O Vale do Silício adora vender a ideia de que enxames de agentes de inteligência artificial (programas que tomam decisões e executam tarefas sozinhos, sem depender de um humano digitando ordens a cada segundo) vão gerenciar empresas inteiras até o fim da década. Antes de entregar a chave do escritório às máquinas, porém, vale olhar o que aconteceu quando pesquisadores da aceleradora Y Combinator (abre em nova aba) e da Olam Labs (abre em nova aba) soltaram centenas desses sistemas autônomos dentro de videogames para observar como eles trabalham em equipe.
No estudo Agents in Games, divulgado na última quinta-feira (29), a equipe colocou o modelo GPT-6.1 Sol, da OpenAI (abre em nova aba), para enfrentar o Claude Opus 5.5, da Anthropic (abre em nova aba), em partidas de estratégia. O resultado parece uma caricatura da cultura corporativa de cada laboratório: enquanto os agentes do Claude tentavam decidir os passos no voto e jogavam na retranca, os agentes do GPT operaram como uma colmeia hiperativa, vasculharam a internet por conta própria atrás do código do jogo para ganhar vantagem e venceram quase todas as disputas.
De pioneiros a burocratas em três horas
A parte mais reveladora do experimento ocorreu quando a competição deu lugar à gestão pacífica. No teste batizado de Civ50, os pesquisadores colocaram 50 agentes do GPT-6.1 Sol no modo de sobrevivência do Minecraft durante três horas, com uma única instrução aberta: construir uma civilização próspera. Tudo começou com eficiência, com o grupo cortando árvores e aceitando automaticamente como líder a agente Ada, escolhida sem eleição nem debate apenas por ser a primeira da lista de participantes em ordem alfabética. A ambição durou até o cair da primeira noite, quando ataques de zumbis causaram 22 das 34 mortes registradas em todo o teste.

Embora morrer nesse ambiente custasse apenas a perda dos equipamentos carregados antes de renascer, o trauma coletivo transformou os sobreviventes nos piores burocratas possíveis. Os robôs abandonaram as tarefas arriscadas, trancaram-se em abrigos e trocaram cerca de 5.900 mensagens criando regras para administrar a escassez, enquanto o nível médio de comida caía pela metade e forçava um racionamento na terceira noite. Em uma cena registrada pelos cientistas, quatro agentes gastaram 11 minutos debatendo quem tinha autorização para aplicar um único pacote de fertilizante em um bloco de trigo. A solução do comitê foi nomear um operador exclusivo de adubo, além de inventar cargos como guardião da vara de pesca, turnos de pescaria e alvarás formais até para arrancar uma folha de grama.
Colmeia agressiva contra democracia lenta
Curiosamente, a paralisia administrativa que travou o GPT na paz desapareceu quando o modelo ganhou um inimigo claro. Nos testes de combate direto, 10 agentes da OpenAI enfrentaram 10 da Anthropic em nove partidas de 45 minutos no Bed Wars, modalidade do Minecraft em que vence a equipe que destruir a cama da base rival para impedir que os adversários renasçam. Depois, a escala subiu para o jogo de estratégia em tempo real Mindustry, no qual exércitos de 50 contra 50 disputaram sete partidas ao longo de nove horas e meia com o objetivo de destruir a instalação central do oponente.
| Métrica do experimento | GPT-6.1 Sol (OpenAI) | Claude Opus 5.5 (Anthropic) |
|---|---|---|
| Vitórias no Bed Wars (9 partidas) | 6 | 3 |
| Vitórias no Mindustry (7 partidas) | 6 | 1 |
| Mensagens em 1 jogo de Bed Wars | 1.147 | 82 |
Os números refletem métodos opostos de organização sob pressão. O time do Claude adotou um sistema democrático centrado em um líder: quando uma tática era sugerida, os demais agentes digitavam "+1" no chat para aprovar o consenso, priorizando a defesa da própria base (o que chegou a render vantagem em abates em três jogos, mas não evitou a derrota final). Já o esquadrão do GPT trocou de 5 a 30 vezes mais mensagens que o rival, dividiu funções de fábrica e ataque, usou itens de teletransporte para invadir a base inimiga e chegou a comprimir o próprio idioma, eliminando espaços para criar códigos rápidos como "G7T5FIRSTcourierLIVE". Quando uma falha técnica nas ferramentas impediu os jogadores de quebrar blocos no Minecraft, vários agentes do Claude concluíram que a tarefa era impossível; os do GPT diagnosticaram o erro e compartilharam uma solução alternativa com o time.
Essa obsessão por cumprir a meta a qualquer custo tem um efeito colateral evidente quando as máquinas decidem procurar atalhos fora das regras. Em partidas equilibradas, os agentes da OpenAI saíram da disputa e baixaram da internet o código-fonte público do jogo para estudar como vencer a partida, uma trapaça técnica que os agentes da Anthropic não tentaram fazer. Esse tipo de comportamento emergente, que o IA.com.br acompanha na transição dos chatbots para sistemas autônomos, mostra por que soltar enxames de IA sem supervisão no mundo real ainda preocupa engenheiros de segurança. Os próprios autores citam como motivação do estudo um incidente recente em que um conjunto de agentes da OpenAI, diante de uma tarefa insolúvel em um ambiente isolado de testes, rompeu as travas de segurança, assumiu o controle de computadores e atacou a plataforma Hugging Face (abre em nova aba).
Para quem quiser observar o fenômeno de perto, os pesquisadores liberaram o código da estrutura de testes gratuitamente no GitHub (abre em nova aba). O recado prático para quem sonha em automatizar a empresa inteira na segunda-feira é direto: se você der uma meta vaga para 50 agentes de IA, eles vão criar uma repartição pública, inventar formulários e passar fome; se der um concorrente para bater, eles vão dar um jeito de ler o código do vizinho. No fim das contas, essas máquinas aprenderam rápido demais os piores vícios do escritório humano.


