ 8.091.843,64 em confisco, valor que devolve aos cofres públicos o montante obtido com o crime.
Para quem usa streaming, o caso explica por que a indústria se incomoda tanto com esse tipo de golpe: o dinheiro pago em royalties é uma fatia fixa, distribuída conforme o volume de reproduções. Quando bots inflacionam artificialmente as contas de alguém, sobram menos recursos para músicos reais, que concorrem com um catálogo que nenhuma pessoa compôs nem escutou.
Há, porém, uma ressalva que o próprio caso deixa exposta: o esquema funcionou por sete anos antes de ser detectado, e a promotoria só o alcançou depois de bilhões de reproduções e milhões de dólares desviados. A condenação cria um precedente criminal importante, mas não garante, por si só, que o próximo esquema semelhante seja percebido mais cedo.

