Demis Hassabis talvez seja quem mais merece ser ouvido quando o assunto é inteligência artificial, e ele acaba de adiantar o relógio. Cofundador do Google DeepMind (abre em nova aba) e Nobel de Química, ele achava, mais cedo neste ano, que a chamada AGI ainda estava de três a cinco anos de distância. Agora espera que ela chegue em dois a três. A informação está em um perfil publicado em 21 de outubro pela WSJ. Magazine, revista do Wall Street Journal, que o escolheu como inovador de tecnologia na edição Innovators.
"É logo", disse ele ao repórter Ben Cohen. "Estou atualizando para cada vez mais perto."
Por que essa previsão pesa mais
Prever a AGI é fácil. O que pesa é o currículo de quem prevê, e o de Hassabis é difícil de contestar. O Google comprou a DeepMind por US$ 650 milhões em 2014. Em 2020, o AlphaFold, sistema da empresa, apresentou o resultado sobre a estrutura de proteínas que o tornou famoso, e a equipe depois liberou estruturas de mais de 200 milhões de proteínas. Em 2024, veio o Nobel de Química, dividido com John Jumper.

Ele também não tem fama de vendedor de apocalipse nem de paraíso. "Não é tudo desastre, e não é tudo nirvana", disse ao Journal. "Estou muito no ramo das soluções." Aos 50 anos, com título de sir e vivendo na Inglaterra, onde nasceu, ele resume a própria missão assim: "O objetivo final era construir a IA e entender a mente, depois usá-la para entender a ciência. Passo um, resolver a inteligência. Passo dois, resolver todo o resto."
O teste de Einstein
Para não ficar no vago: AGI, para Hassabis, é "um sistema com toda a amplitude cognitiva do cérebro humano". Não se trata de um chatbot que escreve e-mails melhor nem de um robô que passa em provas. Ele propõe um critério concreto, que chama de teste de Einstein. Um sistema treinado apenas com o conhecimento humano disponível até 1901 conseguiria produzir os trabalhos que Einstein publicou em 1905, seu "ano milagroso"?
Essa é a parte mais interessante da história, e a mais ousada. Pelo critério do próprio Hassabis, AGI não é repetir o que já se sabe, e sim dar o salto que ninguém ensinou. Se a previsão for lida ao pé da letra, ele está dizendo que, por volta de 2028 ou 2029, máquinas poderão fazer ciência original desse calibre. É uma aposta muito maior do que "a IA vai ficar mais esperta".
As letras miúdas
Agora o detalhe que se perdeu no caminho. A frase "dois a três anos" é a forma como o Journal resumiu a expectativa dele, não uma citação entre aspas. As palavras literais publicadas são mais vagas: "é logo" e "estou atualizando para cada vez mais perto". O The Verge pôs o número na manchete, mas no texto apenas remeteu ao perfil do Journal. O The Decoder fez circular uma versão diferente da fala ("vai acontecer em breve, minha estimativa continua se aproximando do presente"), que não é a que aparece na página do jornal.
Isso não significa que o número foi inventado, porque o Journal o atribui a ele. Significa que o número exato correu a internet mais rápido do que as palavras reais de Hassabis. Em previsão de tecnologia, é assim que uma estimativa vira contagem regressiva.
Quem está falando
Também vale olhar o crachá. Segundo o Journal, depois de uma mudança recente na liderança do Google DeepMind, Hassabis virou cientista-chefe da Alphabet (abre em nova aba), dona do Google, e presidente do conselho da DeepMind. Ele continua CEO da Isomorphic Labs (abre em nova aba), empresa que criou dentro do Google e que o The Decoder descreve como voltada à descoberta de remédios com IA. O The Decoder tratou a mudança como uma saída do DeepMind, mas a descrição do perfil é mais completa.
Ou seja, quem diz que a AGI está perto é o principal cientista de uma das empresas que mais disputam essa corrida. Isso não torna a previsão falsa. Torna a previsão também um recado para investidores, concorrentes e governos, e ela merece ser lida com os dois olhos abertos. Questionado sobre o que significa "vencer" essa disputa, ele respondeu: "ajudar a humanidade a conduzir a AGI ao mundo de forma segura e protegida, para o benefício de todos".
O The Decoder acrescenta dois pontos. Em declarações anteriores, Hassabis comparou o impacto da AGI a "dez vezes a Revolução Industrial, a dez vezes a velocidade". E ele teria proposto recentemente um conselho de supervisão financiado pela indústria e sob controle do governo, encarregado de avaliar modelos antes do lançamento, com o alerta de que regulação ruim é pior do que nenhuma. Se ele acredita mesmo na primeira frase, a segunda deveria receber mais atenção do que o cronômetro.
O que fazer com isso
Na prática, nada muda no seu celular amanhã. O que muda é o filtro. Da próxima vez que uma empresa anunciar que "chegou à AGI", aplique o critério do próprio Hassabis e pergunte se o sistema descobriu algo que ninguém lhe ensinou ou se só ficou melhor em responder.
Quando o sujeito mais cauteloso da sala encurta o próprio prazo, vale prestar atenção. Só não esqueça que o relógio é dele, e que ele também está na corrida.


