Em uma conversa com aproximadamente 160 vice-presidentes de tecnologia da informação (TI) em Las Vegas, nos Estados Unidos, o empreendedor de tecnologia Azeem Azhar fez uma pergunta simples: quem ali podia apontar resultados mensuráveis com inteligência artificial (IA)? Dois terços das pessoas levantaram a mão. O número foi maior do que ele esperava. Em seguida, Azhar fez uma segunda pergunta, mais incômoda: quem tinha resultados bons o suficiente para justificar interromper as férias de verão do diretor-presidente (CEO) da empresa? Apenas cerca de oito pessoas mantiveram a mão levantada. O relato foi feito por Azhar em um podcast com Nicholas Thompson, da revista The Atlantic, e publicado em 26 de setembro de 2026.
A história ilustra um dilema que está no centro do debate sobre a chamada bolha da IA. A pergunta central é se a receita dos laboratórios de inteligência artificial está crescendo rápido o bastante para pagar a enorme construção de data centers. Data centers são galpões repletos de computadores potentes, usados para treinar e rodar modelos de IA. A construção desses espaços consome bilhões de dólares. Para que o investimento faça sentido, as empresas precisam obter valor real da tecnologia e continuar comprando mais, de preferência pagando preços crescentes.
O que é resultado mensurável em IA?
Quando um vice-presidente de TI diz que tem resultados mensuráveis com IA, isso significa que ele consegue apontar números concretos: economia de tempo, redução de custos, aumento de vendas ou melhoria em algum processo. É diferente de dizer apenas que a empresa está testando a tecnologia ou que os funcionários usam ferramentas de IA no dia a dia. O resultado mensurável é aquele que pode ser comparado antes e depois, como o tempo que uma equipe levava para analisar documentos e o tempo que passou a levar com o apoio da IA.

No entanto, ter um resultado mensurável não é o mesmo que ter um resultado transformador. A segunda pergunta de Azhar separa esses dois mundos. Interromper as férias do CEO significa que o ganho é tão relevante que justifica uma decisão urgente, como redirecionar verbas, mudar a estratégia da empresa ou acelerar investimentos. Apenas oito entre 160 líderes disseram que seus resultados atingiam esse nível. Para Azhar, a conclusão é que as empresas estão fazendo progresso, mas em ritmo lento.
Por que isso importa para o debate da bolha
O ritmo lento preocupa porque o dinheiro investido em IA é gigantesco. Se as empresas não veem retorno suficiente, podem reduzir compras ou migrar para alternativas mais baratas. Azhar menciona que muitas companhias estão deixando modelos de fronteira, que são os mais caros e avançados, e adotando modelos de peso aberto, que podem ser usados sem pagar pelo acesso. Nesse cenário, o uso de IA até pode crescer, mas a bolha ainda pode estourar porque não entra dinheiro suficiente para financiar a construção dos data centers.
Azhar também aponta o que chama de “versão pessimista da história”. Uma pesquisa do Boston Consulting Group mostrou que cerca de 70% dos CEOs no mundo dizem que o sucesso em IA importa para como eles são percebidos em seus cargos. Isso cria um incentivo para pintar um quadro mais cor-de-rosa do que a realidade. O próprio Azhar afirma que não tem uma resposta simples para a pergunta da bolha e que a situação está “finamente equilibrada”.
Do outro lado, alguns executivos dizem que seus conselhos de administração estão ficando mais ambiciosos depois dos primeiros ganhos. Mesmo em mercados mais lentos, como a Itália, Azhar ouviu de CEOs que a confiança está aumentando e os orçamentos crescendo, apesar de erros pelo caminho. Ou seja, há sinais positivos e negativos convivendo.
Como funciona a adoção de IA nas empresas, em termos simples
Imagine uma empresa como uma cozinha de restaurante. A IA é um novo utensílio que promete cortar legumes mais rápido. No começo, o cozinheiro testa o utensílio em uma tarefa pequena e vê que funciona. Isso é o resultado mensurável. Mas para o restaurante inteiro mudar o cardápio e o modo de preparo por causa desse utensílio, é preciso que ele seja muito melhor que a faca comum. É essa a diferença entre ter um resultado e ter um resultado que justifica interromper as férias do chef.
Para medir se a IA está valendo a pena, as empresas costumam olhar indicadores como: tempo economizado em tarefas repetitivas, número de erros reduzidos, custo por atendimento, velocidade de lançamento de produtos e satisfação dos clientes. Quando esses números melhoram de forma consistente, a empresa pode decidir expandir o uso. Quando não melhoram, ela pode manter o projeto pequeno ou desistir.
Exemplos do cotidiano corporativo
Um exemplo comum é o atendimento ao cliente. Se um sistema de IA responde perguntas simples e desafoga a equipe humana, isso pode ser um resultado mensurável. Outro exemplo é a análise de contratos: um escritório pode usar IA para ler documentos longos e destacar cláusulas importantes, reduzindo horas de trabalho. Na área de tecnologia, equipes usam IA para escrever trechos de código e testar funções, o que acelera o desenvolvimento.
Mas nem todo ganho vira prioridade máxima. Se a economia é pequena em relação ao faturamento total, o CEO pode nem ficar sabendo. É por isso que a pergunta sobre interromper as férias é tão reveladora: ela força o líder a dizer se o resultado é realmente digno de atenção imediata da alta cúpula.
O que está em jogo para compradores e fornecedores
Para quem compra tecnologia, a história serve de alerta. Ter resultados com IA é bom, mas é preciso avaliar se eles justificam investimentos maiores. Para os fornecedores de IA, o recado é que precisam mostrar valor concreto e não apenas promessas. Se muitas empresas relatam ganhos pequenos, a demanda pode não crescer na velocidade esperada, afetando toda a cadeia.
A situação também afeta profissionais de TI. Eles são cobrados para entregar resultados, mas muitas vezes esbarram em processos internos, falta de dados organizados e resistência à mudança. O levantamento em Las Vegas sugere que, mesmo entre líderes experientes, a maioria ainda não chegou a um resultado que mobilize a empresa inteira.
Próximos passos para quem quer entender o assunto
Para acompanhar esse debate, vale prestar atenção em alguns sinais. Primeiro, se as empresas estão aumentando ou reduzindo gastos com IA. Segundo, se os resultados relatados se tornam mais robustos ao longo do tempo. Terceiro, se os fornecedores conseguem mostrar retorno para além de casos isolados. Quarto, se os conselhos de administração continuam pressionando por IA ou se o entusiasmo arrefece.
O próprio Azhar não crava um veredito. Ele diz que a situação está “finamente equilibrada” e que não tem uma resposta simples. O que se sabe é que, em setembro de 2026, dois terços dos vice-presidentes de TI presentes naquele encontro em Las Vegas viam algum resultado mensurável, mas apenas oito viam resultados que justificassem uma interrupção urgente do CEO. Esse contraste é o retrato de uma tecnologia que já mostra valor, mas ainda não conquistou a confiança de que pode mudar os rumos de uma empresa da noite para o dia.

