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    NotíciaInfraestrutura e hardware

    Fabricante de discos diz que inferência de IA deixa uma conta oculta de armazenamento

    Em conteúdo patrocinado no site da MIT Technology Review, a WD diz que cada uso de IA deixa um rastro de dados até 130 vezes maior que o arquivo entregue ao usuário. Os números vêm de quem vende armazenamento, e um deles exagera a McKinsey.

    Fileiras de discos rígidos abertos, com pratos e cabeçotes expostos, sobre uma bancada de laboratório sob luz fria lateral; ao lado, uma tela reproduz um clipe de vídeo curto
    Segundo a WD, cada resposta entregue ao usuário deixa para trás um volume de dados muito maior, que precisa ser guardado em algum lugar
    Neste artigo

    Quando um executivo imagina quanto custa a inteligência artificial, pensa em placas de vídeo, conta de luz e fila de espera por chips. A WD (abre em nova aba), fabricante de discos rígidos, quer que ele pense também nos dados que cada uso da IA deixa para trás. A tese saiu nesta quinta-feira (22) no site da MIT Technology Review (abre em nova aba), assinada por Tim Rausch. O texto traz um detalhe que não pode ficar no rodapé: é conteúdo patrocinado. Uma nota ao final avisa que foi produzido pela WD, e não pela redação da revista.

    Nada de errado nisso. Fabricante de guarda-chuva também acerta quando avisa que vai chover. Mas convém ler o argumento sabendo quem vende o guarda-chuva.

    Treinar acaba, usar não

    O raciocínio da WD parte de uma distinção simples. Treinar um modelo de IA é uma tarefa com começo e fim. Consome muito, mas termina. Já a inferência, nome técnico para o momento em que alguém usa o modelo para fazer uma pergunta, pedir uma imagem ou encomendar um vídeo, não para nunca. Acontece a cada clique, o dia inteiro. Segundo a empresa, cada um desses pedidos deixa um resíduo.

    Técnico encaixa um disco rígido em uma longa fileira de discos recém-desembalados sobre bancada de oficina, com caixas vazias ao fundo e luz lateral fria
    Fabricante de discos atribui a cada consulta um rastro de dados muito maior que a resposta entregue, em números que favorecem quem vende armazenamento

    O exemplo vem de medições internas da WD. Um clipe de 8 segundos, entregue ao usuário como arquivo de 720p com 3,97 MB, gerou mais de 500 MB de dados nos bastidores. Entram nessa conta logs de operação, contexto guardado em cache, renderizações, backups e registros de segurança. A empresa calcula um volume 130 vezes maior que o do arquivo que o cliente de fato vê. Para vídeos corporativos mais longos e em resolução maior, diz a WD, a sobra pode chegar a centenas de gigabytes por clipe.

    O mecanismo é plausível. Sistemas de IA guardam rastros para corrigir falhas, auditar respostas e não perder trabalho. O problema está na procedência do número. A medição é da própria WD, que vende onde guardar esses dados, e não há sinal de verificação independente. Serve como ilustração, não como régua.

    A McKinsey, com um arredondamento

    Para dar escala ao problema, o texto patrocinado recorre à McKinsey (abre em nova aba). Atribui à consultoria três projeções até 2030. A demanda por inferência cresceria 35% ao ano, contra 22% do treinamento, e chegaria a "mais de 40%" da demanda total dos data centers no fim da década.

    As duas primeiras contas batem com o estudo, publicado em dezembro de 2025. A terceira, não. A McKinsey escreveu que, até 2030, a inferência vai superar o treinamento e responder por mais da metade de toda a computação de IA, o que equivale a algo entre 30% e 40% da demanda total dos data centers. O teto da consultoria virou o piso do patrocinador.

    PontoO que diz a McKinseyComo a WD resumiu
    Crescimento anual da inferência até 203035%35%
    Crescimento anual do treinamento até 203022%22%
    Fatia da inferência na demanda total dos data centers em 2030cerca de 30% a 40%mais de 40%

    O texto da WD também deixa de fora dois detalhes. O estudo da McKinsey trata de energia e da estratégia das gigantes de nuvem nos Estados Unidos, não de armazenamento. E a própria consultoria diz que a trajetória da inferência é incerta, porque ganhos de eficiência podem derrubar o crescimento para algo entre 4% e 7% ao ano. Entre 35% e 4% cabe uma indústria inteira.

    A pesquisa do patrocinador

    O outro pilar do argumento é um estudo da IDC (abre em nova aba) patrocinado pela WD. A pesquisa ouviu 763 tomadores de decisão de TI e de negócios em vários países. Quase 95% disseram que o volume de dados da empresa cresceu nos últimos 12 meses por causa da IA generativa, e cerca de 61% relataram alta de 25% ou mais. Além disso, 96% esperam precisar recuperar arquivos antigos mais depressa, seja para a inferência, seja para o RAG, a técnica em que a IA consulta documentos da própria empresa antes de responder.

    São percepções de executivos, colhidas numa pesquisa paga por quem vende armazenamento. Não são medições.

    O que sobra de útil

    Descontado o interesse comercial, fica um ponto que merece atenção. A IA não é uma despesa que se paga uma vez. Cada uso gera registros, cópias e históricos que alguém precisa guardar e pagar para guardar. Quem contrata ou monta serviços de IA faz bem em perguntar ao fornecedor o que o sistema retém, por quanto tempo e em qual conta isso aparece.

    A WD pode estar certa sobre a chuva. Por enquanto, porém, quem mede a tempestade é o mesmo que vende o guarda-chuva.

    Foto de Leandro Vieira

    Leandro Vieira

    CEO e founder | IA.com.br

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