Na quarta-feira (28), a Alphabet (abre em nova aba), dona do Google, informou que faturou US$ 127,6 bilhões no terceiro trimestre, 25% a mais que um ano antes. Na quinta-feira (29), suas ações caíram 12,64%, a maior queda diária da história da empresa. As ações classe A fecharam a US$ 283,82, e o valor de mercado da companhia encolheu US$ 499,8 bilhões, pelas contas do Wall Street Journal citadas pela Fox Business. A Forbes chegou a um número um pouco menor, US$ 480 bilhões. Em qualquer das contas, meio trilhão de dólares sumiu em um único pregão.
Para quem não acompanha a bolsa: valor de mercado é o preço de cada ação multiplicado pelo número de ações. É quanto os investidores, naquele momento, acham que a empresa vale. Ninguém tirou dinheiro do caixa do Google na quinta-feira. O que evaporou foi parte da aposta sobre quanto a empresa vai ganhar daqui para a frente.
Crescer 25% não bastou
Wall Street esperava mais receita. Segundo o Indian Express, duas coisas pesaram juntas: vendas abaixo do previsto e gastos crescentes com inteligência artificial. A combinação despertou no mercado o temor sobre o futuro do negócio de anúncios no buscador do Google. Para o investidor, a equação piorou nas duas pontas. A despesa sobe, e a receita em que ele mais confiava passou a gerar dúvida.

O Google não foi punido por ser fraco. Foi punido por não ser tão forte quanto o preço da ação prometia. Quando uma empresa é negociada como se o futuro já estivesse garantido, um trimestre apenas bom vira notícia ruim.
Os tombos estão ficando maiores
A Fox Business classificou a perda como a segunda maior já registrada em um único dia em toda a história do mercado de ações. O recorde continua com a Nvidia. Pelas contas do Yahoo Finance, a Alphabet precisaria ter fechado perto de US$ 274,75, com queda de cerca de 15%, para tomar o posto. Parou nove dólares antes. Mesmo assim, deixou para trás os US$ 400 bilhões que a SpaceX perdeu em 22 de junho, até então o segundo lugar.
O calendário de 2026 conta uma história própria. Em junho, a SpaceX. Em 23 de julho, a própria Alphabet perdeu cerca de US$ 275 bilhões, o pior dia que tinha vivido até então. Em outubro, perto de US$ 500 bilhões. Em três meses, a empresa quase dobrou o próprio recorde de prejuízo em um dia.
Não foi só o Google
A Amazon (abre em nova aba) fechou a quinta-feira com queda de mais de 4%. A Intel (abre em nova aba) despencou 23% na negociação depois do fechamento do mercado. O Indian Express atribuiu a queda à instabilidade no mercado de computadores pessoais, a dificuldades na fabricação e aos gastos pesados com a expansão da produção. O Times of India falou em perspectivas fracas para os próximos meses. Somadas as perdas, o Guardian registrou que as bolsas americanas recuaram quase US$ 1 trilhão depois de balanços abaixo do esperado. O Times of India acrescentou ao quadro o pior tombo das ações chinesas desde 2016.
A pergunta que ficou adiada
O Times of India resumiu o enredo dos últimos anos: a inteligência artificial virou a história preferida de Wall Street. Despejavam-se bilhões em chips, erguiam-se data centers, prometia-se uma revolução e as cotações subiam. Agora, escreveu o jornal, os investidores começam a fazer uma pergunta incômoda: quando, exatamente, todo esse gasto vai começar a dar retorno?
Não se trata de duvidar que a tecnologia funcione. Ela está sendo usada. Um estudo do Banco de España publicado na quarta-feira (28) mostra que o uso de IA entre pequenas e médias empresas espanholas dobrou desde 2024 e chegou a 30% a 35%, enquanto cerca de 70% das grandes já a utilizam. Uma parcela relevante relata ganhos de produtividade e de investimento, e o impacto sobre o emprego, até aqui, foi limitado. A dúvida do mercado é outra: quem vai faturar com essa adoção, quanto e em que prazo, a ponto de cobrir a conta das máquinas.
Uma queda de 12,64% deixa a Alphabet com quase 90% do valor que tinha na véspera. O Google não ficou pobre. Ficou caro demais para a paciência de quem comprou suas ações. Durante anos, bastou às gigantes da tecnologia prometer. Depois desta quinta-feira, a tendência é que cada novo balanço seja lido com uma régua só: quanto voltou para o caixa de tudo o que foi gasto com inteligência artificial.


